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(A) :: Uma tradição fora da vidraça

Uma tradição fora da vidraça

Não há maneira de, simultaneamente, preservar as marchas dos Santos Populares e fechar os vestígios delas num museu.

Margarida Bentes Penedo
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Quinta-feira, 28 de Maio, Assembleia Municipal de Lisboa. Discutiu-se o documento do PS que pedia a construção de um Museu das Marchas Populares no Parque Mayer. As marchas dos Santos Populares, em Lisboa, conservam ainda um núcleo de autenticidade visível no entusiasmo com que os moradores preparam os fatos, os temas, os adereços, as canções, as coreografias, os brilhos que o bairro deles vai levar a descer a avenida. E a esperança em que a marcha deles ganhe a competição. Cada bairro esforça-se em luz, movimento, barulho e cor em nome de uma única noite por ano, a véspera de Santo António. Como é que se enfia tudo isto num museu? Que parte disto deve ser escolhida e que parte deve ser deixada de fora? Admitindo que o museu mostra os fatos da marcha que ganhou o prémio, o que fazer quando um bairro ganha dezoito vezes – desde o 25 de Abril -, como é o caso de Alfama? Os outros bairros não entram no museu?

Uma coisa é reconhecer que um determinado objecto ou exercício tem valor cultural. Lisboa reconhece nas marchas dos Santos Populares esse valor. Daí não segue que se deva – ou sequer possa – transformar essa manifestação cultural em conteúdo de museu. A natureza das marchas entra em conflito com a própria ideia de museu. Há partes da nossa cultura que sobrevivem porque são conservadas e outras partes, igualmente essenciais, sobrevivem porque são praticadas e vividas. As marchas dos Santos Populares sobrevivem pela repetição. Podem guardar-se os figurinos, as fotografias do desfile, os prémios entregues pelos srs. Presidentes da República ou da Câmara; tudo isso importa e constitui reconhecimento pelo esforço. Mas a essência das marchas ultrapassa esses vestígios. Ela está na preparação anual, na agitação dos bairros, na rivalidade entre eles, na festa, na dança e na noite de Santo António.

Estes abusos têm a sua ironia. Quem ouvisse estas almas, e tudo o que se tem dito sobre as marchas dos Santos Populares, julgaria estar perante uma tradição imemorial. Ninguém sabe ao certo quando elas nasceram. Sabe-se que, numa versão muito semelhante à de hoje, elas foram inventadas nos anos 30 e nacionalizadas por António Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional (SPN) do Estado Novo e, mais tarde, director do Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo. Antes disso, havia umas festas mais modestas, dentro dos próprios bairros, sem competição nem descidas pela avenida abaixo. Foi o Estado Novo que as projectou e que as perfilhou como parte da cultura oficial do regime. Uma manifestação popular que já foi apropriada pelo Estado Novo volta a ser seduzida para debaixo da asa protectora do Estado, revestindo com a roupagem de tributo o velho impulso de “enquadrar”, “representar” e falar em nome da cultura popular. A proposta do museu surge na continuidade natural deste movimento.

Pelo contrário. A cidade de Lisboa respeita nas marchas uma natureza que desaparece no dia em que o Estado as transformar numa expressão oficial de cultura. Não há maneira de, simultaneamente, preservar as marchas dos Santos Populares e fechar os vestígios delas num museu. É uma daquelas tradições que sobrevivem enquanto alguém as continua a praticar. Construir-lhes um museu é declará-las mortas. Até ver, parece uma política precipitada.