Os portugueses mostram-se particularmente atentos ao risco de uma crise económica, mas, ao mesmo tempo, revelam uma abertura acima da média europeia para aceitar cortes na despesa pública se isso servir para reforçar a defesa e apoiar missões de paz na Ucrânia após o fim da guerra. As conclusões fazem parte de uma sondagem do European Council on Foreign Relations, realizada em 15 países europeus.
O estudo, cujos dados foram recolhidos entre 30 de abril e 19 de maio, mostra ainda uma mudança significativa da confiança dos europeus nos Estados Unidos. Apenas 11% dos inquiridos consideram o país um aliado, um valor que tem vindo a cair nos últimos meses, enquanto um em cada quatro europeus passa a ver os Estados Unidos como um rival ou mesmo um adversário. A maioria descreve a relação como a de um “parceiro necessário”.
Entre os países onde a perceção dos Estados Unidos é mais negativa estão a Dinamarca, França, Espanha e Suíça. A deterioração é descrita como “declínio gradual” na maioria dos casos, com exceção da Polónia e da Hungria, “onde se trata de um fenómeno mais recente”, refere o estudo do ECFR, que associa esta evolução não apenas a declarações políticas de responsáveis norte-americanos, mas também a decisões como a ameaça de anexação da Gronelândia, a redução do compromisso com a NATO e a intenção de retirar tropas da Europa.
Neste contexto, cresce a perceção de que os Estados Unidos não responderiam a um ataque contra países europeus, ao contrário dos vizinhos dentro da NATO, que continuam a ser vistos como mais fiáveis nesse cenário. Ainda assim, a maioria dos inquiridos acredita que a relação transatlântica poderá melhorar com uma futura mudança de liderança na Casa Branca. Em Portugal, 58% dos inquiridos partilham essa expectativa, embora cerca de um quarto considere que os efeitos negativos da atual administração norte-americana poderão prolongar-se.
Apesar do clima de desconfiança, apenas 29% dos europeus defendem a substituição da NATO por uma estrutura de defesa exclusivamente europeia, enquanto uma proporção semelhante se opõe. Portugal destaca-se neste ponto como o país mais favorável à ideia, com 38% de apoio.
O inquérito revela, ainda, uma tendência crescente de abertura ao aumento do investimento em defesa e à redução da dependência dos Estados Unidos nesta área, incluindo a hipótese de criação de uma capacidade nuclear europeia autónoma. Portugal surge entre os países mais favoráveis à emissão de dívida conjunta para financiar esse reforço, com 59% de apoio, e também integra o grupo (juntamente com Estónia, Países Baixos, Polónia e Reino Unido) onde há maior disponibilidade para cortar outras despesas públicas para aumentar o investimento militar.
No conjunto dos 15 países analisados, 45% dos inquiridos são contra cortes na despesa pública para reforçar a defesa, mas em Portugal essa resistência é menor, com 36% de respostas negativas. A percentagem de indecisos é de 17%, alinhada com a média europeia.
Ucrânia vista como aliada que “partilha interesses e valores”
Quanto à Ucrânia, o estudo conclui que o país é maioritariamente visto como um “parceiro necessário, com o qual é necessária cooperação estratégica”, embora em seis dos países inquiridos, incluindo Portugal, surja mais frequentemente como “um aliado que partilha os nossos interesses e valores“. Foi o caso da Suécia (52% dos inquiridos), do Reino Unido (46%), da Dinamarca (45%), dos Países Baixos (39%), de Portugal (37%) e da Estónia (35%).
Em relação ao envio de tropas para uma eventual missão de manutenção de paz na Ucrânia após o fim do conflito, 39% dos europeus apoiam essa possibilidade, enquanto 45% se opõem. Em Portugal, o cenário é inverso: 43% são favoráveis e 30% contrários, colocando o país entre os mais abertos à participação militar nesse tipo de missão.
O estudo do European Council on Foreign Relations sublinha também que, apesar de uma oposição significativa ao alargamento da União Europeia para leste, essa rejeição não se estende de forma equivalente a outras formas de expansão, como a reintegração de países ocidentais. “O alargamento a leste suscita uma forte oposição na Áustria, na Bulgária e na Hungria”, mas a opinião “está mais equilibrada na Estónia, em França, na Alemanha e na Polónia”, refere o ECFR.