Pronto, confesso: estou a tremer como varas verdes, e já roí as unhas até às clavículas. E fiz promessas para tudo o quanto é santo (e algumas ameaças veladas também). Acabo de emborcar a terceira grade de chá de camomila, mas continuo com os nervos rente aos poros. É que, dentro de uns segundos (4, 3, 2, 1….) vai começar o Mundial de Futebol, o supremo torneio do desporto mais popular do Universo.
Como luso-brasuca, sofro duplamente – ou melhor, quintuplamente, pois tenho três filhos portugas, que moram em Portugal e vão apoiar a seleção das Quinas. Aliás, desta vez Portugal – com a mais vintage colheita de craques da sua história – é bem mais candidato ao título do que o Brasil.
Como se não bastasse, Portugal tem a melhor estirpe de treinadores do mundo. Neste momento, há seis portugueses no leme dos maiores clubes brasileiros. Um deles, Abel Ferreira, já rege o Palmeiras há 6 anos – no volátil ecossistema do futebol, uma longevidade de Matusalém (só de “minutos de silêncio”, Abel já tem uns seis meses). Abel tornou-se o treinador mais vitorioso da história do Palmeiras. E autor de um best seller: “Cabeça Fria, Coração Quente” – mais coração do que cabeça, e mais Caim do que Abel, já foi expulso de campo 14 vezes e viu 79 cartões amarelos.
Por ser a primeira seleção tricampeã do mundo, em 1970, o Brasil até conquistou a posse definitiva da taça Jules Rimet (por isso hoje o troféu é um sucedâneo), de ouro maciço e avaliada em 10 milhões de euros. Pena que, na noite de 19 de dezembro de 1983, a taça foi gamada. Estava exposta numa montra à prova de balas (a casa de tijolos do porquinho esperto), só que com uma moldura de madeira (a casa de palha do porquinho parvo). Nunca mais deu o ar da sua graça.
O Mundial deste ano é no México, Canadá e EUA. Para os americanos, “soccer”, pois para eles o futebol a sério é o rugby, e os seus praticantes são camiões TIR, daqueles com 30 pneus, só que sem travões. Aquilo que nos demais desportos é considerado falta para cartão vermelho, e nos países civilizados tentativa de homicídio em primeiro grau, no futebol americano é o objetivo do jogo.
54% dos americanos já declararam-se “totalmente desinteressados” no Mundial, e 59% dizem que não assistirão a uma única partida…Mas Trump pela-se por soccer, que acompanha desde os 20 anos, quando Pelé foi contratado pelo New York Cosmos. O então Secretário de Estado americano, Henry Kissinger, insinuou ao respectivo Ministro brasileiro das Relações Exteriores que impedir aquela transferência não seria bom para o Brasil – uma versão futebolística da Doutrina Monroe, ou do aforisma de Don Corleone n’”O Padrinho” (“Vou fazer-lhe uma proposta que não poderá recusar”).
Desde Mussolini em 1934, na Itália, poderosos aproveitam o pão & circo do Mundial para vender o seu peixe e deixar a oposição em águas de bacalhau. Em 2018, Putin assistiu aos jogos numa cadeira que mimetizava um trono. Em 2022, os xeiques do Catar torraram milhões em cheques para sediarem o campeonato – que pela primeira vez foi em novembro, de modo a que os jogadores também não torrassem no verão arábico.
Em 2025, Trump apaparicou Cristiano Ronaldo e Lionel Messi em pleno Salão Oval mas, tipicamente trumpiano, informou-os de que Pelé era bem melhor do que ambos. Gianni Infantino, presidente da FIFA (Federação Internacional de Futebol), no segundo mandato de Trump visitou a Casa Branca mais do que qualquer outro chefe de Estado. Quando o presidente americano amuou por não receber o Nobel da Paz , Infantino – que não queria que faltasse nada ao Presidente americano – criou o Prêmio da Paz da FIFA para ele. Mesmo com um escritório faraónico em Miami, a entidade aluga um imóvel na Trump Tower.
A FIFA é um sistema de clientelismo altamente lucrativo, liderado por Al Capones que trocam subornos por votos e atribuem o Mundial a países sem excessivos escrúpulos. Em 2015, o FBI indiciou nove funcionários da entidade. Em 2019, Michel Platini, um dos melhores jogadores de sempre e ex-presidente da UEFA, passou 12 horas atrás das grades por corrupção, quando já cumpria suspensão ditada pela própria FIFA.
Nem sempre foi assim. Em 1904, um rol de países europeus fundaram a FIFA, que atingiu o seu auge na década de 1920 sob a presidência de Jules Rimet. Rimet, um católico francês devoto, nutria ambições nobres: unir o mundo através do desporto e melhorar a vida dos pobres, mantendo-se à margem do sórdido mundo da política.
No ano passado, os EUA foram os anfitriões do Mundial de Clubes. Na final, Trump empoleirou-se num trono que fez o de Putin parecer um pufe. Quando o Chelsea venceu o torneio, Trump subiu ao palco para entregar o troféu — e de lá não saiu até ao fim da cerimónia. Até hoje há quem jure que ele embolsou a taça original e entregou ao Chelsea uma réplica. Como dizem os italianos (a frase é atribuída ao filósofo renascentista Giordano Bruno), “Se non è vero, è ben trovato” – ou seja: se não é verdade, é verossímil. Aliás, Bruno acabou na fogueira.
Já se jogava futebol na Idade Média, quando uma pele de cabrito insuflada era pontapeada pelas populações de vilas inteiras contra vilas rivais – e deixavam um rasto de florestas devastadas e vacas de pernas para o ar. Enfim, mais ou menos como as claques atuais reagem desportivamente às derrotas.
Mas modalidade mudou muito. Há um esforço titânico para fazer vingar o futebol feminino. Por enquanto, pelo menos na minha duvidosa experiência, desconfio que a maioria das mulheres continuam a gostar tanto de futebol como de dar à luz a quíntuplos sem peridural. Como disse a humorista Fran Lebowitz: “Ser-se mulher é algo de especial interesse apenas para os homens que querem ser transexuais. Para as mulheres a sério, é só uma boa desculpa para não ter de jogar à bola”. Bem, se muitas damas gostarem realmente de futebol, talvez os cavalheiros parem de alegar que a mãe do árbitro exerce a mais velha profissão do mundo.
Em Teerão fica o maior estádio do Médio Oriente, com um nome que hoje soa orwelliano: Azadi (Liberdade, em persa). O regime do Xá tinha convertido mesquitas em campos de futebol, mas a Revolução Islâmica inverteu a opção e proibiu as mulheres de irem aos estádios. Elas ficaram danadas, e o aiatolá Khomeini lá deixou que assistissem às partidas pela TV, enquanto engomavam a burca e lavavam a loiça.
Porém, num jogo que envolvia a classificação do Irão para o Mundial, milhares de iranianas partiram a loiça toda e se concentraram na porta do Azadi, rugindo: “Não somos formigas!” Borrada de medo, a polícia marmanja assobiou para o lado e permitiu que 4 mil mulheres entrassem e ocupassem assentos especiais, segregados do resto barbado do estádio.
Em tempo: o maior estádio do mundo é o Rungrado, em Pyongyang, na Coreia do Norte. Por motivo de força maior, ninguém sabe se as coreanas lá entram – ou os coreanos.
Como todo desporto de alta competição, o futebol exige disciplina, mesmo para aqueles atletas a fervilhar da testosterona. Mas também não exageremos. O grande Cruijff, que revolucionou o futebol no Barcelona, opinou: “O sexo é bom para os futebolistas, desde que não seja no intervalo das partidas”. Claro que no melhor pano cai a nódoa, como carpiu o sibarita craque irlandês George Best: “Gastei todo o meu dinheiro em bebida e mulheres. O resto desperdicei”.
Como escritor armado em bom, bem sei que devia amar, digamos, o xadrez em vez do futebol. Mas convenhamos que o xadrez é um niquinho catatónico. David Bronstein, ilustre campeão soviético, uma vez consumiu 50 minutos a estudar o seu PRIMEIRO movimento.
Como testemunhas de defesa, invoco um dream team de autores. O franco-argelino Albert Camus, ás do teatro do absurdo, é até hoje o único guarda-redes na história da humanidade a receber o Nobel de literatura. Em Argel, ele fechava hermeticamente a baliza do Racing Universitaire, que venceu a Taça dos Campeões de África. N’ “O Revoltado”, Camus pontificou: “Aquilo que sei com mais certeza sobre a moral e o dever, devo-o ao futebol». Não é verdade que Camus e Sartre – ex-melhores amigos para sempre – tenham rompido a amizade por causa da bola. Mas é verdade verdadinha que, no abstruso tratado “Critique de La Raison Dialectique”, Sartre explicou tintim por tintim: “Numa partida de futebol, tudo é complicado pela presença da equipa adversária.” Camus revirou os olhos: “E depois eu é que sou absurdo”.
Sir Arthur Conan Doyle, o pai de Sherlock Holmes, também foi guarda-redes, do clube inglês Portsmouth. J. K. Rowling até hoje não perde a uma partida do West Ham – quando a equipa é derrotada, transfigura-se em Valdemort. O uruguaio Eduardo Galeano escreveu vários livros sobre o desporto-rei. O melhor é “Encerrado Por Causa de Futebol”. No início de cada Mundial, ele pendurava na porta lá de casa um cartaz com aquele aviso. No Mundial de 1994, o do doping de Maradona, Galeano comentou sobre o faux-pas do génio argentino, que valeu-lhe uma suspensão de 15 meses: “Jogou, venceu, mijou, perdeu”.
Até o decadentista Oscar Wilde distinguiu alhos de bugalhos: “O rugby é um jogo para bárbaros praticado por cavalheiros. Já o futebol é um jogo para cavalheiros praticado por bárbaros”. George Orwell, embora tuberculoso (morreu aos 47 anos), não se iludia: “O futebol nada tem a ver com fair play – é a guerra menos os canhões”. No caso do chileno Roberto Bolaño, que também foi futebolista, é aquela coisa de cada louco com a sua mania: “A minha experiência como jogador nunca foi percebida nem pelos adeptos nem pelos meus colegas de equipa. Sempre pareceu-me muito mais interessante marcar golos na própria baliza do que na dos rivais. Um golo é descortês para o guarda-redes adversário, a quem não conheço e que nunca me fez mal nenhum”.
Perguntam-me imenso: Paulo, se o Brasil foi campeão do mundo cinco vezes, por que nunca produziu grande literatura sobre futebol? Bem, tão-pouco há grandes romances japoneses sobre sumo, portugueses sobre hóquei em patins ou escoceses sobre curling (seja lá que diabo for isso). Para Nelson Rodrigues, autor das crónicas “A Sombra das Chuteiras Imortais”, o problema é que os escritores “não sabem nem fazer um lançamento lateral”.
O irmão de Nelson, Mário Filho, foi o maior jornalista desportivo brasileiro, e é o nome oficial de um dos estádios mais icónicos do planeta: o Maracanã (embora talvez nem o porteiro do Maracanã saiba disso). Mario é o autor do clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”. No início do século 20, os clubes do Brasil correspondiam às comunidades de imigrantes. Os italianos fundaram o Palestra Itália (atual Palmeiras, que mudou de nome na II Guerra Mundial, pois Mussolini era o inimigo); os ingleses, o Corinthians; os portugueses, o Vasco da Gama, e assim por diante. Negros não podiam ser sócios, fosse pelos estatutos discriminatórios fosse porque não tinham pilim para a mensalidade.
Tudo começou a mudar com a percepção de que os negros eram os jogadores mais talentosos. Só que as regras da época não permitiam que os futebolistas fossem remunerados – e, como os futuros Pelés nunca nasciam em berço de ouro, não podiam dar-se ao luxo de encarar a bola como um hobby. A solução foi os diretores dos clubes contratarem os craques como “funcionários fantasmas” das suas empresas. Resultou: Leónidas da Silva, o melhor jogador do Mundial de 1938, é até hoje o nome do chocolate mais vendido no Brasil: o Diamante Negro.
Por falar em Pelé, o primeiro futebolista a marcar 1000 golos na carreira (CR7 está quase lá), ele e a sua equipa conseguiram parar uma guerra em 1969. Um cessar-fogo de 48 horas suspendeu a guerra civil nigeriana, permitindo que a população assistisse ao jogo entre o Santos e uma seleção local. Finda a partida, a carnificina recomeçou donde tinha parado (ou com moeda ao ar, já não me lembro).
Nem sempre, claro, as relações entre a política e o futebol foram auspiciosas. No Brasil a bola é assunto de Estado – se a seleção brasileira cair na primeira fase, na volta os jogadores em fila indiana serão recebidos pelo presidente Lula com carolos na cabeça. Em 1994, o defesa colombiano Andrés Escobar foi assassinado em Medellin, poucos dias depois de marcar um golo na própria baliza na derrota da Colômbia para os EUA no Mundial daquele ano. O assassino gritou “golo!” a cada disparo.
Mas a pior utilização de um campo de futebol foi no Chile, após o golpe militar de 11 de setembro de 1973, quando o Estádio Nacional de Santiago foi transformado num centro de detenção, torturas e execuções, pelo qual passaram 40 mil pessoas. A FIFA inspecionou o estádio, e o relatório da entidade concluiu que “o relvado estava em perfeitas condições”.
Como Arthur Koestler observou, existe o nacionalismo e existe o nacionalismo futebolístico – e este último muito mais chauvinista. Por outro lado, várias seleções da Europa são hoje multiétnicas, com jogadores múltiplas ascendências. Os astros da Holanda e da França são de origens imigrantes não brancas. O maior craque da Espanha é o adolescente Lamine Yamal, de 18 anos, de mãe da Guiné Equatorial e pai marroquino. Uma das razões para a ascensão de jogadores europeus não brancos é óbvia: o desporto e o entretenimento continuam a ser atalho para a fama e a riqueza para minorias pobres. A outra razão é estrutural. O futebol profissional tornou-se um negócio da China internacional.
Estrangeiros e imigrantes também reinam em clubes como o Paris Saint-Germain e o Bayern de Munique. Esses atletas VIP, independentemente de onde nasceram, são transferidos por somas estratosféricas. São multimilionários e falam vários idiomas. Se o futebol de alta competição agora é jogado por cosmopolitas desenraizados, é financiado por plutocratas que não são mais exclusivamente europeus. O Paris Saint-Germain pertence a um grupo de investimentos do Catar; o Manchester City, ao xeique Mansour bin Zayed Al Nahyan, de Abu Dhabi; e o Newcastle, a um fundo soberano saudita. O dono do Arsenal é o bilionário americano Stan Kroenke, e a Inter de Milão passou de mãos chinesas para americanas.
E o desporto-rei representa uma hierarquia global alternativa, na qual os EUA são meros figurantes e a China sequer está incluída. Por essas e por outras, não penso que o futebol seja questão de vida ou morte: ele é muito mais do que isso. Para mim, o futebol é a coisa mais importante das coisas sem importância. Na final deste Mundial (o preço de um bilhete para ela atingiu 2 milhões de euros no site de revenda da FIFA), ficarei em êxtase se ganharem ou o Brasil ou Portugal. Já o empate é um resultado politicamente correto: empurrar o destino com a barriga. Mas assim como a vitória, a derrota também pode ter a sua grandeza sublime. Para reconhecer uma autêntica vitória, nada como consultar os líderes partidários brasileiros ou portugueses: é aquilo que todos eles juram de pés-juntos ter alcançado após as eleições.
Espero ter demonstrado que nós, os amantes do futebol, não somos nada parvos. Pois: as aparências enganam.