Arrancou esta quinta-feira o julgamento de um homem francês de 39 anos, guarda-costas em Lyon, preso preventivamente em 2023 depois de ter sido acusado de sedar a sua companheira de longa data, de violá-la e de filmar os abusos sexuais que depois partilhava online. A investigação das autoridades francesas estabeleceu que este homem teve contacto com Dominique Pelicot, condenado a 20 anos de prisão em dezembro de 2024 por ter drogado, violado e deixado dezenas de homens violar a sua ex-mulher, Gisèle Pelicot, ao longo de dez anos.
A procuradoria francesa alega, na acusação citada pelo The Guardian, que o guarda-costas recorreu à “experiência” de Pelicot em drogar e violar a sua mulher, para replicar os crimes contra a sua própria companheira. A mesma acusação considera que o facto de esta mulher estar profundamente sedada “descarta qualquer forma de consentimento”.
De acordo com os testemunhos da alegada vítima, durante pelo menos três anos — entre 2020 e 2023 — sentiu diariamente uma “grande fadiga”. A mulher relatou ainda problemas cardíacos, tonturas e vários desmaios, até perceber que estaria a ser abusada sexualmente pelo próprio companheiro, que é pai do seu filho.
O homem que está a ser julgado esta quinta-feira em Lyon trabalhava como guarda-costas para clientes de alto perfil em festivais de cinema e em viagens em todo o mundo, incluindo os EUA e países do Golfo.
De acordo com a France 24, embora não tenha sido chamado a depor, Dominique Pelicot negou aos investigadores ter violado esta vítima em concreto, sendo que as comunicações entre os dois homens apontavam para este cenário. O septuagenário, que está preso, defendeu-se dizendo que Lyon ficava “muito longe de casa” e testemunhou ainda que o acusado “não estava preparado para prosseguir com o crime”. Estas alegações foram recordadas esta quinta-feira pela juíza Dominique Thevenet.
Existe, no entanto, um relato, dentro do caso Pelicot, de que o homem de 73 anos chegou a confessar a um indivíduo não identificado ter abusado de uma cabeleireira durante uma estadia em Lyon. Aos investigadores do caso em julgamento garantiu que isso era falso e que estava apenas a tentar gabar-se a outros homens de um abuso falso.
O morador de Lyon só foi preso três anos depois da prisão de Dominique Pelicot, em junho de 2023. Com o seu telemóvel apreendido e revistado, os investigadores encontraram vídeos da sua companheira inconsciente enquanto o acusado abusava dela sexualmente.
No início do julgamento, na manhã desta quinta-feira, o homem de 39 anos disse estar investido em “esclarecer” as suas ações, não reconhecendo, no entanto, a prática de “todos os factos” levados a tribunal.
A linha de defesa foi até agora clara, com um psiquiatra contratado pelos advogados do homem a tentar estabelecer uma relação entre os atos violentos do homem e uma infância carente de afeto, por ter sido criado por uma mãe solteira e um sonho de uma carreira nas forças especiais, que “desmoronou” após uma lesão no tornozelo.
Alegaram ainda que o homem atuava com um comportamento “compensatório, impulsivo” e “limítrofe”, caracterizado pelo uso crescente de drogas num “cenário sexual perverso e desviante alimentado pela internet”.