A APA e a Ministra do Ambiente aparecem como defensores dos banhistas, empunhando o pau do chapéu-de-sol e da inveja contra os concessionários – os mesmos que asseguram apoios de praia, vigilância e nadadores-salvadores.
Pela primeira vez, José Pimenta Machado, Presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), teve oportunidade de vir bronzear o seu cargo: lembrou-se de esclarecer os portugueses sobre o seu direito inequívoco de colocarem chapéus-de-sol em frente às concessões de praia, “para que não restem dúvidas”.
Mas Pimenta Machado também teria, decididamente, as suas incertezas quanto a este assunto: é que o actual presidente da APA já era Vice-Presidente daquela agência desde 2018 e é ele o seu Presidente desde 2024 (substituindo Nuno Lacasta, então arguido na Operação Influencer). Mas só em Maio de 2026 se fez luz (ou sol) na sua cabeça: as placas colocadas nas praias proibindo os chapéus-de-sol em frente às concessões são, afinal, quem diria, fake news, sempre foram, mas o Sr. Presidente nunca se lembrou de o dizer: nem aos banhistas, nem aos concessionários. E, mesmo depois da intervenção acalorada do Sr. Presidente, e após a emissão da tão aguardada nota de esclarecimento da APA, mantêm-se as dúvidas sobre se quem paga 30 euros (ou mais) por um toldo conseguirá, ou não, ter um pequeno vislumbre do mar, e se os concessionários continuarão a ter negócio, uma vez que talvez não compense ao freguês pagar um colmo para estar rodeado de chapéus da Olá.
De qualquer das formas, pelos comentários que vi sobre estas afirmações, os “ricalhaços” que alugam um toldo para ter uma vista melhor do oceano e uma espreguiçadeira confortável durante duas semanas do ano têm é de desandar e “deviam ir mas é comprar uma ilha privada”, porque a praia é de todos. Na praia portuguesa, com certeza, vale a mentalidade do caranguejo: se eu não posso, ou não quero, pagar uma sombrinha, tu também não podes tê-la, portanto ficamos os dois com o rabo na areia, sem ver o mar, para ser tudo muito igual e muito democrático. Se houvesse paciência, poderia explicar-se que sim, a praia é de facto de todos, e que isso nunca esteve em causa: mas se um toldo pago só dá para ver um mar de geleiras e de chapéus, então não é um toldo, é um imposto sobre a sombra.
Talvez tenha sido a onda de calor da altura que levou Pimenta Machado a “suar” este assunto. É que não me lembro de o ver a vociferar tanto quando, de Tróia à Comporta, esteve a construir-se, desde 2022 (já Pimenta Machado era Vice-Presidente da APA), um empreendimento de luxo com um hotel e vários aldeamentos, que fechou quilómetros de costa e de acessos às praias que, afinal, são de todos (ou não, Sr. Presidente?). Este empreendimento “super chic”, de mais de 100 hectares, foi feito em cima das dunas com o aval da câmara comunista de Grândola – sim, essa mesmo, a anti-capitalista CDU– e, claro, com a aprovação da APA, que autorizou a obra apesar de ter identificado “impactos negativos muito relevantes, de magnitude elevada”, sobre “valores ecológicos extremamente altos”, nomeadamente sobre plantas e dunas. Mas quem é que quer saber das plantas, da vida selvagem e das dunas, quando estão em causa quartos a 5700 euros por noite? Pimenta Machado e a APA não quiseram, e os comunistas muito menos – só o IMI que a câmara da CDU arrecadou aquando da venda dos terrenos dava para pagar a tal ilha para todos os camaradas se sentarem (debaixo de chapéus-de-sol, claro, para não haver cá desigualdades), a suspirar pelos bons velhos tempos da União Soviética.
A bem dizer, a APA tem uma consciência ecológica impecável: finge preocupar-se com o ambiente e com os banhistas mas, quando chega a hora da verdade, não obsta à destruição e privatização de quilómetros de terra selvagem, deixando que a encham de betão (e de notas), matando raposas e ouriços por falta de passagem, arrasando vegetação e praias virgens, tudo em nome do grande capital. Com ambientalistas destes, quem precisa de comunistas, perdão, capitalistas?
A filosofia do fracasso, o credo da ignorância e o evangelho da inveja (das sombrinhas) reinam em Portugal: as câmaras, o Ministério do Ambiente e a APA licenciam, aprovam, toleram ou assobiam para o lado perante destruições descaradas da costa portuguesa e verdadeiras privatizações de praias. Depois, com ar severo, o Sr. Presidente da APA, acompanhado da Ministra do Ambiente, aparece como o defensor dos banhistas, empunhando o pau do chapéu-de-sol contra os concessionários – os mesmos que asseguram apoios de praia, vigilância e nadadores-salvadores onde o Estado, sozinho, deixaria pouco mais do que areia e boas intenções. No fim, os banhistas ficam ingenuamente satisfeitos porque podem enfiar o chapéu-de-sol em frente aos “ricos”, para lhes mostrar que na praia somos todos iguais.
Como dizia Vasco Santana, “chapéus há muitos, seu palerma” – coerência é que não.