É a principal competição do mundo e aquela que tem o condão de colocar no mesmo patamar atletas dos principais campeonatos do planeta e outros que atuam em países periféricos e até em divisões inferiores. Com o aumento para 48 seleções, as histórias do Campeonato do Mundo ganharam novos capítulos e Portugal não é exceção, embora esteja em várias frentes. Se, por um lado, a Seleção Nacional é considerada uma das grandes candidatas a conquistar o troféu, o mesmo não se pode dizer do Campeonato Nacional, que corre atrás de outras ligas, embora tenha 32 representantes no Canadá, nos EUA e no México. Nesse capítulo o Benfica é dono e senhor, tendo em prova oito jogadores: Tomás Araújo (Portugal), Fredrik Aursnes e Andreas Schjelderup (Noruega), Nico Otamendi (Argentina, embora já tenha assinado pelo River Plate), Sidny Lopes Cabral (Cabo Verde, que também está de saída, neste caso com contrato assinado pelos turcos do Trabzonspor), Dodi Lukebakio (Bélgica), Richard Ríos (Colômbia) e Amar Dedic (Bósnia).
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Já o Sporting conta com sete jogadores no Mundial-2026, incluindo Rui Silva, Gonçalo Inácio e Francisco Trincão: Maxi Araújo (Uruguai), Zeno Debast (Bélgica), Ousmane Diomande (Costa do Marfim) e Luis Suárez (Colômbia). A completar o pódio da Primeira Liga está o Sp. Braga, que conta com Florian Grillitsch (Áustria), Lukás Hornícek (Rep. Checa), Gustaf Lagerbielke (Suécia) e Rodrigo Zalazar (Uruguai). O FC Porto tem “apenas” três jogadores na América do Norte, “emprestando” Diogo Costa, Deniz Gül e Seko Fofana (que vai sair) às seleções portuguesa, turca e costa-marfinense. Segue-se o Vizela do segundo escalão, que está representado por Leverton Pierre e Yassin Fortuné no Haiti, que se estreia em Mundiais.
Cabo Verde, o país com mais “portugueses”, conta ainda com Jovane Cabral (E. Amadora), Telmo Arcanjo (V. Guimarães), Dailon Livramente (Casa Pia), Vozinha (Desp. Chaves), Stopira (Torreense) e Yannick Semedo (Farense), ao passo que Ghislain Konan, do Gil Vicente, e Yaya Sithole, do Tondela, estão ao serviço de Costa do Marfim e África do Sul, respetivamente.
No presente, este acaba por ser o ponto alto da carreira de grande parte dos jogadores que estão presentes no Mundial. Contudo, nada disto seria possível sem todo o trabalho e esforço que foram desenvolvidos nas últimas décadas. É precisamente na base da pirâmide do futebolista que está um trabalho silencioso, muitas vezes voluntário, e que é tão importante para o desenvolvimento do jogador como atleta e como pessoa. Nesse sentido, o Observador foi perceber a realidade atual dos clubes dos 27 convocados de Roberto Martínez para o Mundial-2026, numa lista que foge à dimensão atual do futebol português, já que apenas quatro internacionais portugueses deram os primeiros toques na bola nos três grandes. Para além disso, só estão “representados” quatro clubes da Primeira e Segunda Ligas, numa lista que integra 24 equipas e que, como tal, tem apenas três “repetidos”.
O primeiro clube dos 27 convocados para o Mundial-2026
- Diogo Costa (Associação de Moradores do Complexo Habitacional de Ringe)
- Nélson Semedo (Sport União Sintrense)
- Rúben Dias (Clube de Futebol Estrela da Amadora)
- Tomás Araújo (Operário Futebol Clube 1960)
- Diogo Dalot (Escola de Futebol Fintas)
- Matheus Nunes (Grupo Desportivo União Ericeirense)
- Cristiano Ronaldo (Clube de Futebol Andorinha)
- Bruno Fernandes (Futebol Clube de Infesta)
- Gonçalo Ramos (Sporting Clube Olhanense)
- Bernardo Silva (Sport Lisboa e Benfica)
- João Félix (Escola de Futebol “Os Pestinhas”)
- José Sá (Palmeiras Futebol Clube)
- Renato Veiga (Atlético Clube do Cacém)
- Gonçalo Inácio (Almada Atlético Clube)
- João Neves (Casa do Benfica de Tavira)
- Francisco Trincão (Sport Clube Vianense)
- Rafael Leão (Amora Futebol Clube)
- Pedro Neto (Sport Clube Vianense)
- Gonçalo Guedes (Sport Lisboa e Benfica)
- João Cancelo (Futebol Clube Barreirense)
- Rúben Neves (Futebol Clube do Porto)
- Rui Silva (Futebol Clube da Maia)
- Vitinha (Associação de Moradores do Complexo Habitacional de Ringe)
- Samu Costa (Sport Clube Beira-Mar)
- Nuno Mendes (Futebol Clube Despertar)
- Francisco Conceição (Sporting Clube de Portugal)
- Ricardo Velho (Escola de Futebol Fernando Pires)
O estranho caso de Chico, os quatro clubes profissionais e os outros dois repetentes
Começando pelos clubes mais mediáticos do futebol português, Benfica, FC Porto, Sporting e E. Amadora são as únicas equipas das divisões profissionais que viram jogadores desta Seleção Nacional começar a jogar futebol nas suas fileiras. No que toca às águias, Bernardo Silva e Gonçalo Guedes deram início às suas carreiras no Estádio da Luz, ainda que em realidades distintas: o médio do Manchester City começou numa altura em que o Benfica Futebol Campus estava em construção, ao passo que o avançado da Real Sociedad foi dos primeiros jogadores a passar pelo centro de treinos do Seixal. Na mesma toada encontra-se o percurso dos dois internacionais ao serviço das águias, já que Bernardo teve poucas oportunidades na equipa principal antes de sair para o Mónaco, ao passo que Gonçalo representou o clube em cinco temporadas e em duas passagens distintas (a última na derradeira temporada).
A norte está o FC Porto de Rúben Neves, que é, por esta altura, o principal clube do futebol nacional. Foi na cidade Invicta que, em 2005, o médio se tornou jogador de futebol, tendo passado por todos os escalões de formação dos dragões, incluindo a equipa B e a equipa principal. Esteve apenas três temporadas na equipa principal, o que demonstra o seu impacto e a sua importância num FC Porto que procurava sobreviver e reconstruir-se sem o fulgor financeiro de outros tempos. Com apenas 18 anos, tornou-se no capitão mais jovem da Liga dos Campeões, batendo o recorde de Rafael van der Vaart. Apesar do percurso bem-sucedido, Neves conquistou “apenas” um Campeonato de Sub-15 ao serviço dos portistas.
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Em sentido inverso está Francisco Conceição que, apesar de ser conhecido pela sua admiração pelo FC Porto, começou a carreira no… Sporting. Foi em 2011 que o filho de Sérgio Conceição começou a treinar no Polo EUL, onde esteve durante cinco anos (passando para a Academia), antes de chegar aos dragões. O percurso não é muito diferente do irmão Rodrigo Conceição e até do amigo Fábio Silva, que começaram no Benfica antes de chegarem à cidade do Porto. Por fim, Rúben Dias é o último “representante” de clubes que se encontram, no presente, na Primeira Liga, embora a sua história tenha passado pelo “velhinho” E. Amadora, que entretanto foi extinto e deu lugar ao atual Club Football Estrela da Amadora, que resulta da fusão com o Club Sintra Football. Alheio a isso, o central começou a jogar futebol na sua cidade e, dois anos depois, já tinha captado a atenção dos olheiros do Benfica, clube pelo qual se mostrou ao mundo.
É na Liga 3, a partir da próxima época, que encontramos o Vianense, clube que “viu” nascer Francisco Trincão e Pedro Neto, tanto para o futebol como para a vida. Separados por pouco mais de quatro anos, os dois extremos começaram no clube da terra, ainda que a presença de Neto tenha acontecido durante apenas duas temporadas. Na presente temporada, a equipa de Viana do Castelo garantiu o segundo lugar na sua série na fase de apuramento de campeão do Campeonato de Portugal e garantiu o regresso ao terceiro escalão mais de duas décadas depois. É em Ringe que encontramos o último clube que tem dois jogadores na Seleção, no caso Diogo Costa e Vitinha que se conheceram na Vila das Aves e embalaram para uma carreira praticamente lado a lado (que passou pela Casa do Benfica da Póvoa do Lanhoso). Ao contrário do crescimento dos dois internacionais, a AMCH Ringe continua a ser um clube de bairro e, em termos de futebol sénior, atua no Inatel do Porto, apesar de todo o mediatismo que ganhou nos últimos anos.
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Os clubes que já acabaram, os que continuam com camadas jovens e os históricos do futebol português
Prosseguindo em direção à base da pirâmide do futebol português, encontramos, na Liga 3, o Amora, que foi o primeiro clube de Rafael Leão. Nas últimas duas décadas, a equipa do Seixal passou por diversos altos e baixos, a começar pelo regresso à Distrital depois de 40 anos seguidos nos nacionais. A espera acabou em 2017/18, quando o Amora fez história com a melhor prestação de sempre do principal campeonato da Associação de Futebol de Setúbal e subiu ao Campeonato de Portugal, onde vai estar na próxima época, depois de ter sido despromovido do terceiro escalão. Em 2021, a SAD do clube foi adquirida pela Oderima Capital que, há cerca de um ano, vendeu os 75% da sua participação a um grupo brasileiro liderado por Eric Frederik Gualberto. Apesar das mudanças no organigrama, o Amora continua a ser um dos clubes de referência de Setúbal em termos formativos.
Na quarta divisão nacional encontramos Beira-Mar e Sintrense, dois emblemas históricos do futebol português, que ficaram ligados ao lançamento de Samu Costa e Nélson Semedo, respetivamente. No que concerne aos aveirenses, as mudanças também foram drásticas, já que o Beira-Mar passou da Primeira Liga para os distritais em menos de dez anos. Em 2014, a SAD do clube foi obrigada a realizar um processo especial de revitalização (PER) e, depois de falhar várias vezes a inscrição na Segunda Liga e no Campeonato de Portugal no ano seguinte, acabou na última divisão distrital.
Foi aí que o emblema aurinegro trocou o Municipal de Aveiro pelo velhinho Mário Duarte e reaproximou-se dos adeptos, algo que foi determinante para o regresso às divisões profissionais. Mais a sul, em Sintra, localiza-se o centenário Sintrense, que é o clube mais representativo do concelho, apesar de nunca ter passado do terceiro escalão. Em 2024, a Nobias European Studios, em parceria com Nani, adquiriu 95% das ações da SAD do Sintrense, vendendo 75%, em janeiro, à Blue Ocean Group, fundada por um antigo coordenador do RB Leipzig.
É na distrital de Setúbal que encontramos mais um clube histórico e centenário do futebol português, que disputou competições europeias, foi quarto classificado no Campeonato Nacional e esteve perto de alcançar a final da Taça de Portugal. Trata-se do Barreirense, clube que começou a formar João Cancelo e que, a partir da próxima época, está de volta às divisões nacionais. Como em grande parte dos casos, a trajetória descendente do clube do Barreiro deveu-se aos problemas financeiros. Para já, o Barreirense continua a alternar entre o Distrital e o Campeonato de Portugal, estando longe das condições de outros tempos. Na mesma toada está o Olhanense, de Gonçalo Ramos, que continua “afundado” na Primeira Divisão do Algarve, ainda que, na próxima época, tenha garantido o regresso à Taça de Portugal. Em 2009, os leões de Olhão conquistaram a Segunda Liga, mas, em pouco mais de uma década voltaram aos distritais, algo que não acontecia há 76 anos. Manuel Cajuda é o atual presidente do clube, que recuperou das dívidas e procura a constituição de uma nova SAD.
É em Santo António, no Funchal, que se encontra o Andorinha, clube que deu início à caminhada de Cristiano Ronaldo rumo ao topo do futebol. Em maio, o emblema madeirense completou 100 anos de existência, que ficam marcados pelo astro português e pelo ecletismo, já que o Andorinha apenas esteve por uma vez no terceiro e quarto escalões. Ainda assim, no próximo ano, o clube vai competir na Taça de Portugal, algo que não acontece desde 2011/12. De regresso à Grande Lisboa, é no Pragal que compete o Almada AC, clube que não está nos nacionais desde 1964, muito antes de Gonçalo Inácio chegar às suas instalações. Este ano foi penoso para os almadenses, que viram a equipa descer à Segunda Divisão de Setúbal. Já Matheus Nunes começou no Ericeirense, alternando entre o início da vida de futebolista e o trabalho na padaria da família. O clube da Ericeira mantém, presentemente, a aposta nos escalões de formação, ao mesmo tempo que tem a equipa principal na Primeira Divisão de Lisboa.
Igualmente em Lisboa, mas na Segunda Divisão, está o Atlético do Cacém, de Renato Veiga, mais um clube eclético que foi fundado nos anos 40, apesar de não ter expressão no contexto nacional. Na mesma toada está o Infesta, que continua a desenvolver-se nas diversas modalidades, desde o basquetebol à pesca desportiva, incluindo o futebol. Foi na secção do desporto-rei que passou Bruno Fernandes, ainda que durante menos de dois anos. Atualmente, o clube de Matosinhos continua a ter como principal resultado a presença na antiga Segunda Divisão B, estando por esta altura na Segunda Divisão do Porto.
Em Vila Nova de Famalicão encontra-se o Operário FC, que também está na mesma divisão, mas da AF Braga. A equipa pela qual passou Tomás Araújo nunca passou do contexto regional, embora tenha conquistado o terceiro escalão na época passada. Recentemente, o Operário saltou para os destaques dos jornais por conta do roubo de… uma lona publicitária do seu estádio. Em Casal de Cambra, o Despertar viu nascer Nuno Mendes, embora por pouco tempo, já que o lateral chegou rapidamente ao Sporting. A equipa de Sintra segue na Terceira Divisão de Lisboa, sem grande sucesso no patamar sénior.
No que toca a clubes só com camadas jovens, sem equipa principal, há cinco equipas com especial relevância na atual Seleção Nacional, já que foi graças aos seus projetos que quatro jogadores deram os primeiros passos no futebol. A Casa do Benfica de Tavira continua no ativo no que toca ao desenvolvimento dos jovens futebolistas, embora a sua principal figura continue a ser João Neves. Em Braga acontece o mesmo com a Escola de Formação Fintas, por onde passou Diogo Dalot. Em Viseu, João Félix começou na Escola de Futebol “Os Pestinhas”, que foi fundada em 1998 e se localiza em Tondela. Por fim, José Sá arrancou no Palmeiras FC, de Braga, que já esteve na Taça de Portugal, mas entretanto acabou com o futebol sénior. No raio-x futebolístico da Seleção restam dois nomes da baliza que começaram em clubes que já foram extintos: Rui Silva e Ricardo Velho.
No caso do guarda-redes do Sporting, o início até foi no futsal, no Brás-Oleiro, que também já não compete, seguindo depois para o futebol no FC Maia, histórico clube que esteve 11 temporadas na Segunda Liga, a última em 2006, e esteve perto de subir de divisão em 2001. Seguiram-se duas descidas seguidas e a exclusão do quarto escalão por conta dos graves problemas financeiros. Em 2008, o Maia despediu-se do futebol sénior e manteve-se com camadas jovens até 2011, ano em que foi oficialmente extinto e deu lugar ao atual Maia Lidador. Já o 27.º jogador da convocatória começou na Escola de Futebol Fernando Pires, que foi fundada em 1999 em homenagem ao antigo futebolista e treinador que se notabilizou no Sp. Braga.