O carro seguia na zona da Grande Lisboa com três passageiros: mãe, um filho bebé e uma filha menor com 12 anos. Ao volante, seguia o namorado da mãe e padrasto da menina, ao que apurou o Observador junto de fonte conhecedora do processo. A mulher tinha adormecido e foi então que o padrasto terá tido “comportamentos menos próprios” que levaram a menor a sentir-se em perigo. O Observador sabe que não era a primeira vez que percebia que o companheiro da mãe a tentava aliciar. Naquele dia, durante a viagem, o homem terá tocado nas pernas e nas zonas íntimas da criança, que procurou ajuda de imediato.
Ligou para o 112, respondeu ao operador com um “olá, tio!”, convenceu-o de que era mesmo com o “tio” que estava a falar e só haveria de desligar a chamada quando a Polícia de Segurança Pública (PSP) intercetou a viatura onde estavam e identificou o padrasto. Uma equipa da polícia já estava à espera deles, à porta de casa da família. A mãe apresentou queixa por tentativa de abuso sexual na mesma noite.
Para trás ficaram 14 minutos de conversa, em que a criança teve a “inteligência e perspicácia” de transmitir o pedido de ajuda ao operador do 112 que a atendeu, sem que o alegado agressor, ali mesmo ao lado, se apercebesse da denúncia em curso. Ao Observador, o Coordenador Nacional do 112, superintendente Carlos Martins, elogia, de resto, a forma como a menor agiu para sair da situação de perigo em que se encontrava. “É uma criança muito inteligente e perspicaz que foi dando dicas e construindo uma história para que o agente pudesse perceber.” Por outro lado, Carlos Martins também destaca, com orgulho, a “sensibilidade incrível” do agente da PSP que atendeu a chamada da menor. Se a experiência como operacional do 112 é considerada determinante para lidar com as situações mais complexas, este jovem agente teve uma atuação decisiva sem precisar dela: é “muito jovem” e “está há menos de um ano na PSP”.
https://observador.pt/2026/06/10/ola-tio-menor-utiliza-codigo-para-alertar-discretamente-a-psp-de-tentativa-de-abuso-sexual/
“Olá, tio! Estou a ir para casa agora e estou com a minha mãe no carro”
Tudo começou às 1h35 da manhã de um sábado, era dia 2 de maio. A criança ligou para o número de emergência, o agente da PSP atendeu, mas fez-se silêncio durante os primeiros dois ou três segundos da chamada. Na verdade, nesses instantes iniciais ouviam-se apenas algumas vozes de fundo, mas o agente da PSP não deixou de estar alerta. “É normal isso acontecer no início das chamadas para o 112”, explica o superintendente Carlos Martins.
É então que a menor de 12 anos fala pela primeira vez: “Olá, tio!” O agente da PSP percebe que quem está a falar é uma criança e admite a possibilidade de ser apenas um engano. “Há sempre uma dúvida, porque a pessoa pode ter cometido um erro ao ligar para o 112″, justifica o Coordenador Nacional do 112. O operador tenta esclarecer a menor, dizendo-lhe que estava a ligar para o número de emergência, mas, segundo o Correio da Manhã, que revelou a história, do outro lado da linha ouve: “Sim, eu sei, tio. Estou a ir para casa agora e estou com a minha mãe no carro.”
A insistência da criança fez com que o jovem agente percebesse que não se tratava de um erro, e bastaram mais “duas ou três perguntas” para concluir que algo estava a acontecer, relata Carlos Martins. Após perceber que a criança estava em situação de perigo, o operador adaptou o discurso para evitar que a eventual fonte da ameaça compreendesse que estava em curso uma chamada para o 112. “O agente adotou uma personagem de tio para que a rapariga conseguisse responder à informação mínima necessária para agir.”
O coordenador nacional não revela detalhes mais concretos da conversa ao Observador, mas, em situações semelhantes, há técnicas para conseguir essa informação, como perguntas simples e direcionadas, que possam ser respondidas com frases muito curtas ou apenas “sim” e “não”. Neste caso, para que a menor pudesse dar informações sobre o carro onde seguia a família, a estratégia pode ter passado, por exemplo, por enumerar várias marcas de carros até a criança dar uma resposta afirmativa. No caso da cor da viatura, sabe o Observador, a menina respondeu apenas “red”, vermelho em inglês.
Através de respostas curtas a perguntas concretas, a criança de 12 anos foi dando informações essenciais ao agente da PSP, não apenas sobre o veículo, mas também sobre o local para onde seguiam, a casa onde a família vive. O Observador apurou que a história que criou para falar com o “tio” envolvia um jantar. Assim conseguiu justificar o facto de estar a dizer a morada de casa: era a morada para onde deveria ser enviada a comida que iam encomendar. Sobre a própria idade, respondeu “10+2”. À pergunta sobre se havia armas no carro, disse apenas “não”.
Sobre a situação em concreto, para não aumentar o risco, não terão sido feitas perguntas muito específicas. Segundo o superintendente Carlos Martins, o agente da PSP conseguiu perceber apenas que “havia alguém que queria fazer mal à criança”, mas não mais do que isso. Até porque, diz ao Observador outra fonte, era possível perceber que a menor estava “assustada” e que teria medo do namorado da mãe — o que poderá explicar que não tenha optado por, simplesmente, acordar a mãe, perante o avanço do padrasto. Só mais tarde, quando a família foi intercetada pela PSP, foi possível apurar que o perigo em causa — e os “comportamentos menos próprios” — estaria relacionado com uma alegada tentativa de abuso sexual.
A interceção começou a ser preparada durante a chamada. Na central do 112, além dos operadores, há também um supervisor e os elementos de ligação às várias forças de autoridade. Depois do alerta do jovem agente, todos entraram em ação. “Quando viram que era um caso realmente urgente e era preciso apanhar esta situação rapidamente, estabeleceram um elo de comunicação imediato entre a central do 112 e os elementos da PSP que iriam intercetar o veículo. À medida que o agente estava a falar com a criança, as informações estavam todas a ser passadas à PSP, via voz”, explica Carlos Martins.
A necessidade de agir rapidamente fez com que as informações não fossem apenas inseridas no sistema informático: ao lado do jovem que atendeu a chamada, passou a estar outro elemento que falava diretamente com a PSP. A rapidez na transmissão da informação permitiu à PSP, com uma patrulha da esquadra da Damaia, chegar à porta de casa da família à 1h45, 10 minutos depois do início da chamada, antes mesmo da viatura onde seguia a menor. “Na chegada ao destino, já estavam lá à espera”, revela Carlos Martins. É apenas quando a PSP interceta o carro — e a criança fica em segurança — que termina a chamada com o operador, mais de 14 minutos após ter começado.
O suspeito, que não vivia na mesma casa da família, foi identificado e constituído arguido. Nessa mesma noite, a mãe apresentou queixa por tentativa de abuso sexual sobre a filha e quis avançar com o procedimento criminal. É nessa queixa que a menor conta outras situações anteriores e relata o que aconteceu dentro do carro. O caso foi, depois, entregue ao Ministério Público e à Polícia Judiciária, a quem cabe a investigação deste tipo de crimes.
“Daqueles agentes que seguramente vamos querer manter para sempre”
A atuação do agente que atendeu a chamada da menor valeu-lhe um “elogio escrito” da Direção Nacional da PSP, publicado internamente. O superintendente Carlos Martins contou que se trata de um polícia “muito jovem, com pouca experiência, mas uma sensibilidade incrível” para as suas funções. “É daqueles agentes que seguramente vamos querer manter para sempre”, acrescenta.
Questionado sobre se os agentes recebem algum treino específico para lidar com situações semelhantes, o coordenador do 112 diz que “o melhor treino é a experiência do dia a dia”. Neste caso, havia um fator que poderia ter despistado o operador: é comum receberem chamadas falsas de crianças. “Recebemos imensas chamadas de crianças que querem brincar com o 112. Há técnicas para perceber se a chamada é a sério ou a brincar.” O que significa que, às vezes, o treino vem das situações falsas. “Há pessoas que ligam com histórias muito bem construídas, e temos de usar técnicas para despistar.”