O advogado Jaime Dória Cortesão tinha 41 anos quando Silva Resende, então presidente da Federação Portuguesa de Futebol, o desafiou a conduzir o inquérito ao que se passou em Saltillo, durante a participação portuguesa no Mundial do México, em 1986. À Rádio Observador, explica como passou da indignação pelo “comportamento indecoroso” dos jogadores à sua absolvição, passando pelas falhas da Federação, a fuga de informação de dentro da FPF, o esquerdismo de alguns jogadores e o incentivo da comitiva à presença de mulheres mexicanas no hotel da Seleção.
Esta entrevista é um episódio extra do podcast O Escândalo que Destruiu a Seleção, que pode ouvir aqui.
https://observador.pt/programas/o-escandalo-que-destruiu-a-selecao/inquerito-de-saltillo-a-federacao-falhou-era-o-forrobodo/
Em que circunstâncias foi convidado para fazer o relatório sobre os acontecimentos de Saltillo?
Quem o contactou?
Quem me contactou foi exatamente o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Dr. Silva Resende, por indicação de um amigo comum que tinha trabalhado comigo antes do 25 de abril no Ministério das Corporações. Um dia estou no Porto e recebo uma chamada telefónica dessa pessoa que me diz: “Vou-te passar o Dr. Silva Resende”, que eu não conhecia de parte nenhuma, a não ser do nome e de bom nome, aliás. E ele disse-me: “Ah, senhor doutor, como sabe, houve aquele caso Saltillo e tal, gostaríamos que procedesse a um inquérito sobre o que se passou em Saltillo”. E eu disse: “Deixe-me pensar, dou-lhe a resposta, presumo que disse, dou-lhe a resposta amanhã”, uma coisa qualquer assim e pronto. E então avancei.
Avançou. O que é que ponderou e o que é que o levou a aceitar?
Eu vou dizer com toda a sinceridade que aceitei o inquérito no pressuposto de que tinha havido um comportamento perfeitamente censurável da parte dos jogadores e que, portanto, era necessário um inquérito para que isso viesse ao de cima e apurar as responsabilidades. Foi essa a convicção com que eu aceitei,
porque a modifiquei toda ao longo do processo.
Todos os portugueses na altura tinham uma opinião sobre o que tinha acontecido em Saltillo. Ficou indignado com a atitude dos jogadores?
Fiquei, fiquei indignado porque o que vinha cá para fora era um comportamento indecoroso dos jogadores. E lembro-me perfeitamente que até havia nessa altura a ideia de que os jogadores tinham tido uma voz ativa por intermédio de um triunvirato que era o Bento, o Carlos Manuel e o Diamantino, o chamado grupo do Barreiro, portanto, identificados com esquerdismos, para não dizer o PC, digamos, era o que constava nessa altura na chamada sociedade que hoje nós denominamos com muito orgulho, sociedade civil. E eu fazia parte dessa sociedade civil e também estava convencido de que tinha sido isso.
Quando é que ouve falar pela primeira vez de polémicas em Saltillo? Quando é que chega aos seus ouvidos que há de facto problemas com a Seleção Nacional no estágio do Mundial 1986?
Não lhe posso precisar a data certa, mas foi na altura, exatamente quando a seleção já estava no México. Antes da partida não me lembro, não tinha noção acerca do que é que se iria passar, do que estava a acontecer, do que podia acontecer.
Então parte para o inquérito já com a convicção de quem são os principais responsáveis por aquilo que acontece em Saltillo. Quais são os primeiros passos na execução do trabalho do inquérito?
Fui à federação na sequência do telefonema do Dr. Silva Resende. Fui à federação recolher o chamado material, que era nada mais nada menos que o relatório feito pela própria federação. Conheci nessa altura o Dr. Silva Resende. Acho que conheci também nessa altura os outros dirigentes, o António Pimenta, o Amândio de Carvalho, e os funcionários superiores da federação, o César Grácio e o António Malva. Foi esse contacto que eu tive. Peguei no dossiê, levei-o comigo, fiz questão de não o levar para o meu escritório de advocacia, porque não queria confundir o plano profissional com aquela missão de que estaria incumbido. E até, portanto, utilizei uma
sala fora do meu escritório para em Lisboa ouvir os jogadores que estavam cá. No Porto, foi diferente. Ouvi os jogadores todos no Hotel Porto Atlântico.
“O relatório apareceu nos jornais. Houve uma fuga de dentro da federação”
Com esse material da federação, reforça a convicção de que os jogadores não estiveram bem, porque o contexto ou as conclusões desse relatório é para aí que apontavam?
Sim. Talvez seja um bocado de exagero da minha parte, mas aquele relatório, digamos, funcionava como nota de culpa aos jogadores. Portanto, era um ponto de partida para se ajuizar do comportamento da comitiva. Eu digo
comitiva porque englobava também dirigentes, o selecionador, os médicos e isso tudo. Não era só jogadores, nem de perto, nem de longe, englobava toda a gente.
E depois para elaborar o seu inquérito aos factos, falou com todos os intervenientes e toda a gente que quis?
Falei, falei com toda a gente que quis, mas queria aqui deixar dito que pouco tempo depois de me ter sido entregue o relatório da federação, ele veio publicado nos jornais. Houve, portanto, uma fuga de dentro da federação, certamente com um espírito de — e talvez a palavra seja um bocado dura — não vou utilizar aqui sabotar, mas contornar o trabalho.
Interpretou assim como um condicionamento?
Interpretei. Mas não era o meu trabalho, era o próprio trabalho da federação. Acho que alguém lá dentro que discordaria do que se teria passado resolveu, digamos, por sua iniciativa… nunca soube quem foi, nunca soube quem foi e não sei se a federação alguma vez conseguiu apurar quem foi essa pessoa, digamos, apercebendo-se de que me tinha sido entregue um relatório, que, como eu digo, era uma verdadeira nota de culpa relativamente à comitiva, quis contornar para não dizer sabotar o trabalho. Eu estive mesmo para não iniciar o trabalho e ir entregar o dossiê: “Olhe, está aqui, não pego nisto, uma vez que já viu a cor do dia e é público, não vale a pena, não vale a pena fazer”.
Joaquim Oliveira recusou ser ouvido: “Ó doutor, não me meta nesse caldo”
Reconsiderou e começou a ouvir os jogadores a seguir. Foi o primeiro passo?
Comecei. Acho que comecei a ouvir os jogadores em seguida. Já não me lembro se comecei pelos de Lisboa ou pelos do Porto, mas ouvi os jogadores todos.
Todos?
Ouvi-os todos. A única pessoa que não consegui ouvir, porque puramente se recusou, foi o Joaquim Oliveira, o homem da Olivedesportos. Eu conhecia-o de frequentar o mesmo restaurante que eu na Rua Pinheiro Chagas.
Era importante tê-lo ouvido?
Ele disse-me: “Ó doutor, gosto muito de si, tenho muito respeito por si, mas não me meta nesse caldo ou sarilho”. Foi assim. Desculpem estar a falar à vontade, mas acho que é assim que as coisas devem ser faladas.
Houve algum testemunho de um jogador que o tenha surpreendido?
Não, por uma razão muito simples: com a publicação do relatório, o sindicato dos jogadores, através do Dr. Paulo Relógio (meu colega), estudou o processo e deu instruções aos jogadores. Portanto, ouvir um jogador hoje ou ouvir trinta jogadores trinta dias depois era exatamente a mesma coisa. O argumento deles era sempre o mesmo e dali não saíam.
Todos disseram o mesmo?
Todos disseram o mesmo. O que diziam era isto: “Se havia publicidade, nós tínhamos que participar dela, até porque nós éramos a montra da publicidade”. Foi à volta disso que andou o inquérito.
E foi aí que começou a mudar de opinião, quando ouviu esse argumento?
Não. Comecei a mudar de opinião quando me apercebi de que tinha havido já reuniões em Lisboa, antes de a comitiva partir, em que os jogadores tinham levantado os problemas dos prémios e da participação nas receitas de publicidade nessa perspetiva de serem a montra. Aí eu disse “alto!”. E depois havia também umas histórias que se contavam em redor da presença de Portugal em Saltillo que envolviam coisas menos normais naquela altura.
Está a falar do álcool e da presença de mulheres?
Estou a falar da presença de mulheres. E até constava que aquilo tinha sido incentivado pela comitiva, com controlos feitos temporalmente pelo próprio selecionador nacional, o Zé Torres, que foi das pessoas mais encantadoras que conheci no âmbito do futebol. Era um homem extraordinário. E era um amigo dos jogadores e respeitado por eles.
Precisamente sobre José Torres, ficou claro o papel do treinador nesse braço de ferro entre a federação e os jogadores? Que papel teve o Mister?
Ele era o conselheiro, o jogador mais velho da Seleção, conselheiro dos jogadores no sentido de temperar as águas e pôr água na fervura. Teve sempre uma intervenção de acalmia dos ambientes, porque aquilo esteve aceso devido a promessas atrás de promessas. Quem estava em Saltillo era o Amândio de Carvalho, mas quem tinha tido as reuniões com os jogadores em Lisboa era o António Pimenta, que não foi ao México. Presumo que houve ali uma desinteligência no percurso antes de a seleção partir para o México. Quem estava no México não tinha falado com os jogadores cá, e quem ficou em Lisboa é que tinha falado com eles. E isso contribuiu imenso para o agudizar da situação.
Do grupo de jogadores, encontrou diferenças no tal grupo citado (Bento, Carlos Manuel, Diamantino)? Eles eram de facto líderes do resto da equipa e exerciam poder sobre os companheiros?
Aquilo foi uma manifestação coletiva em que não se destacou A ou B. Quem se destacou mais, porque tinha um papel de intermediário entre os jogadores e os dirigentes, foi o jogador Fernando Gomes do Porto. Ele é que levava a “carta a Garcia” e trazia novamente a carta. Os jogadores não se destacaram durante o inquérito. Aliás, houve um, curiosamente, que eu anotei por uma razão muito simples, porque tinha havido um caso qualquer, uma peripécia entre o doutor Camacho Vieira, que era médico da Seleção, e o Jaime Pacheco. Houve um jogador que me disse, no fim da inquirição, cá fora do Hotel Porto Atlântico, no Porto, voltou-se para mim e diz-me assim: “Ó senhor doutor, não faça nada ao Jaime Pacheco, contra o Jaime Pacheco. Ele é um tipo extraordinário, é um homem cheio de graça, é um brincalhão. Não leve a sério a peripécia que ele teve com o doutor Camacho Vieira”. Foi o único jogador que interferiu, que intercedeu por outro. Foi uma coisa que eu assinalei. Aquilo era de tal maneira coletivo que eles não tinham necessidade de se defenderem uns aos outros ou de se incriminarem uns aos outros.
E não o distinguiu, de facto, ao Jaime Pacheco, no final do seu trabalho?
Olhe, já não me lembro. Acho que relatei qualquer coisa a propósito do Jaime Pacheco. Não, o processo foi arquivado. Sou-lhe franco, o processo nem devia ter começado. E só começou porque Portugal perdeu. Porque se Portugal não tem perdido, não havia caso Saltillo. Não tenha dúvidas nenhumas. Aquilo foi, não digo um pretexto, mas uma razão para aligeirar as culpas na ida da seleção para o México, porque não houve programação nenhuma, não houve planeamento, foi tudo diletante. E isso refletiu-se muito lá nos jogos-treino, na ausência de competidores. Aconteceu tudo o que não devia acontecer. E não aconteceu o que devia acontecer.
Disse que o tema não deveria vir a público, mas se não se falasse disso nessa altura, o problema não podia ficar ainda pior, uma espécie de bola de neve?
A certa altura, falava-se tanto naquilo, que o alvo a abater era o presidente da Federação, o doutor Silva Resende. E até posso revelar que os próprios serviços administrativos da Federação, nomeadamente o César Grácio e o António Malva, já desaparecidos, me disseram: “Doutor, Saltillo, comparado com França 84, não é nada”.
“O hotel nem sequer tinha uma sala de estar para reunir”
As condições de trabalho que ficou a conhecer através do inquérito que realizou chocaram-no de facto? O que é que ali estava errado?
Ali faltava tudo. Nem se pode dizer que estava errado ou que estava certo; faltava tudo. Faltou o planeamento, a programação, as marcações e a viagem para o México. Naquela altura corria que tinham sido favores que a Federação tinha feito a uma agência de viagens, coisa que nunca se provou, pelo contrário. Falava-se muito, mas de factualidade pouco ou nada existia.
Havia uma equipa técnica, havia um preparador físico, havia um médico.
Havia o médico, que era o doutor Camacho Vieira, e o preparador físico, Monge da Silva.
Não era aí que a seleção estava mal, era na questão da organização e do planeamento.
O hotel não era um hotel, era um motel. Não tinha aquelas condições, tinha as mínimas, mas não tinha as desejáveis e, portanto, falhou, a federação aí falhou e, portanto, isso talvez tenha… os jogadores não se sentiam acompanhados por uma boa organização. Isso era evidente. Toda a gente criticava que não havia e acho que o hotel nem sequer tinha uma sala de estar para reunir. Os jogadores se queriam falar uns com os outros e reunir tinha que ser à volta da piscina. Julgo eu, julgo eu. Enfim, era o “forrobodó”.

Houve falta de disciplina no estágio. A responsabilidade pode ser atribuída a alguém em concreto?
Olhe, há uma expressão portuguesa que eu não gosto de utilizar, mas que se aplica inteiramente ali. Eu, na minha vida profissional não sou assim, que é o nacional-porreirismo. Está tudo a correr bem. Nós improvisamos isto e aquilo e tal. É, era, era assim que se fazia. Hoje em dia, não. Hoje em dia, a Federação Portuguesa de Futebol, não é que eu conheça lá alguém de perto, é uma estrutura mesmo séria e a sério. É tudo ao pormenor. E 86 teve impacto no que é hoje, a falta de organização, de planeamento, programação, tudo veio ao de cima e culminou, digamos, com as reivindicações dos jogadores e aquela coisa absurda de que quem esteve cá não foi e quem foi não tinha cá estado. Pronto.
O sindicato dos jogadores foi importante para a discussão que se seguiu ao caso de Saltillo consigo, nomeadamente, ouviu também o sindicato? Ou o facto de os jogadores já terem tido conversas prévias antes de falar consigo dispensou-o de ter essa conversa?
Não, eu tenho ideia de que não cheguei a falar com o sindicato. E o mundo dá muitas voltas. Veja lá bem, veja lá bem que o presidente do sindicato naquela altura era o Zé, o José Eduardo Sampaio. E nada mais, nada menos, há uns anos eu fui advogado do Zé Eduardo Sampaio num processo do Marco Silva contra ele por causa de umas declarações que ele tinha feito. Enfim, o mundo é muito pequeno, dá muitas voltas.
Foi difícil apresentar um relatório que contrariava a tese de quem o convidou a fazer o relatório?
Como deve calcular, talvez a entrega do relatório correspondesse no espírito de algumas pessoas à natureza de uma encomenda. Toma lá isto e faz lá aquilo que é o desejável para a federação. Mas tenho que ser muito sincero. Nunca tive pressão alguma de ninguém, de ninguém, e sobretudo quero aqui referir a total ausência de
pressão pelo Dr. Silva Resende. O Dr. Silva Resende nunca me dirigiu a palavra, nunca disse “Ó Dr. Cortesão, veja lá como é que isso está, como é que vai o processo, como é que está a correr”. Nada. Tive liberdade total. Portanto, eu fui à federação pela segunda vez para entregar o relatório e pronto.
E não voltou a falar com Silva Resende a propósito do caso?
Não voltei, não voltei a falar com o Dr. Silva Resende.
Não foi contactado por ninguém da Federação Portuguesa de Futebol depois de entregar o relatório?
Que eu me lembre não fui contactado. Não fui. Eu não tenho dúvidas nenhumas de que o relatório surpreendeu a direção da federação, por ser eventualmente inconveniente para os desejos iniciais, se é que os houve, se é que os houve. A federação foi obrigada a fazer um inquérito porque as associações de futebol regionais ou distritais e concelhias, como se queira chamar, fizeram uma grande pressão para que houvesse o inquérito. Em nome de quê? Daquilo que constava cá fora e que se provou que não foi nada aquilo. Foi uma reivindicação total, mas eu sou claro numa coisa. Tivesse Portugal tido um sucesso futebolístico, Saltillo hoje era recordado por ideias contrárias àquelas que ainda hoje se falam.
Mas isso é também um bocadinho o tal nacional-porreirismo de que estava a falar. Quando as coisas correm bem, quando os resultados desportivos são bons, não se olha para os problemas.
Não se olha para os problemas. As pessoas passam ao lado deles, por cima deles.
Mas era uma bomba-relógio…
Era, era, mas queria deixar aqui bem frisado. Fui duas vezes à federação, uma para recolher o relatório e outra para o entregar. Conheci aí o Dr. Silva Resende que nunca me falou em nada, nunca me pressionou em nada. Ninguém, ninguém. Lembro-me de ter almoçado com o Dr. César Grácio e o António Malva. Almoçámos duas vezes num restaurante onde por acaso ia o Joaquim Oliveira, que era ali na Pinheiro Chagas, e pronto.
E eles no fundo também nunca me pressionaram, era só saber se eu era bem tratado pelos jogadores, se era maltratado isto e aquilo. Pronto, e não passou disto, não tive a mínima pressão.
Ainda assim diz que o relatório terá surpreendido a Federação Portuguesa de Futebol e a sociedade portuguesa? Surpreendeu os portugueses? Ficaram surpreendidos? Quais foram as reações naquela altura?
Naquela altura é capaz de ter surpreendido alguém porque as coisas não estavam esclarecidas e, portanto, os jogadores tinham sido os maus da fita, não é? É natural que tenha surpreendido. Hoje em dia, se o relatório fosse hoje, se o caso Saltillo fosse hoje, não surpreendia ninguém, porque as pessoas não estão habituadas a que os inquéritos e os processos deem em alguma coisa. Isto é um país de brandos costumes, mas ali não foi brandos costumes, ali foi justiça feita.
E acha que o seu relatório contribuiu para acabar com este braço de ferro?
Eu vou-lhe dizer mais uma coisa. Eu acho até que o meu relatório, se fosse no sentido contrário, por qualquer razão, ia complicar muito mais a vida à federação. Eu acho que o relatório, por não se ter transformado o inquérito num processo disciplinar, e ter sido, digamos, praticamente, arquivado, até terá aliviado a federação, porque as pressões das associações junto da federação eram imensas.
As pressões, porque além dos castigados houve também uma série de indisponíveis, muitos jogadores que deixaram de querer ou de poder alinhar pela seleção.
Houve jogadores que não quiseram representar mais a seleção. Houve jogadores que se mostravam, se autossuspenderam, não se autoexcluíram e houve só um jogador que eu conhecia bem, porque eu sou da Académica. Eu sou da Académica e ele tinha sido jogador da Académica durante vários anos, que era o Álvaro. Eu conhecia-o bem como jogador da Académica. Os outros conhecia-os de nome apenas.
E este caso tornou-se também num caso político. O assunto esteve no parlamento, o assunto foi discutido pelo primeiro-ministro e pelo Presidente da República. Isso foi também uma pressão para que a situação se resolvesse?
Não, eu acho que com a entrega do relatório o assunto ficou resolvido. Eu acho que ficou resolvido e depois como sabe os políticos apanham o comboio.
Houve uma possibilidade muito séria de haver uma comissão parlamentar de inquérito ao caso. Só não aconteceu por um voto dos deputados. Teria sido diferente se o assunto fosse levado ao parlamento?
Olhe, eu gosto das comissões de inquérito parlamentares, porque acho que se apura lá muita coisa, embora fique também muita coisa por apurar, mas há um trabalho profícuo nas comissões de inquérito. Portanto, era natural que essa comissão de inquérito produzisse um trabalho útil, mas quase que lhe garanto, embora ninguém possa afirmar isso, que as conclusões não seriam diferentes daquelas que constavam no relatório feito por mim, que não havia razão para haver um escândalo, um escândalo do caso Saltillo. É o que eu pensei na altura. E continuo a pensar. Mas os jogadores naquela altura não eram perspetivados como são hoje, que são titulares de direitos e deveres. Naquela altura eram pessoas que, como dizia a sociedade civil elitista, “eles nem sabem comer”. Hoje não é assim. Hoje não é assim. Hoje se calhar temos é dirigentes que não sabem comer.
Os jogadores não eram trabalhadores privilegiados na altura, eram montras, segundo a expressão que utilizou.
Eram privilegiados na medida em que ganhavam muito mais que o cidadão comum, não é? Embora nada parecido com as somas astronómicas de hoje.
Estava a contar-nos que depois de entregue o relatório teve um contacto de alguém da federação.
Foi do senhor Amândio de Carvalho, emocionado, porque eu na véspera tinha referido na televisão, numa entrevista, presumo que conduzida pelo jornalista Ribeiro Cristóvão, tinha, digamos, resgatado a imagem do Amândio de Carvalho, dizendo que ele não era culpado do que se tinha passado, mas que a situação a montante é que era a responsável por aquilo que se lá passou. E ele telefonou-me: “Sotôr, era só para lhe agradecer as suas palavras”. Eu disse: “Nada que agradecer, não disse mentira nenhuma, são justas”. E portanto, “olhe, durma descansado, que é o que o senhor precisa, de dormir descansado, porque o senhor tem andado com o seu nome sempre aí atravessado”. E depois, curiosamente, uma vez encontrei-o no tribunal do Montijo quando ele foi apresentar a candidatura julgo que era para a Câmara do Montijo, e ele fez uma grande festa e nunca mais o vi.
“Seria uma injustiça ter havido alguma condenação”
Conseguiu passar por este processo não fazendo inimigos?
Que eu sinta, não, mas às vezes os inimigos vêm de onde menos se espera, não é? Mas neste caso concreto, posso-lhe dizer que não senti da parte de nenhum jogador. Eles tinham receio, os jogadores tinham receio, estavam convencidos de que eu estava ali mancomunado com a federação para lhes cair em cima, mas acho que eles foram-se convencendo ao longo do processo de que eu era isento.
Mas não foram conversas tensas?
Não. Não foram conversas normais, naturais, distinguindo-se de alguns jogadores, por uma terminologia mais rica do que outros, enfim, mas de resto não. Eu acho que eles a certa altura convenceram-se de que eu seria, digamos, tão isento quanto possível.
Seguiu alguma ordem em específico? Definiu alguma ordem de conversas com os jogadores ou foi tudo aleatório?
Que eu me lembre, não, já nem sei por quem é que comecei e se foi por Lisboa ou pelo Porto. Eu só me lembro de uma coisa que era um episódio giro: quando chamei o Futre para prestar declarações, praticamente tive de o acordar porque o Futre dormia com uma facilidade em todo o sítio. Era impressionante.
Mas adormeceu no escritório?
Não, não no hotel, no Porto Atlântico. Estava meio adormecido e tal.
Era um jovem atleta rebelde, não é?
Oh, era rebelde, era igual aos outros. Era simpático, talvez atrevidote, não sei.
Houve de facto um antes e um depois de Saltillo para a forma de funcionamento do futebol português? Ou de cada vez que há um problema com a Seleção Nacional lembramo-nos de Saltillo?
O futebol de hoje, a organização, o futebol, o que está a montante e a jusante do futebol é completamente diferente daquela altura. Agora, Saltillo serviu exatamente para mostrar como é que as coisas não podiam acontecer antes de uma comitiva partir e representar o país.
E se fosse hoje?
Não havia Saltillo.
Porquê?
Não havia Saltillo porque estava tudo programado, tudo planeado, tudo como deve ser. Treinos marcados, horas, horas, horas, o hotel como devia ser, etc, etc.
Não vai voltar a acontecer?
Estou convencido de que não será provável. Hoje as coisas são levadas muito a sério. O futebol de hoje não tem nada a ver com o futebol de há 40 anos. E o de há 40 anos não tinha nada a ver com o futebol de 40 anos antes no tempo da Segunda Grande Guerra e assim sucessivamente. Hoje em dia o futebol está muito estruturado, mesmo a nível da terceira e da segunda divisão. É impressionante, com os seus departamentos técnicos e sobretudo com uma coisa que hoje é palavra de ordem de todos os clubes, que é a formação.
No fim de tudo isto e 40 anos depois tem a convicção de que se fez justiça neste caso?
Completamente. Ou por outra, seria uma injustiça ter havido alguma condenação. As coisas, olhe, era a época. Também o tínhamos quê? Dez anos de democracia naquela altura. Enfim, estavam as coisas a iniciar-se.
[O Escândalo que Destruiu a Seleção é um podcast do Observador sobre a polémica participação portuguesa no Mundial do México em 1986. Pode ouvir o primeiro episódio aqui]
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