Sempre que surge uma grande transformação tecnológica ou económica, tendemos a discutir os seus efeitos mais imediatos. Perguntamos que profissões vão desaparecer, que setores vão crescer, quem vai ganhar e quem vai perder. São perguntas legítimas, mas suspeito que, muitas vezes, nos fazem perder de vista algo mais importante.
Se olharmos para trás, para os grandes momentos de mudança da História, percebemos que as transformações verdadeiramente decisivas raramente aconteceram apenas ao nível da tecnologia ou da economia. O que mudou foi a forma como as sociedades se organizavam em torno dessa nova realidade. Mudaram as instituições, as expectativas das pessoas, as relações entre cidadãos e o poder político. Mudou aquilo a que os filósofos chamaram contrato social.
É uma expressão que usamos no dia-a-dia e que descreve algo bastante simples: o conjunto de regras, explícitas e implícitas, que define a forma como vivemos em sociedade. Quem cria riqueza. Quem contribui. Quem protege. Quem decide. E, sobretudo, quais são as expectativas legítimas que cada geração pode ter em relação à seguinte.
Durante séculos, esse contrato assentou na terra. A riqueza estava associada à propriedade agrícola, o poder era exercido por quem a controlava e a posição de cada pessoa na sociedade era, em larga medida, determinada pelo nascimento. Hoje esse mundo parece distante, mas durante muito tempo foi visto como a ordem natural das coisas.
A mudança não aconteceu porque alguém decidiu que o sistema era injusto. Aconteceu porque a realidade económica começou a mudar. O comércio expandiu-se, as cidades cresceram, novas formas de produção surgiram e, gradualmente, o velho contrato social deixou de conseguir responder às necessidades do seu tempo.
A Revolução Industrial acelerou esse processo de forma dramática. A riqueza passou a ser gerada nas fábricas, nos transportes, nas empresas e no trabalho assalariado. Milhões de pessoas abandonaram o campo e procuraram oportunidades nas cidades. Novas tensões sociais surgiram, novas desigualdades tornaram-se evidentes e as instituições existentes revelaram-se insuficientes para lidar com uma realidade que ninguém tinha conhecido antes.
Foi nesse contexto que nasceram muitas das estruturas que hoje consideramos normais: a escola pública, os sistemas de proteção social, os direitos laborais, as pensões e uma parte significativa do Estado moderno. Não surgiram por acaso nem por mera benevolência política. Surgiram porque as sociedades precisaram de encontrar uma nova forma de equilibrar liberdade, prosperidade e estabilidade.
O mais curioso é que continuamos, em grande medida, a viver dentro desse mesmo enquadramento.
A nossa vida continua organizada em torno de uma ideia relativamente simples: estudamos para trabalhar, trabalhamos para gerar rendimento, contribuímos através dos nossos impostos e esperamos que esse esforço nos permita construir uma vida melhor para nós e para os nossos filhos. Mesmo quando discutimos temas tão diferentes como as pensões, a habitação, a imigração ou a produtividade, estamos quase sempre a partir desta mesma premissa.
Talvez seja por isso que algumas das discussões atuais pareçam tão desconfortáveis. Há uma sensação crescente de que algo está a mudar, embora ainda não saibamos exatamente o quê.
Recentemente deparei com um artigo intitulado The AI Layoff Trap. O texto parte de uma observação aparentemente simples: uma empresa tem incentivos para substituir trabalhadores por sistemas de IA mais eficientes sempre que isso lhe permita produzir mais e gastar menos. Individualmente, a decisão é racional. Mas os autores perguntam o que acontece quando todas as empresas seguem o mesmo caminho.
O argumento é simultaneamente simples e desconfortável. Uma empresa que reduz custos através da automação torna-se mais competitiva. Duas empresas podem fazer o mesmo. Cem empresas também. Mas se uma parte significativa da economia passar a depender cada vez menos do trabalho humano, surge uma questão inevitável: o que acontece ao rendimento das pessoas que dependem desse trabalho para viver?
O trabalho não é apenas um fator de produção. É a principal fonte de rendimento da maioria das famílias. É através dele que conquistamos autonomia, fazemos escolhas, sustentamos os nossos projetos de vida e participamos na economia. Numa sociedade livre, o rendimento não serve apenas para consumir; serve para garantir independência, dignidade e capacidade de escolha.
A provocação dos autores é precisamente essa. Se uma parte crescente da população perder acesso ao rendimento que hoje obtém através do trabalho, quem sustentará o consumo que alimenta a própria economia? Quem comprará os bens e serviços produzidos por empresas cada vez mais eficientes? E, mais importante ainda, como preservamos a autonomia individual numa sociedade onde a ligação entre trabalho e rendimento pode deixar de ser tão direta como foi nos últimos dois séculos?
Não sei se concordo com todas as conclusões do artigo. Na verdade, suspeito que a discussão sobre tecnologia acaba muitas vezes por simplificar excessivamente fenómenos que são muito mais complexos. Ainda assim, o mérito do texto está noutro lado. Obriga-nos a olhar para uma questão mais profunda.
E se o verdadeiro desafio não estiver na tecnologia? E se estiver nas instituições que construímos para uma determinada realidade económica e social?
Ao longo dos últimos dois séculos habituámo-nos a pensar o trabalho como o principal mecanismo de distribuição de rendimento, de integração social e de mobilidade. O emprego não é apenas uma forma de ganhar a vida. É também uma forma de participar na sociedade, de construir autonomia, de adquirir reconhecimento e de projetar um futuro.
Mas basta observar algumas das tendências das últimas décadas para perceber que a forma como a riqueza é criada está novamente a mudar. O peso crescente dos ativos intangíveis, da propriedade intelectual, dos dados, do conhecimento especializado e da automação está a alterar gradualmente a relação entre produção, trabalho e rendimento.
Não se trata de prever o desaparecimento do trabalho, como tantas vezes se anuncia. A História mostra que as previsões mais radicais sobre o fim do emprego raramente se confirmam. Trata-se antes de reconhecer que os mecanismos através dos quais a prosperidade é criada e distribuída estão em transformação.
E sempre que isso acontece, mais cedo ou mais tarde, o contrato social acaba por ser chamado à discussão.
Talvez seja por isso que debates aparentemente desconexos acabam por tocar na mesma questão de fundo. Quando discutimos a sustentabilidade da Segurança Social, a dificuldade de acesso à habitação, a concentração de riqueza, a produtividade da economia ou a forma como tributamos o trabalho e o capital, estamos muitas vezes a falar de manifestações diferentes da mesma tensão.
A tensão entre instituições herdadas de um determinado momento histórico e uma realidade que já começou a mover-se noutra direção.
Não faço ideia de qual será o próximo contrato social. Suspeito, aliás, que ninguém faz. Os grandes modelos sociais raramente são desenhados numa sala de reuniões ou num gabinete ministerial. Normalmente emergem ao longo do tempo, através de sucessivas adaptações, conflitos, reformas e compromissos.
Mas há uma lição histórica que vale a pena recordar.
As sociedades mais bem-sucedidas não foram necessariamente aquelas que conseguiram antecipar todas as mudanças. Foram aquelas que souberam adaptar as suas instituições quando perceberam que o mundo à sua volta já não era o mesmo.
Talvez seja isso que esteja hoje em causa.
Não uma discussão sobre uma tecnologia específica, neste caso a inteligência artificial, mas uma reflexão mais profunda sobre a forma como continuaremos a garantir liberdade, oportunidade e mobilidade social num mundo em transformação.
A História sugere que nenhum contrato social é eterno. Todos parecem naturais enquanto funcionam. Todos parecem inevitáveis até ao momento em que deixam de o ser.
A questão não é saber se o nosso também mudará.
A questão é perceber se teremos a lucidez de participar nessa mudança enquanto ainda a podemos moldar, em vez de apenas reagir a ela quando já for inevitável.