“Ainda há pouco tempo aqui falei da imagem que encontro em pequenas aldeias do interior do país: gente em idade activa e outros, reformados ou não, mas ainda bem capazes de trabalhar, todos recebedores de subsídios públicos de vária ordem e todos sentados à conversa no café, de vez em quando levantando-se para apostar numa raspadinha da papelaria local. A protecção do Estado e a crença num golpe de sorte: as duas formas de vida em que mais ciganos confiam, não fazendo o trabalho ou a iniciativa própria parte delas. Chegámos aqui com a mama dos dinheiros europeus e com a utópica Constituição de 1976, que “a todos garante” todas as coisas, e essas coisas todas são obrigações do Governo e esforço dos que trabalham e são esmagados com impostos.”
Podia ser uma declaração do André Ventura, que a todos escandalizaria, mas é de um artigo recente do Miguel Sousa Tavares (MST). Onde se lê “ciganos”, o MST substitui por “portugueses”, os quais considera “um exército de acomodados ou inúteis”. Uns “subsidiodependentes”, portanto. O discurso que escandaliza e que se diz “de ódio”, se dirigido a ciganos ou estrangeiros, é socialmente aceite e mesmo aplaudido quando dirigido a quem partilha do próprio caldo. Para o MST, quem vem de fora chega com uma imagem imaculada que não se põe em causa – quase como uns “bons selvagens” do século XXI – mas quem partilha da terra de nascença carrega em si o pecado original de ser português e, pior, não ter ainda emigrado. Cá no burgo, sobrou a escória, certamente.
É uma visão e um discurso que domina, há demasiado tempo, largos círculos académicos e políticos da Europa, com consequências cada vez mais desastrosas. Basta ver a recente morte do Henry Nowak. Esfaqueado por diversas vezes, foi completamente desconsiderado pela polícia “I don’t think you have, mate” enquanto sufocava no próprio sangue. Em vez de ser socorrido, era algemado simplesmente porque era branco e o assassino, que não o era e sabendo que seria uma vantagem para si, o acusava de racismo. Bastou isso para a polícia o algemar enquanto pedia socorro: “Please brother, I can’t breathe.” Tanto os polícias envolvidos neste terrível episódio, quanto o MST, são como um negativo do Chega ou do Reform UK. Enquanto para uns, por defeito, quem vem de “fora” é portador de todos os males, para outros, também por defeito, quem é de “dentro” é que é culpado por todo o mal. Ironicamente, ambos os envolvidos nesta tragédia eram descendentes de imigrantes. Mas sabemos que “há imigrantes que são mais imigrantes que os outros”.
No caso dos portugueses, será que os que não emigraram e permanecem por cá são um exército assim tão grande de “acomodados”, espalhados pelas “pequenas aldeias do interior do país”? Olhando para os últimos dados disponíveis, a população activa portuguesa atingiu um máximo histórico 5,667 milhões de pessoas no último mês de Abril. Já a taxa de desemprego caiu para os 5,7%, o nível mais baixo em 24 anos, desde Abril de 2002.
Não consigo, contudo, saber como se comparam os portugueses vs. os nossos imigrantes no que toca à taxa de desemprego, ou à dependência de subsídios. Ainda assim, consigo encontrar alguns dados. O MST pega na notícia que refere que 45 mil imigrantes partiram em 2024. Com isto, pede para André Ventura e Luís Montenegro nos “explicarem o que se vai suceder”. Podemos já adiantar que, em 2024, a população estrangeira com permanência regular em Portugal aumentou em mais 238.864 pessoas, para um total de 1.543.695. E estes dados serão atualizados pelo INE no próximo dia 22 de Junho, deverão estar aquém da realidade. Em 2026, já estão certamente desatualizados. Convém recordar que não há muito tempo, no virar do século, Portugal tinha menos de 200 mil estrangeiros a residir dentro das suas fronteiras. Mesmo em 2016, já em pleno “governo Costa”, este número estava abaixo dos 400 mil. O “que se está a suceder” é que, no espaço de uma década, passámos de menos de 400 mil estrangeiros para, possivelmente, perto de 2 milhões.
Não é um caso português: por toda a Europa Ocidental, este afluxo tão grande de imigrantes, num espaço tão curto de tempo, está a revelar-se um barril com o qual nenhum líder europeu parece saber lidar.
O MST, como tantos, reduz este tema à questão económica: são “mão-de-obra abundante e barata” e “garantiram um saldo positivo de €16,3 mil milhões para os cofres da Segurança Social na última década”. Mas será que isso é tudo? O saldo para os cofres da Segurança Social deixa de fora, convenientemente, o acesso repentino de mais de um milhão de pessoas a instalações públicas que não pagaram previamente. Os estudos que já existem sobre esta matéria, não são animadores quanto ao seu saldo.
Em 2014, foram publicados os resultados definitivos do estudo “Os Efeitos Fiscais da Imigração para o Reino Unido”, do Centro de Pesquisa e Análise das Migrações da University College de Londres, que chegava à conclusão que, entre 1995 e 2011, apenas os imigrantes oriundos do Espaço Económico Europeu (EEE) tinham uma contribuição positiva para a economia britânica. Isso não se verificava entre quem era de fora do EEE.
Mais recentemente, em 2023, o Ministério das Finanças da social-democrata Dinamarca publicou a sua “Análise Económica: Contribuição líquida dos imigrantes para as finanças públicas em 2019”. Nesse ano, a população nativa da Dinamarca teve uma contribuição líquida positiva de 22 mil coroas dinamarquesas per capita, enquanto os imigrantes e os seus descendentes tiveram quase o exacto oposto, com uma contribuição líquida negativa de 21 mil coroas per capita. Ainda assim, tal como no Reino Unido, havia uma clara distinção entre os imigrantes ocidentais, com uma contribuição líquida positiva de 52 mil coroas per capita (superior à própria população nativa!), e os imigrantes de países não ocidentais, com forte destaque para os do Médio Oriente, Norte de África e Turquia com uma contribuição líquida negativa de 72 mil coroas per capita!
Temos todos certamente muito por onde melhorar em Portugal e é óptimo saber que, da esquerda à direita, olhamos cada vez com maior desdém para quem vive de facto à custa da “mama dos dinheiros europeus”. Contudo, até termos estudos semelhantes para Portugal, evitaria ter uma visão demasiado romantizada da contribuição desta imigração massiva recente e demasiado depreciativa dos portugueses. Não só porque os estudos que existem noutros países já fazem uma clara distinção entre a contribuição da imigração ocidental da que não é ocidental, como os números que serão actualizados pelo INE arriscam-se a aprofundar ainda mais a nossa divergência em relação ao PIB per capita da UE, como consequência da natureza dessa mesma imigração.