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(A) :: A D. Maria não é um internamento social 

A D. Maria não é um internamento social 

O problema está num sistema que chama “social” ao tempo de espera entre a doença e os cuidados necessários. Que chama "social" ao que é clínico.

Ireneia Lino
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D. Maria tem 70 anos. Foi técnica oficial de contas toda a vida e não pensava  reformar-se antes dos 70. Mas quando o marido, Joaquim, adoeceu com cancro, a  reforma tornou-se inevitável. Passou a ser cuidadora a tempo inteiro: consultas,  tratamentos, medicação, alimentação, vigilância. Como tantas mulheres, tornou se o pilar da família.

E depois, num almoço banal, tudo mudou.

D. Maria sentiu-se mal. O Sr. Joaquim ligou para o 112. Vieram os bombeiros, a  VMER, a rapidez necessária quando o tempo é cérebro. AVC. Via verde ativada.  Trombólise. Unidade de AVC. Monitorização apertada. Exames sucessivos.  Fisiatria. Fisioterapia.

Mas os danos eram graves: disfagia (dificuldade na deglutição), hemiparesia (diminuição da força muscular na metade do corpo), disartria (Alteração da fala).  A D. Maria deixou de conseguir andar, comunicar normalmente, alimentar-se sem  risco. Em apenas dez dias, aquela mulher que sustentava a casa e o marido  passou a depender dos outros para quase tudo.

Ao décimo dia teve alta hospitalar.

Melhor dizendo: teve alta do hospital de agudos e foi referenciada para a Rede  Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI). Precisava de reabilitação,  fisioterapia, cuidados de enfermagem e acompanhamento multidisciplinar.  Precisava de continuar a recuperar.

Mas não havia vaga.

E assim, de um dia para o outro, passou a ser considerada um “internamento  social”.

Social? Como pode ser apenas social uma doente que acaba de sofrer um AVC  grave e que continua dependente para as atividades mais básicas? Desde quando  a falta de resposta do sistema transforma necessidades clínicas em problemas  sociais?

Há uma perversidade nesta discussão pública sobre os chamados  “internamentos sociais”. Muitas vezes fala-se destes doentes como se  ocupassem camas indevidamente. Como se fossem um peso morto no sistema.  Como se estivessem no hospital porque a família “não quer saber”.

Mas a realidade nem sempre é essa.

Porque ninguém reorganiza uma vida em dez dias. Não se adapta uma casa, não  se aprende a cuidar de uma pessoa dependente e não se transforma uma família  numa equipa de reabilitação especializada em dez dias.

O problema não está na família da D. Maria. O problema está num sistema que  chama “social” ao tempo de espera entre a doença e os cuidados adequados.

E Marias há muitas. Doentes que já não precisam de uma cama hospitalar, mas  que continuam a precisar de cuidados. Doentes que aguardam reabilitação, não  por razões sociais, mas porque a resposta que necessitam ainda não chegou.

Porque recuperar de uma doença não termina quando termina o internamento  hospitalar. E há sistemas que deixam sequelas nas famílias tão profundas quanto  as que a doença deixa nos doentes.