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(A) :: Para o BCE decisão de subir juros era uma "necessidade óbvia" e foi "unânime". Para o Governo português era "desnecessária"

Para o BCE decisão de subir juros era uma "necessidade óbvia" e foi "unânime". Para o Governo português era "desnecessária"

Lagarde deixou de insistir nas diferenças entre atual ameaça inflacionista e surto de 2022. Decisão foi unânime no Conselho do BCE e nem se discutiram alternativas. Mas Miranda Sarmento não concorda.

Edgar Caetano
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A decisão de subir as taxas de juro, em 25 pontos-base, não só foi uma opção que já era esperada pelos analistas como foi uma “necessidade” que era “óbvia” aos olhos de Christine Lagarde. Aliás, não apenas aos olhos da presidente do BCE, porque a opção foi “unânime” em todo o Conselho onde participa Álvaro Santos Pereira (governador português que não teve direito de voto nesta reunião). No entanto, poucos minutos após o microfone de Lagarde se desligar em Frankfurt, o microfone que foi apontado a Joaquim Miranda Sarmento, no Luxemburgo, permitiu perceber que o Governo português não concorda com a decisão – considerando-a “desnecessária“.

As justificações de Christine Lagarde foram dadas perante a habitual sala das conferências de imprensa, em Frankfurt, onde estavam cerca de 50 jornalistas de vários países – incluindo o Observador. Apesar da presença de largas dezenas de jornalistas que, no final de cada resposta, levantavam as mãos para fazer perguntas, a seleção de perguntas seguiu uma lista que incluiu os mesmos repórteres que, mês após mês, têm oportunidade de questionar a presidente do BCE.

Essas perguntas permitiram à presidente do Banco Central Europeu (BCE) explicar porque é que era tão necessário, agora, subir as taxas de juro de 2% para 2,25%. A decisão foi tão rápida e consensual que a reunião do Conselho terminou, sabe o Observador, mais cedo do que é habitual – a meio da manhã, em Frankfurt, os responsáveis dos vários bancos centrais nacionais já estavam a caminho dos respetivos países.

Christine Lagarde garantiu que nem foram colocados no debate outros cenários, como não mexer nas taxas de juro ou, hipoteticamente, subir de forma mais agressiva (50 pontos, por exemplo).

Recusando a ideia de que este tenha sido um aumento dos juros apenas “preventivo“, como quando se paga um prémio de um seguro, a francesa argumentou que não é disso que se trata. Esta é, aos olhos do BCE, uma decisão “robusta” e compatível com os vários cenários previstos para a inflação (e para a economia), até mesmo o cenário mais positivo (ou, em rigor, menos negativo).

Mesmo com esta tentativa de esclarecimento, os analistas continuam a achar que “este aumento da taxa de juro foi mais um movimento simbólico para sinalizar a vontade e a determinação do BCE em não ser demasiado tardio na implementação da sua resposta política”. Carsten Brzeski, economista do banco holandês ING, afirma que “não será um aumento da taxa de juro [de apenas 25 pontos-base] que irá fazer descarrilar a economia da zona euro”, pelo que esta é “uma decisão tomada tendo a reputação em mente”

Como salientou o economista-chefe do BCE, Philip Lane, recorda Carsten Brzeski, “o risco de não fazer nada e de potencialmente ser ultrapassado pelos acontecimentos é maior do que o risco de quaisquer efeitos adversos no crescimento decorrentes de taxas de juro mais elevadas”.

Ainda assim, o ING não está muito convencido. “Não conseguimos afastar a ideia de que o BCE está, na verdade, a lutar contra fantasmas do passado – mais concretamente, a sua reação tardia ao choque inflacionista de 2021 e 2022″, afirma o banco holandês, lembrando que, “na altura, a autoridade monetária se agarrou demasiado à ideia de que um aumento da inflação impulsionado por choques de oferta era ‘transitório’ e podia ser ignorado”.

Não se pode ser “complacente” quando existem riscos de inflação excessiva, salientou Christine Lagarde, que já era presidente do BCE quando surgiu o mais recente surto inflacionista que começou em 2021 e acelerou com o início da guerra na Ucrânia, em 2022.

Se se deixa a inflação subir sem controlo depois torna-se mais difícil puxá-la para baixo e alinhá-la com estabilidade dos preços”, afirmou a francesa, sem reconhecer explicitamente que o BCE foi um complacente em 2022. Lagarde preferiu falar, isso sim, do que aconteceu em 2025, ano em que a inflação se manteve firme perto do objetivo de 2%.

“Não gosto de me gabar, nem manifestar vaidade, mas ter mantido a inflação no alvo nos últimos 12 meses não foi algo que aconteceu por o BCE ter sido complacente”. “Fizemos o nosso trabalho”, asseverou Lagarde.

A presidente do BCE afirmou que se está a ver um alargamento das consequências da guerra e da subida dos preços da energia, mas ainda não considera que existam efeitos de segunda ordem significativos, ou seja, o aumento dos preços da energia ainda não está a gerar uma generalização dos impactos na economia em geral. Esses efeitos de segunda ordem, como o contágio da subida de preços às negociações salariais, por exemplo, são aquilo que os bancos centrais nunca querem ver porque isso pode significar um enraizamento da inflação rápida demais na economia.

No entanto, se nas últimas conferências de imprensa Lagarde se tinha esforçado por destacar as diferenças entre o contexto de 2022 e o atual, agora a presidente do BCE não afinou pelo mesmo diapasão – e deixou implícito que os riscos de um descontrolo da inflação são agora um pouco mais preocupantes do que se achava há poucas semanas.

Essa mudança de discurso não faz, no entanto, qualquer sentido, defendeu o ministro das Finanças português. Joaquim Miranda Sarmento considerou que a subida das taxas de juro anunciada pelo BCE devido às pressões inflacionistas da guerra no Médio Oriente “não era absolutamente necessária”, já que esta é uma “crise diferente da de 2022”.

“Naturalmente há uma preocupação do BCE, que teve uma ação muito importante em 2022″, reconheceu Miranda Sarmento, acrescentando que a autoridade monetária “entendeu dar este primeiro sinal ao mercado”. Mas terá sido uma decisão correta? “Veremos nos próximos meses“, afirmou.

“Eu mantenho a minha opinião de que podia não ter dado este sinal e não era absolutamente necessário, mas respeito naturalmente o mandato e a independência do BCE”, disse o ministro das Finanças, poucos dias depois de o Estado português ter tido que pagar taxas de juro mais elevadas para se financiar nos mercados, devido à expectativa – agora confirmada – de que o BCE iria subir os juros nesta quinta-feira.

Economistas antecipam novo aumento dos juros, em julho ou setembro

Subindo os juros de 2% para 2,25%, o primeiro aumento dos juros em quase três anos, Christine Lagarde não quis comprometer-se com aquilo que pode acontecer nos próximos meses, designadamente que decisão pode ser tomada a 23 de julho, a próxima reunião do Conselho do BCE.

“Tendo o nível de incerteza que enfrentamos, iremos decidir reunião a reunião o que fazer”, afirmou a líder da autoridade monetária. Aos olhos dos analistas, ficou claro que Christine Lagarde deixou a porta aberta para novos aumentos, seja em julho seja em setembro, quando saem novas previsões macroeconómicas (que são atualizadas trimestralmente).

“Após este aumento de 25 pontos base na taxa de juro, que era amplamente esperado, a presidente do BCE evitou sinalizar um novo aumento”, escreveu Jörg Krämer, economista do Commerzbank. “No entanto, nas entrelinhas, a sua descrição dos riscos de inflação soou mais preocupada do que antes”, acrescentou, notando que é muito provável que haja novos aumentos dos juros, mesmo que não já no próximo mês.

“Agora, mais do que nunca, esperamos que o BCE volte a aumentar as suas taxas na reunião depois da próxima, ou seja, em setembro“, afiançou o banco alemão. O ING está convencido do mesmo. “Uma segunda subida da taxa de juro após a decisão desta quinta-feira, seja em julho ou setembro, tornou-se mais provável”.

Ainda assim, não é de esperar um ciclo agressivo de subida dos juros, conclui o banco holandês. “Enquanto “os governos não alimentarem uma espiral inflacionista com estímulos orçamentais e os indicadores de confiança se mantiverem fracos, é difícil imaginar que o BCE queira realmente combater um choque exógeno da oferta com subidas agressivas das taxas de juro, a custo de potencialmente agravar uma recessão económica”, afirma o ING.