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Dezasseis anos depois, a primeira repetição de sempre de um jogo inaugural do Campeonato do Mundo. Em 2010, naquela que foi a primeira e única edição de uma fase final jogada no continente africano, a África do Sul engalanou-se para uma festa que começava com a receção ao México no Soccer City, em Joanesburgo. Os quase 85.000 lugares eram poucos para todos aqueles que queriam marcar presença num momento para a história onde só faltou mesmo Nelson Mandela (que perdera na madrugada anterior uma bisneta, Zenani, vítima de um acidente de viação depois de ter assistido a um concerto na Fan Zone no Soweto). Houve dois golos, houve festa, houve muita emoção. Tudo, claro, num estado puro. Num estado “diferente” de 2026.
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Para quem não conseguiu entrada no recinto mesmo estando a cobrir esse Campeonato do Mundo (como foi o caso de quem escreve esta crónica), assistir ao encontro no Soweto entre cerca de 20.000 sul-africanos de vuvuzela na mão, sempre a dançar e com a esperança de um futuro melhor entre uma sociedade fraturada e abalada por um sem-número de problemas sociais, políticos e económicos valeu mais do que uma entrada no Soccer City. Agora, e para quem não entrava no mítico Azteca, a realidade era outra. Havia quem continuasse em festa, claro, mas eram muitos aqueles que se juntavam às várias manifestações de protesto não tanto pela fase final do Mundial mas pela falta de respostas perante o desaparecimento de milhares de pessoas alegadamente vítimas dos cartéis instalados no país. Foi isso que foi marcando o dia 1 da prova, foi isso que imperou até ao final da cerimónia de abertura. A partir daí, e por 90 minutos, olhava-se para a bola.
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Havia um ponto comum a esse jogo de 2010. Se do lado da África do Sul Helman Mkhalele, uma referência da seleção que era uma das principais caras da seleção em 2010 não tendo qualquer cargo, é agora adjunto de Hugo Broos, Rafa Márquez, ex-central que marcou o golo que fez o empate nessa partida depois do 1-0 de Siphiwe Tshabalala, é adjunto de Javier Aguirre e deverá assumir o comando dos mexicanos no final deste Mundial. O jogador que passou por Mónaco e Barcelona, entre outros, continua a ser um ídolo entre uma equipa mexicana que, depois do Qatar-2022, mantém a procura por referências que possam dar uma nova esperança às gerações futuras. E esse foi o grande destaque do jogo: há mais vida além do presente.
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Comecemos pelos golos. Julián Quiñones inaugurou o marcador logo aos nove minutos aproveitando uma perda de bola de Yaya Sithole à saída da área após passe do guarda-redes, Raúl Jiménez aumentou o avanço na sequência de um cruzamento de Alvarado ao segundo poste para o desvio de cabeça do antigo avançado do Benfica (67′). Pelo meio, Quiñones ainda acertou no poste, Ronwen Williams tirou por duas vezes o golo a Jiménez e o encontro teve um sentido único entre a garra dos anfitriões na discussão de todas as bolas e o completo falhanço na abordagem ao jogo da África do Sul, que acabou o jogo a ganhar apenas nos aspetos em que ninguém quer ficar na frente: nas faltas duras, nos cartões e nas expulsões. Foi essa falta de oposição que tirou interesse na partida inaugural, que teve pouco ou nada a ver com o que se passara em 2010.
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Do lado da África do Sul, Yaya Sithole, jogador do Tondela que já passou por Sporting (formação), V. Setúbal (Sub-23), B SAD e Gil Vicente, foi o espelho de uma lei de Murphy onde tudo o que podia ter corrido mal, correu ainda pior: esteve no lance do 1-0, foi expulso no início da segunda parte, pelo meio pouco ou nada fez de positivo. Já da parte do México, que na segunda parte estreou o jogador mais novo deste Campeonato do Mundo (Gilberto Mora, de 17 anos), El Lobo Jiménez e a Pantera Quiñones foram os principais intérpretes num dia em que o Azteca começou com olés, não demorou a fazer a ola e acabou a cantar a tradicional música do Cielito Lindo. Tudo correu bem – mas a oposição foi demasiado frágil…
A estrela
- Quem anda entretido a fazer equipas da Fantasy para desafiar todos os amigos de todos os grupos vai perceber as próximas linhas: Julián Quiñones era de caretas. O avançado dos sauditas do Al-Qadsiah foi o melhor marcador da Liga e terminou a temporada no clube com mais golos do que jogos realizados pela formação que desafiou os quatro clubes detidos pelo Fundo Soberano saudita, deixando o mote para, à beira dos 30 anos, dar o salto para uma equipa que tivesse outras ambições desportivas (logo à cabeça, uma aventura que o traga pela primeira vez para a Europa). Para já, o cartão de visita ficou em cima da mesa: um golo, uma bola no poste e a garantia de que pode ser um caso sério nos anfitriões pela explosividade, verticalidade e capacidade de finalização dentro e fora da área. Ah, voltando a essa parte da Fantasy: frente a uma defesa como a da África do Sul, era aposta para garantir bons pontos…
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O joker
- A diferença coletiva entre México e África do Sul era grande mas ficou multiplicada com a capacidade que o meio-campo dos anfitriões teve em ser melhor do que os africanos. Aí, Brian Gutiérrez teve um papel fundamental para deixar patentes essas diferenças. O lance em que Yaya Sithole é um exemplo paradigmático de como o jovem médio do Guadalajara, que fez a sua formação nos norte-americanos do Chicago Fire, conseguiu ter movimentos que desequilibravam por completo a organização defensiva da África do Sul entre desmarcações de rutura, passagens por corredores laterais para criar superioridade e aparições na zona de finalização. Há sangue novo a aparecer no México e corre muito por Gutiérrez.
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A sentença
- Com esta vitória o México deu um passo importante para garantir a qualificação para os 16 avos de final, precisando agora na teoria de apenas um ponto para ter entrada certa na fase a eliminar. Já em relação à África do Sul, o cenário não fica propriamente famoso, não apenas pela falta de pontos no final da primeira jornada mas também, ou sobretudo, pela imagem muito pálida que foi deixada desde o início do jogo de estreia. Segue-se o duelo com a Rep. Checa, que joga muito também nessa partida.
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A mentira
- O primeiro jogo do Mundial teria uma série de “estreias”, como por exemplo os hinos cantados com todos os 26 jogadores no relvado e não apenas os suplentes. Mas havia mais, como aquelas paragens para hidratação que mais não são do que um pretexto para encontrar espaços para faturar ainda mais em termos publicitários. Isso, por si só, já é uma “mentira”. No entanto, existiu uma ainda maior: os elogios à organização defensiva que vinham colados à imagem da África do Sul. Por um lado, isso não saiu do papel; por outro, a única forma de travar as saídas rápidas dos mexicanos em que um dos avançados recebia com mais espaço era de forma inevitável com faltas (algumas duras).
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