Chamaram-na de chouchou, uma “preferida” que se valia do tamanho discreto. A carteira fora criada pelo designer Gianfranco Ferré em 1994, e em 25 de setembro do ano seguinte conheceria uma inesperada – e irreversível – visibilidade. E pelo menos por algum tempo haveria de colocar em modo de pausa a não menos elegante carteira Versace com que uma das protagonistas desta história se apresentou na capital francesa.
Já divorciada do príncipe Carlos, a princesa de Gales acumulava milhas nas deslocações internacionais que pautaram esta sua nova fase. Na ocasião, visitava Paris para a abertura de uma exposição retrospetiva de Paul Cézanne no Grand Palais. Antes desse momento, foi recebida no Palácio Eliseu pela então primeira-dama. Em modo choker (característico na convidada inglesa) ou comprido (no caso da anfitrã francesa), as clássicas pérolas acrescentavam harmonia aos tons e corte dos conjuntos eleitos.

Na imagem, Bernadette complementa o visual com uma carteira de mão preta, escolha habitual no seu guarda-roupa público. Quanto a Diana, trazia pela mão aquela que fora a resposta do seu amigo Gianni Versace à célebre Kelly da Hermès, batizada em honra de Grace Kelly, outra referência de estilo lendária. O acessório lacado em preto, com a mesma silhueta, era composto pela sua própria fechadura e chave e desfilara pela primeira vez nas mãos da top model Naomi Campbell, no lançamento das coleções de outono-inverno 1994. A carteira que pertenceu à princesa, ou “Diana Bag” terá feito parte da coleção pessoal de Antonio Caravano, que em 2025 a cedeu a título de empréstimo para a exposição “Gianni Versace Retrospective”, que este verão se instalou em Paris.
Atenta à arte da diplomacia e grande impulsionadora do savoir faire gaulês, Bernadette Chirac, que morreu aos 93 anos no passado dia 5 de junho, ia além da promoção dos impecáveis tailleurs Chanel ou do cabelo ripado e da era da laca que celebrizaram a sua estética. Depois de sondar a casa de moda, a primeira-dama aproveitou o momento em 1995 para oferecer a Diana uma carteira Dior que seria a primeira de muitas na coleção pessoal da mãe dos príncipes William e Harry. O presente tornar-se-ia duplamente simbólico, não só porque contribuía para um generoso empurrão à maison, que até hoje mantém a criação entre os acessórios mais emblemáticos, como fez da princesa uma das suas clientes estrelas. De tal forma que a original chouchou haveria de ser renomeada em tributo a Diana em 1996, passando a responder por Lady Dior, depois de um breve rebatismo de Princesse.

Bernadette deixaria o Eliseu em 2007, 10 anos depois da trágica morte de Diana. Em 2011, aos 77 anos, um ano depois de se juntar ao conselho de administração do grupo LVMH, a sua imagem reinventava-se ao ponto do culto. Figura assídua nas filas da frente da semana da moda, chegou mesmo a inspirar a criação de uma linha de t-shirts Bernadette, desenhadas por Marc Delattre.

“Uma diretora independente do Conselho do Grupo LVMH desde 2010, trouxe para o papel clareza de julgamento, experiência e um espírito de autonomia, qualidades que foram muito admiradas. Uma mulher de convicção, bem como discrição, sua humildade só foi acompanhada por sua generosidade, inteligência e bondade.”, elogiou a Dior no rescaldo da morte da mulher do antigo presidente francês Jacques Chirac, lembrando ainda a famosa bolsa de cor preta que foi oferecida à princesa.

Depois desse momento em Paris, Diana haveria de ser fotografada com a carteira em diferentes ocasiões e eventos públicos, como em Birmingham, ou novamente algumas semanas depois, durante uma estadia na Argentina em novembro de 1995. Mas uma das aparições até hoje mais recordadas é a Met Gala de 1996, quando surgiu com uma versão mais pequena da Lady Dior em seda azul escura adornada com acessórios brilhantes.

Nesse ano, a princesa de Gales foi convidada de honra na festa que antecede a grande exposição de moda anual no Museu Metropolitan de Nova Iorque, então dedicada, precisamente, a Christian Dior. Em 2022, a casa francesa reeditou a carteira Lady Dior que a princesa de Gales usou na festa. A peça em seda azul escura e adornada com strass, ficou disponível em edição limitada.

A carteira Lady Dior é feita, parcialmente, em Itália, mas é um reflexo da herança da casa Dior, segundo explica a marca. A pele, que dá forma à peça, é costurada de forma a criar um efeito “cannage”, o padrão especial criado em palhinha nas cadeiras Napoleão III que fazem parte da história da marca há vários anos. Na pega estão pendurados os “charms” com as letras da palavra Dior. Em 30 anos, o modelo conheceu uma autêntica e diversificada gama de opções, tamanhos, texturas, cores, e musas, rondando atualmente os 3 mil euros. Durante o consulado da designer italiana Maria Grazia Chiuri na Dior, a carteira foi redesenhada para dois novos formatos, a Lady D-Lite e a Lady D-Joy.

Ironias do destino, ou simples sinal de fair play e bom gosto, também Camila, a mulher que ao longo de anos protagonizou um dos triângulos amorosos reais mais mediáticos, atual consorte de Carlos III, é hoje uma fã confessa do modelo, tendo sido vista por várias vezes com uma Lady Dior pela mão. Em julho de 2024, surpreendeu pela primeira vez ao surgir no torneio de ténis de Wimbledon com o acessório. Camila usou um vestido de Anna Valentine bordado com girafas, uma peça que usara na sua visita ao Quénia em novembro do ano anterior, mas que ficou ofuscada pela carteira em tons bege que rapidamente suscitou a memória de Diana. Uma das utilizações mais recentes foi no passado fim de semana, no casamento de Peter Phillips e Harriet Sperling.