Aconteceu em 2012 quando o Facebook fez a sua oferta pública inicial (IPO, sigla que corresponde à terminologia anglo-saxónica Initial Public Offering). Um atraso de meia hora no arranque das negociações do Facebook no Nasdaq não foi suficiente para resolver o problema de software então detetado e mais de 30 mil pedidos de transações de títulos da rede social ficaram parados no sistema durante mais de duas horas. A bolsa tecnológica acabou, um ano mais tarde, multada em 10 milhões de dólares (8,7 milhões ao câmbio atual).
O IPO do Facebook, de 16 mil milhões de dólares (13,8 mil milhões de euros ao câmbio atual), era visto como a colocação do século (até então). Os sistemas do Nasdaq não aguentaram a dimensão da operação e foram abaixo. Chegou a quantificar-se em 500 milhões as perdas que tiveram os investidores de retalho e os grandes bancos de investimento por causa dos erros daquele dia. Robert Greifeld, então presidente do Nasdaq, acabou por considerar ter havido na bolsa “arrogância” e “excesso de confiança”, o que contribuiu para os problemas. O Facebook colocou, a 18 de maio de 2012, um total de 421 milhões de ações (a 38 dólares — 32,9 euros ao preço atual), arrecadando cerca de 16 mil milhões de dólares, o que permitiu avaliar a empresa fundada por Mark Zuckerberg em mais de 100 mil milhões de dólares (cerca de 87 mil milhões de euros, ao câmbio atual) — hoje vale cerca de 1,6 biliões de dólares (1,4 biliões de euros) e dá pelo nome de Meta.
A SpaceX, empresa de Elon Musk, vai colocar 555,6 milhões de títulos na sua Oferta Pública Inicial, com o objetivo de encaixar 75 mil milhões de dólares (cerca de 65 mil milhões de euros). Com cada ação a ser colocada a 135 dólares (cerca de 117 euros), a empresa entra no mercado de capitais avaliada em 1,8 biliões de dólares (1,6 biliões de euros). Isso mesmo 1.800.000.000.000.
Apesar de o IPO ter sido há 14 anos, ainda está fresco na memória de negociadores dos mercados de capitais (traders), corretores, bancos de investimentos e bolsas que correm contra o tempo para verificar se os seus sistemas aguentam esta megaoperação, segundo noticiou a Reuters. “É um evento histórico”, declarou à agência noticiosa Peter Tuz, presidente da Chase Investment Counsel, considerando que “se algo desta dimensão arrancar e as negociações caírem, não só irá lançar uma sombra sobre o mercado em geral, como também sobre os outros IPO que estão na calha”. E são vários: Anthropic e OpenAI serão os seguintes.
https://observador.pt/especiais/depois-da-spacex-rivais-anthropic-e-openai-aceleram-para-ver-quem-chega-primeiro-a-bolsa-no-ano-dos-mega-ipo/
As bolsas, escreve a Reuters, fizeram, desde o falhanço de 2012, avultados investimentos tecnológicos para conseguirem lidar com volumes elevados. É o que vai acontecer esta sexta-feira, quando a SpaceX chegar ao mercado de capitais.
Será cotada no Nasdaq e será a maior oferta pública inicial de sempre, ultrapassando a saudita Saudi Aramco, que levantou com a colocação em bolsa 26 mil milhões de dólares (cerca de 22,5 mil milhões de euros ao câmbio atual) e a Alibaba, que conseguiu 25 mil milhões de dólares. Apesar disso terá um nível de dispersão relativamente baixo — não chegará a 5% do capital.
Um fã dos investidores particulares e uma mudança nas regras para permitir mais compradores
Irá Elon Musk tocar o sino no arranque da cotação da SpaceX no Nasdaq? É uma cerimónia habitual na bolsa de Nova Iorque ver os principais responsáveis pelas empresas a darem ordem de abertura (ou fecho) das negociações em determinado dia tocando o sino. A pergunta foi feita na bolsa de apostas Polymarket e até ao momento 67% dos votos apostam na sua presença — na mesma plataforma também se aposta (69%) que a capitalização no fecho desta sexta-feira atingirá os 2 biliões de dólares (1,7 biliões de euros). Elon Musk esteve mesmo presente.
https://twitter.com/Nasdaq/status/2065422309318377975
Não há, no entanto, dúvida que o facto de a SpaceX ser de Elon Musk é um dos motivos de adesão. As ordens de compras só do retalho (particulares) atingiram os 100 mil milhões de dólares (86,6 mil milhões de euros), segundo a Bloomberg. A este montante tem de se somar os pedidos feitos por fundos soberanos, fundos de investimento e bancos de investimentos. Só a BlackRock terá pedido 5 mil milhões de dólares (4,3 mil milhões de euros), de acordo com o Wall Street Journal
Elon Musk está a olhar para os investidores particulares. “Sou grande fã dos pequenos investidores de retalho”, declarou em 2020 quando tweetou sobre a possível dispersão em bolsa da SpaceX ou do negócio do Starlink. “Faremos com que tenham prioridade”, escreveu, então.
https://twitter.com/elonmusk/status/1310672832783884290
A chegada da SpaceX à bolsa acontecerá, de acordo com o Wall Street Journal, com uma porção reservada aos investidores particulares maior do que o habitual nestas operações. Colocará cerca de 20%, face aos típicos 5-7% da oferta. Mas nem todos conseguirão adquirir ações — a procura estará muito mais alta do que a oferta.
“A alocação de uma fatia relevante da oferta ao segmento de retalho configura uma mudança face ao modelo tradicional de IPO desta dimensão, geralmente dominado por investidores institucionais”, diz ao Observador João Queiroz, head of trading ou diretor de negociação do Banco Carregosa. Esta opção de alocação em mercado primário, acrescenta, “tende a alargar a base de investidores e a reforçar a visibilidade pública da operação, mas também introduz maior heterogeneidade e diversidade no comportamento do mercado”. Uma maior presença de retalho pode “amplificar movimentos de curto prazo, sobretudo em fases iniciais de negociação, dada a menor previsibilidade dos fluxos e a maior sensibilidade ao sentimento”.
Esta estratégia, por outro lado, diz João Queiroz, “pode ser interpretada como uma tentativa deliberada de democratizar o acesso a um ativo altamente procurado, potenciando um envolvimento mais direto de investidores individuais numa história de crescimento estrutural. No entanto, este alargamento do universo de participantes não elimina os riscos inerentes à valorização e à falta de histórico, podendo até acentuar a volatilidade em momentos de ajustamento”.

Vítor Madeira, analista de mercados da XTB, acrescenta que a maior percentagem (na oferta) destinada ao público em geral pode simbolizar o “hype” em torno da empresa e dos mercados em geral, “depois das valorizações explosivas dos índices acionistas norte-americanos ao longo do mês de abril e maio”, assumindo que “Elon Musk compreende perfeitamente o poder do investidor comum e, ao reservar um quinto da oferta para o retalho, transforma clientes e admiradores em acionistas defensores da marca, aproveitando assim esse capital para financiar a SpaceX”.
Na Tesla, também de Elon Musk, os investidores individuais representam cerca de um terço da base de acionistas. A empresa de automóveis vale hoje 1,25 biliões de dólares (cerca de um bilião de euros).
Essa fatia coloca, por outro lado, “enorme pressão compradora no dia da estreia, já que a liquidez do retalho absorve as ações independentemente das métricas de avaliação tradicionais. Contudo, do ponto de vista financeiro, isto também sinaliza uma maior volatilidade a curto prazo, dado que os pequenos investidores tendem a reagir de forma mais impulsiva a notícias”.
Com tanto apetite pré-anunciado, as regras mudaram para permitir ainda maior adesão. O Nasdaq e a Bolsa de Nova Iorque passaram a permitir que uma empresa recém-entrada em bolsa possa integrar os índices principais, como o S&P 500 e o Nasdaq 100, permitindo que os fundos que replicam estes índices comprem ações. Fundos de pensões ou de poupança vão, assim, poder fazer parte do clube de acionistas, replicando índices, quando pelas regras não poderiam comprar ações de uma empresa “novinha” na bolsa.
“A operação tem potencial para se afirmar como um dos maiores IPO de sempre, tanto pela dimensão como pela intensidade da procura já observada. O contexto técnico de mercado — incluindo possíveis aceleradas inclusões em índices e consequentes fluxos passivos — poderá sustentar uma valorização inicial robusta, sobretudo num cenário de oferta limitada e forte procura”, ainda assim, “é expectável um período inicial marcado por elevada volatilidade, à medida que o mercado procura estabelecer uma referência de preço mais estável”.
Também a gestora de ativos Julius Baer admite que “as recentes alterações nas metodologias dos índices Nasdaq e Russell estão a encurtar o caminho entre a oferta pública inicial e a inclusão no índice de referência. Para algumas grandes cotações, a procura por parte de fundos passivos poderá surgir em poucos dias, em vez de meses, após a entrada em bolsa. A SpaceX constitui o primeiro grande caso de teste”.
Um referendo a Elon Musk?
Elon Musk é o rosto da SpaceX e, claro, de mais uma operação multimilionária. “Este IPO funciona indiscutivelmente como o teste de algodão definitivo e um verdadeiro referendo à perceção de valor que o mercado tem sobre Elon Musk”, assume Vítor Madeira.
João Queiroz admite também que, “ainda que a SpaceX tenha fundamentos próprios e uma lógica industrial distinta, é difícil dissociar a operação da figura de Elon Musk, cuja influência transversal nas várias empresas do ecossistema tecnológico permanece determinante. Neste sentido, parte da avaliação incorpora uma componente reputacional e de confiança na capacidade de execução do fundador, funcionando, em certa medida, como uma validação indireta da sua visão estratégica”. No entanto, “adequar o IPO a um eventual ‘referendo’ pessoal tende a simplificar em excesso a análise. A SpaceX apresenta ativos concretos — nomeadamente infraestrutura espacial e uma base de receitas em crescimento através do Starlink — que justificam uma abordagem mais granular”.
Ainda assim, conclui João Queiroz: “A dependência de liderança e a interligação com outros projetos do universo Musk podem introduzir uma dimensão adicional de risco que os investidores deverão considerar”.
“Após as volatilidades associadas à aquisição do X e às pressões de concorrência enfrentadas pela Tesla, a SpaceX surge como a joia da coroa intocável do empresário. Os investidores não vão apenas avaliar os fluxos de caixa gerados pelos lançamentos ou pelas subscrições do Starlink, mas vão também precificar o chamado ‘prémio Musk’, ou seja, a sua capacidade de alcançar o impossível”, acrescenta ao Observador o economista da XTB.
Elon Musk, o homem mais rico do mundo, mas também controverso, manterá 80-85% dos direitos de voto depois da operação. Até ao momento, e mesmo sendo uma empresa não cotada, a SpaceX já levantou largas somas de dólares de investidores institucionais. Desde que foi criada, já recebeu financiamento de várias entidades — que agora poderão ser recompensadas –, como a gestora de fundos Fidelity, Sequoia, Andreessen Horowitz. E que agora vão colher os frutos. Era uma empresa só para alguns, com a entrada em bolsa torna-se uma empresa de quase todos (os que tiverem pelo menos 135 dólares para comprar ações). Os primeiros sinais indicam que os investidores dissociam mercados de capitais de política. Esta operação vai tornar Elon Musk ainda mais rico (tornar-se-á o primeiro bilionário ou na terminologia anglo-saxónica trillionaire), mas arrastará consigo (não num valor tão elevado) trabalhadores e ex-trabalhadores da SpaceX que foram recebendo, ao longo dos anos, ações. O The New York Times contabiliza em mais de 4.400 os que esta sexta-feira vão enriquecer, com cerca de 400 a conseguirem uma fortuna de 100 milhões ou mais.
https://observador.pt/especiais/spacex-quer-o-maior-ipo-da-historia-empresa-de-musk-tem-prejuizos-mas-quer-levantar-voo-em-bolsa/
Nalaka De Silva, gestora no abrdn Global Private Markets Fund, considera que “colocações em bolsa como a SpaceX é um momento importante não apenas para o setor do Espaço, mas para os financiamentos privados como um todo. Sublinham como a inovação é construída e ganha escala ao longo de muitos anos no mercado privado antes de atingir a fase pública [cotada].
Uma empresa do Espaço abre caminho na Terra
A SpaceX não é lucrativa — aliás até escreve como risco a possibilidade de nunca chegar a ter lucros. Tem mais de 20 anos. Nasceu em 2002. Porquê agora a entrada em bolsa? Elon Musk deixou claro. Há mais de 10 anos que lhe falam em colocar a empresa em bolsa, que tem sido autofinanciada, mas assume: “Estamos numa fase de crescimento e é preciso dinheiro” (minuto 6,51). Vai colocar mais de 100 mil satélites em órbita só para comunicações e continua a financiar o programa Starship.
https://youtu.be/hyJyKeVLmRw
O Starlink, a constelação de satélites, é uma das chaves para o sucesso da SpaceX, mas os investidores olham para a empresa além desse negócio. E é o que promete que está por detrás da avaliação e do apetite.
“A avaliação implícita da operação reflete expectativas muito exigentes quanto ao crescimento futuro, sobretudo num contexto em que a empresa ainda apresenta pressão ao nível dos resultados operacionais e forte intensidade de capital. Este desfasamento entre métricas atuais e projeções futuras implica uma menor margem de erro na execução, tornando o investimento particularmente sensível a revisões de expectativas”, salienta João Queiroz, admitindo movimentos de correção por via da elevada valorização, concentração inicial de procura e eventuais restrições de oferta (como períodos de lock-up). “Caso o enquadramento macroeconómico ou os indicadores operacionais não confirmem a narrativa de crescimento, o potencial de ajustamento em baixa torna-se mais relevante. Neste racional, a atratividade do ativo deve ser ponderada à luz de um equilíbrio entre potencial disruptivo e exigência da avaliação implícita”.
É depois do período de lock up — em que determinados agentes do mercado não podem vender ações — que a história tende a escrever-se. “Os investidores concentram-se frequentemente no dia da oferta pública inicial, mas a história sugere que o fim dos períodos de lock-up pode ser mais importante. A flutuação aumenta normalmente de forma substancial ao longo do tempo, criando tanto oferta adicional como alterações potencialmente significativas na procura de índices de referência. As empresas em rápido crescimento com um caminho rápido para a rentabilidade têm historicamente gerado os retornos mais fortes após a sua estreia em bolsa. A seletividade é mais importante do que nunca no mercado atual de IPO”, acrescenta uma análise da Julius Baer.
Espaço (a SpaceX foi responsável por cerca de 90% dos lançamentos de foguetões nos Estados Unidos em 2025), conectividade (com o Starlink no papel principal) e inteligência artificial (colocar data center). Palavras-chave no mundo atual, mas também no futuro. A SpaceX entra em bolsa a valer mais do que as 10 maiores empresas de Espaço e defesa da bolsa de Nova Iorque. “Prevemos uma avaliação de mercado com múltiplos substancialmente superiores aos da indústria aeroespacial de defesa tradicional, tratando a SpaceX como uma tecnológica pura e um monopólio prático de telecomunicações globais, o que elevará consideravelmente a fasquia da exigência de resultados para os trimestres seguintes e qualquer falha pode levar a volatilidade agressiva no preço das ações”, acrescenta Vítor Madeira.
“Por norma este tipo de IPO leva as empresas a entrar em bolsa bastante acima do seu ‘real valor’, apoiadas principalmente pelas promessas futuras” e, por isso, diz Vítor Madeira, “se a operação for um sucesso, ficará provado que o mercado continua a perdoar a sua imprevisibilidade em prol da genialidade disruptiva”. “Por outro lado, falhas em lançamentos e quedas prolongadas no preço podem sinalizar que os grandes fundos institucionais estão a exigir maior maturidade, controlo e disciplina à sua gestão”.
Elon Musk volta a criar um hype em torno das suas criações, e mais uma vez o FOMO (fear of missing out) — medo de ficar de fora — a jogar o seu papel.
Com a estreia marcada para esta sexta-feira, 12 de junho, a SpaceX aponta caminho, também, para outras grandes operações que vão chegar. Mas só esta empresa promete “construir os sistemas e as tecnologias necessários para tornar a vida multiplanetária, compreender a verdadeira natureza do universo e estender a luz da consciência às estrelas. Para o fazer, formámos o motor de inovação verticalmente integrado mais ambicioso da (e fora da) Terra, com capacidades inigualáveis para fabricar e lançar rapidamente comunicações espaciais que ligam o mundo, para potenciar o Sol de forma a alimentar uma inteligência artificial em busca da verdade que faça avançar a descoberta científica e, em última análise, para construir uma base na Lua e cidades noutros planetas.”