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O que é a compulsão sexual? 10 perguntas sobre culpa, vergonha e ansiedade — e impulsos difíceis de controlar

Quando procurar ajuda por causa dos comportamentos sexuais e da forma como limitam as relações? Como identificar os sinais de alerta? E como olhar para o tema sem preconceitos mas de forma séria?

Sara Dias Oliveira
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Os impulsos e desejos sexuais difíceis de dominar perturbam o dia a dia, causam problemas nas relações conjugais e diminuem a concentração e produtividade no trabalho. E alguns comportamentos nem sempre são fáceis de enquadrar e explicar. Pode revelar-se uma estratégia de alívio imediato, quando o stress se torna crónico e progressivo. Mas pode também ser uma forma de lidar com a ansiedade, com as emoções e com os sentimentos de solidão e aborrecimento.

Não há uma causa única que explique uma perturbação sexual compulsiva. Histórias de trauma, negligência emocional na infância, problemas de vinculação, baixa autoestima e dificuldades em regular as emoções são sempre fatores a ter em conta. Mas também é preciso analisar o ciclo “gatilho-tensão-comportamento-alívio-culpa-repetição” para entender a raiz do problema — e reconhecer que há um problema. A depressão pode ser uma consequência e o isolamento total também, pelo que é importante haver uma intervenção psicoterapêutica.

O que é a compulsão sexual?

Designada como Perturbação do Comportamento Sexual Compulsivo, trata-se de um padrão persistente em que a pessoa não consegue controlar impulsos ou desejos sexuais repetitivos e intensos por períodos de seis meses ou mais e causa sofrimento acentuado ou prejuízo na funcionalidade amorosa, pessoal, familiar, social e profissional. Dito de outra forma, a pessoa passa a não estar equilibrada numa relação, na família, no trabalho, etc…

Segundo Luísa Leal, psicóloga e neuropsicóloga clínica, não há um consenso científico. À semelhança da Perturbação Obsessivo-Compulsiva, “descrevem-se os pensamentos intrusivos que levam a compulsões (comportamentos sexuais repetitivos), com o objetivo de apaziguar o mal-estar gerado pelas obsessões, mas também como uma perturbação aditiva”. Até porque esta compulsão conduz a uma escalada de comportamentos, sintomas de abstinência, disfuncionalidade na gestão de tempo e atividades quotidianas, além da dificuldade em reduzir ou parar as atividades sexuais.

Como se manifesta?

De diferentes formas. Através de masturbação repetitiva, determinados comportamentos sexuais repetitivos com outras pessoas, consumo de pornografia, cibersexo (sexo através da internet) ou sexo por telefone, etc. Os sintomas incluem atividades sexuais repetitivas que se tornam o foco central da vida, bem como negligência em termos de cuidados de saúde ou outros interesses e atividades, além de muitos esforços mal sucedidos para reduzir o comportamento — que continua, apesar de consequências adversas ou de pouca ou nenhuma satisfação.

Quais as causas?

Não há uma causa única, mas antes aspetos multifatoriais. Há fatores psicológicos como histórias de trauma, negligência emocional na infância, problemas de vinculação, baixa autoestima, dificuldades em regular as emoções ou consequências de ansiedade e depressão. Há também fatores neurobiológicos, com alguns estudos a sugerirem alterações nos sistemas cerebrais relacionados com a recompensa, o prazer e a dopamina, ligados ao controlo dos impulsos e à tomada de decisão. E fatores comportamentais: Luísa Leal explica que o comportamento sexual pode tornar-se uma estratégia de alívio imediato, quando o stress se torna crónico e progressivo, e pode ainda servir de estratégia não adaptativa para lidar com a ansiedade, com as emoções e sentimentos de solidão e aborrecimento.

“Torna-se, por isso, uma forma não adaptativa de lidar com emoções desconfortáveis e uma procura de um prazer e alívio imediato, como acontece quando recorremos a quantidades de comida exageradas ou a passar uma noite a jogar ou a consumir uma substância na expectativa de alterar o que estamos a sentir ou para fugir à dor.”

E que emoções provoca?

O que é descrito é semelhante ao que algumas pessoas com adição partilham, ou seja, antes do comportamento normalmente sentem aborrecimento, solidão, muita ansiedade, tensão muscular, frustração e raiva, tristeza, vazio emocional ou insegurança. Durante o comportamento, sentem maior excitação, uma sensação de alívio imediato, mais euforia e adrenalina temporárias. Após o comportamento, surgem sentimentos de culpa, vergonha, arrependimento, por vezes, desespero e pensamentos automáticos de autocrítica.

Há sinais de alerta?

Sim, há vários sinais relevantes na avaliação do comportamento sexual compulsivo. Nomeadamente:

  • Não conseguir controlar os desejos e impulsos sexuais;
  • Preferir ter relações sexuais a fazer qualquer outra coisa;
  • Tentar reduzir a frequência das relações sexuais mas sem resultado;
  • Embora o sexo já não seja tão satisfatório como antes, continua-se a praticá-lo;
  • Não realizar tarefas importantes por causa do comportamento sexual.

Pode-se falar de “vício em sexo”?

Não há um consenso científico sobre se é mais uma perturbação obsessivo-compulsiva ou se é uma perturbação aditiva. Estará “no meio destes dois conceitos”, explica Luísa Leal ao lembrar que o termo “vício em sexo” “cria uma analogia com a adição”. Atualmente, a ciência prefere utilizar o termo de Perturbação do Comportamento Sexual Compulsivo porque, na prática clínica, coexistem características de ambas as perturbações.

“Não existe um número de relações sexuais, orgasmos ou fantasias que determine automaticamente a presença de um problema”, diz Luísa Leal, acrescentando que “a líbido, por si só, não constitui uma patologia”. É preciso avaliar a presença da perda de controlo, tentativas falhadas de parar ou reduzir o comportamento, sem ajuda psicoterapêutica e de uma equipa multidisciplinar; e a presença de consequências negativas, como problemas na relação amorosa, menor concentração e menor produtividade no trabalho.

Ou seja, existe um impacto evidente em várias áreas da vida da pessoa e na sua funcionalidade, criando um sofrimento significativo. A pessoa sente e sabe que o comportamento está a prejudicar a sua vida e, mesmo assim, não o muda.

A compulsão sexual pode levar alguém a desenvolver comportamentos contra a vontade de outros?

A maioria dos indivíduos com Perturbação do Comportamento Sexual Compulsivo não pratica atos sexuais não consentidos — ou seja, contra a vontade do outro. Da mesma forma, um indivíduo que comete uma agressão sexual não apresenta necessariamente uma compulsão sexual. É importante evitar associar compulsão sexual e violência sexual, uma vez que são problemas com características e enquadramentos clínicos distintos, sustenta Luísa Leal.

“A violência sexual é um fenómeno complexo, associado a múltiplos fatores psicológicos e sociais e não pode ser explicada apenas pela presença do desejo sexual intenso ou de dificuldades no controlo dos impulsos”, diz a psicóloga clínica. Um violador não é necessariamente uma pessoa com compulsão sexual e uma pessoa com compulsão sexual não é, por defeito, um violador.

É uma perturbação mental?

Há ainda um debate sobre a natureza do problema e não há consenso científico sobre se a compulsão sexual deve ser entendida como uma adição comportamental semelhante ao jogo patológico, uma Perturbação Obsessivo-Compulsiva, uma perturbação do controlo dos impulsos ou uma manifestação de outras patologias como, por exemplo, perturbação bipolar.

Existe há muito tempo evidência suficiente de que algumas pessoas apresentam um padrão persistente de incapacidade de controlar impulsos sexuais, uma repetição do comportamento apesar de consequências negativas, sofrimento ou prejuízo funcional, persistente durante vários meses. Mas, neste momento, há um debate na literatura científica, com alguns especialistas a falar de um modelo de dependência comportamental e outros a defender um modelo de compulsão comportamental — e outros ainda a considerar que se trata de um fenómeno heterogéneo que pode resultar de mecanismos diferentes em pessoas diferentes.

Há ainda, diz a psicóloga, “preocupações éticas e culturais, ou seja, receio de que algumas das crenças religiosas, morais ou culturais sobre sexualidade possam vir a  influenciar o diagnóstico.” Por exemplo, uma pessoa pode sentir culpa intensa por masturbação ou pornografia devido às crenças, sem que exista perda de controlo.

E de que forma afeta a saúde mental?

De várias maneiras e com impactos significativos. Desde logo, aumenta a ansiedade. Tentar evitar o comportamento a todo o custo, sem estratégias eficazes e com muita autocrítica, eleva os níveis de stress. Há uma maior prevalência para o desenvolvimento de uma depressão porque sente-se culpa e vergonha. Muitas vezes as pessoas optam pelo isolamento e negam o problema para si e para os outros.

O sofrimento emocional é tremendo. As relações amorosas são afetadas, há perda de confiança da outra pessoa, a autoestima baixa, acredita-se que há algo errado e que não há solução. Tudo isso condiciona pensamentos, comportamentos, modos de estar na vida a nível pessoal, social e profissional. “Evitam-se cada vez mais as relações com os outros, aumentando por isso o medo da rejeição e de ser mal interpretado ou até  julgado, ficando cada vez mais depressivo e negativo com a forma como se vê a si, aos outros e ao mundo”, diz a psicóloga.

Tem tratamento?

Quando a compulsão sexual se torna um problema e o comportamento dura há mais de meio ano, é preciso procurar ajuda especializada. O não reconhecimento individualizado desta problemática dificulta o trabalho clínico e a investigação científica.

Luísa Leal diz que quando o ciclo “gatilho-tensão-comportamento-alívio-culpa-repetição” se forma, “cria-se mais propensão para a repetição do comportamento” e aí é necessário pensar em psicoterapia. “É importante anotar quando os gatilhos ocorrem, o que são esses gatilhos, o que a pessoa sentiu, o que pensou e qual o comportamento que teve para começar a reconhecer as emoções associadas ao comportamento e pensamentos distorcidos, no sentido de criar estratégias de regulação emocional.”

Luísa Leal lembra que há profissionais da área que referem que a intervenção baseada no conceito de adição sexual pode ser problemática, uma vez que encoraja o evitamento de estímulos sexuais, levando à repressão de aspetos saudáveis e fundamentais da sexualidade.

“Uma pessoa pode ter uma vida sexual muito ativa e saudável sem a presença da perturbação. Por outro lado, alguém com uma frequência sexual relativamente modesta pode sofrer significativamente se sentir que perdeu a capacidade de escolher quando, como e porquê ocorrem esses comportamentos.”