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As ideias do Papa

Perante uma assembleia política que vai da esquerda radical do Podemos à direita radical do Vox, Leão XIV revelou Fé e sentido de Estado, espiritualidade e realismo

Jaime Nogueira Pinto
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Já passei por oito papas: Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, o único com quem me encontrei pessoalmente, Bento XVI, Francisco e, agora, Leão XIV. Todos diferentes como homens, com a sua humanidade, a sua personalidade, a sua história, a sua vida, e todos próximos como papas, como chefes da Igreja, na mediação tentada entre o tempo e eternidade, entre o mundo e Deus. Porque no mistério que envolve a relação de Deus com o mundo está a Igreja, instituída por Cristo para ficar connosco até ao fim dos tempos. Uma Igreja que, tendo o seu lado divino, também sofre das grandezas e das fraquezas, do bem e do mal, dos homens que a formam. De todos nós, que somos parte dela.

Os crentes, “os servos de Cristo”, sabem que o Papa, “o servo dos servos de Cristo”, é infalível quando, ex-catedra, se pronuncia sobre matérias de fé e de costumes. Mas também sabem e entendem que, ainda que defendendo sempre a verdade do Evangelho, o Papa está no mundo, entre os homens e as nações dos homens, e por isso está, e deve estar, atento ao mundo, ao seu tempo e ao seu modo.

É a esta luz que podemos e devemos, os que somos católicos e obedientes à Igreja, harmonizar os nossos deveres e hierarquizar as nossas lealdades. Só a esta luz e com esta reserva podemos falar da política de um determinado Papa e da política da Igreja num determinado momento.

Assim, qualificando em termos mundanos os papas com quem me tem sido dado passar pelo tempo, diria que Pio XII, São João Paulo II e Bento XVI, terão sido “conservadores”; Paulo VI e Francisco “progressistas”; e São João XXIII, João Paulo I e, agora, Leão XIV estariam entre o conservador e o progressista. Sempre nesta linha de simplificação, e fazendo equivaler “conservador” a “de direita” e “progressista” a “de esquerda”, estes três últimos papas seriam “centristas”.

Seja como for, como cristão e católico, tenho tentado sempre pôr de parte estas preocupações político-ideológicas na minha obediência ao magistério de Roma. Acho que deve ser esta a regra para que possamos fazer parte da Igreja em consciência e em verdade; ser parte dos que, na multiplicidade e na diferença, habitam uma casa comum.

Vem tudo isto a propósito de Leão XIV, o papa americano com experiência missionária no Peru. Confesso que, precisamente por este imperativo de unidade na diferença, fiquei contente com a sua eleição, num momento em que um papa “mais conotado à esquerda” ou “mais conotado à direita”, mais “progressista” ou mais “conservador”, podia vir a ser ocasião de cisma.  Gostei também logo do nome que o Sumo Pontífice escolheu e da razão por que o fez.

Fé e sentido de Estado

E gostei que agora, nas Cortes espanholas, perante uma assembleia política que vai da esquerda radical do Podemos à direita radical do Vox, Leão XIV tenha revelado Fé e sentido de Estado, espiritualidade e realismo, numa afirmação clara, claríssima, da Verdade transcendente no tempo e no mundo em que lhe foi dado exercer o seu papado. E foi precisamente consciente deste tempo e deste mundo e da intemporalidade da Verdade e da transcendência que lhe pareceu importante voltar a enunciar a máxima in varietate concordia, fácil de enunciar, mas difícil, muito difícil, de realizar no concreto.

Houve tempos – como, há muitos séculos, nos da Respublica Christiana –   em que o papado quis dominar as comunidades políticas, gerando grandes reacções em imperadores e reis. Ora Leão XIV começou por reconhecer “a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política” para falar depois – com muita sensibilidade e conhecimento – da identidade nacional de Espanha na História, citando Cervantes e Teresa d’Ávila, os Reis Católicos e a Escola de Salamanca que, com Francisco de Vitoria e outros grandes pensadores e juristas, procuraram harmonizar Espanha com o mundo, o interesse da nação com a razão moral, o bem comum com a pessoa humana.

E dos antigos novos mundos geográficos, Leão passou aos “novos mundos” do nosso tempo, “os da tecnologia, da economia, da biomedicina, do mundo digital”, mundos envoltos ainda no mistério e na ambiguidade moral, onde o poder e o controlo de quem os domina sobre quem os não tem ou não entende tende a multiplicar-se, sublinhando que os valores, “os valores fundamentais”, nunca podem depender de uma “concessão do Estado” nem estar à mercê do “vaivém das maiorias”.

Citou então os seus antecessores imediatos na Cadeira de Pedro – Bento XVI e Francisco – para reafirmar valores fundamentais como o valor da vida, o direito à vida “do menino ainda não nascido” e “do velho e do enfermo que dependem inteiramente dos outros”. E condenando claramente o aborto e a eutanásia reiterou que “que toda a vida humana” deve ser “reconhecida e protegida, desde a sua concepção até ao seu ocaso natural, em cada circunstância da sua existência”. Isto porque “a defesa da vida humana” não é “uma questão particular nem um interesse confessional, é uma meta civilizacional”.

Depois de definir o bem comum como “a forma social da dignidade humana”, Leão referiu-se à família como “a realidade humana primeira e o fundamento natural da comunidade”. Daí “o direito primário e inalienável de os pais escolherem o tipo de educação e formação dos filhos, em coerência com as suas convicções morais, culturais e religiosas”.

Quanto ao “trágico drama migratório”, o Papa pediu respostas que respeitem a dignidade humana dos que são obrigados a partir, mas também diligências para que “ninguém tenha de abandonar a sua casa por falta de paz, segurança ou condições dignas de vida”. E aproveitou para denunciar os “traficantes e contrabandistas” que exploram o desespero dos que caem em desgraça e necessidade, apelando para soluções gerais, concertadas, entre as nações.

O segredo de confissão

A seguir falou da paz, dizendo que o recurso à guerra mostrava a “dolorosa derrota” da capacidade negocial e da consciência comum da Humanidade. E mostrou-se preocupado que no mundo, e também na Europa, o rearmamento militar estivesse a ser tão procurado. Censurou também a radicalização da linguagem política e a paralela tentativa de tutela sobre “a liberdade de pensamento, de consciência e de religião”. Aí, respondendo a um repto vindo da Esquerda parlamentar francesa para acabar com o “segredo de confissão”, centrou-se na liberdade religiosa e nos que querem restringi-la ou neutralizá-la, mesmo indirectamente.

Em França, depois dos casos de abuso sexual, que Leão XIV não deixou de descrever como “uma praga”, a Comissão Independente sobre os Abusos Sexuais na Igreja veio encorajar a quebra do segredo a que o sacerdote está obrigado sempre que tivesse conhecimento de um caso revelado em confissão, pelo autor, pela vítima ou por uma testemunha. No entanto, além de, no Direito Canónico, o segredo de confissão ser um dos mais sagrados compromissos do sacerdote, a própria lei francesa, fundamentada na doutrina da Cour de Cassation, garante o segredo de confissão, paralelamente ao segredo profissional dos médicos e dos advogados.

No parlamento espanhol, Leão XIV foi, sobre isso, muito claro: “O segredo sacramental da confissão insere-se na liberdade religiosa, que não pode nem deve ser tutelada pela República.”

A terminar, Leão referiu as obras de arte que enquadram o Parlamento espanhol, exaltando outra vez a Espanha e o papel da Espanha no mundo, e pedindo para que o Reino de Espanha, com a ancestral intercessão de São Tiago, alcançasse a prosperidade, a justiça e a paz duradouras.

No final foi longamente ovacionado por todos os deputados.