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"Número dois" de Epstein acusa cabeleireiro das famosas e ex-autarca de Miami Beach de abuso sexual

Sarah Kellen, descrita por vítimas como a "tenente" de Epstein, acusou Frédéric Fekkai e Philip Levine num depoimento ao Congresso. Revelou ainda jantar com o príncipe André em Buckingham.

Sâmia Fiates
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O cabeleireiro de personalidades como Hillary Clinton e Meryl Streep, Frédéric Fekkai, e o ex-autarca de Miami Beach, Philip Levine, foram acusados de abuso sexual por uma alegada vítima de Jeffrey Epstein. As acusações foram feitas por Sarah Kellen, que num acordo entre Epstein e as autoridades norte-americanas em 2007 foi apontada como “potencial co-conspiradora”, e que algumas vítimas afirmavam ser a “número dois” no universo do criminoso sexual. Kellen falou perante a Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes no final de maio, mas a transcrição do seu depoimento só foi tornada pública no início de junho.

Além de alegar durante a entrevista à Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes que foi “abusada sexualmente e psicologicamente” por Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell “numa frequência semanal e às vezes com violência” durante o período em que trabalhou para o milionário, entre o início dos anos 2000 até perto da sua prisão, em 2019, Sarah Kellen disse ter sofrido abusos sexuais de duas personalidades públicas que até então não haviam sido acusadas: o cabeleireiro francês Frédéric Fekkai, e o antigo autarca de Miami Beach, Philip Levine, que esteve à frente da Câmara Municipal entre 2013 e 2017.

O abuso de Frédéric Fekkai terá ocorrido ainda antes de Sarah conhecer Epstein — terá sido o cabeleireiro a apresentar a jovem modelo ao milionário norte-americano. Kellen relata que conheceu o renomado cabeleireiro que já trabalhou com Hillary Clinton, Meryl Streep ou Charlize Theron num quiosque de maquilhagem na loja dos armazéns Neiman Marcus em Honolulu, no Hawai, onde vivia. “Comentei com a maquilhadora que queria ser modelo”, revela Kellen, que diz ter sido indicada pela funcionária. “Apresentou-me e ele disse que faria um desfile em Maui em alguns dias na semana seguinte, e adoraria colocar-me no desfile. Então voei para Maui e, afinal, não havia nenhum desfile”. Terá sido nesta ilha que Kellen terá sido abusada. “Fiquei hospedada no mesmo quarto de hotel que ele. E não tinha dinheiro para ficar noutro hotel ou voltar para casa, e ele tirou vantagem daquilo“.

Sarah Kellen relata que conheceu Epstein através de Fekkai. “Apresentou-nos por telefone”, revela, afirmando que o milionário apresentou-se como um recrutador da marca de lingerie Victoria’s Secret e convidou-a para um casting. “Fui ao quarto de hotel dele, dei-lhe o meu portefólio. Disse-me para me despir. Pensei que era normal, afinal era um casting para a Victoria’s Secret. Fiquei só com a roupa interior e dei uma volta. Ele então disse: ‘Obrigado. Preciso de ir a uma reunião. Pode voltar pelas 16h, se quiser'”.

Já o abuso perpetrado por Philip Levine terá sido durante uma viagem a Saint Tropez, durante o primeiro ou segundo ano a trabalhar para Epstein. “Philip era muito amigo de Ghislaine e veio ficar connosco na mesma casa. Jeffrey e Ghislaine já tinham ido dormir e Philip e eu ainda estávamos acordados. Então, ele aproximou-se de mim e disse: ‘Sabe, deve ser muito solitário para si estar a trabalhar com eles, porque está com eles em todos os momentos e não pode ter a sua própria vida, deve ser mesmo solitário’. E então ele basicamente atirou-se para cima de mim”. Kellen diz que ninguém testemunhou o abuso e que não contou o que se passou a ninguém, mas que acredita que Epstein sabia, pelo menos, sobre o abuso de Frédéric Fekkai.

Nenhum dos dois homens foi anteriormente acusado de um crime sexual em conexão com o caso Epstein, mas o presidente da comissão, James Comer, já pediu que o Departamento de Justiça norte-americano investigue as alegações. Um representante de Fekkai disse à CNN que o cabeleireiro “nunca tirou vantagem” de Sarah Kellen, não a apresentou a Jeffrey Epstein e “nunca abusou de ninguém”. Já o porta-voz de Levine disse, através de um comunicado, que “perto de um quarto de século atrás, o nosso cliente teve um encontro íntimo breve e consensual com outra adulta. Qualquer alegação do contrário não é verdade”.

Jantar no apartamento privado de André em Buckingham

A alegada vítima de Jeffrey Epstein revelou também ter ido a um jantar no apartamento privado de André Mountbatten-Windsor no Palácio de Buckingham, além de confirmar ter ido à festa de aniversário de 18 anos da princesa Beatrice, no Castelo de Windsor. “O príncipe André esteve na casa de Nova Iorque (de Epstein). Também fomos ao apartamento particular de André no Palácio de Buckingham para jantar. E estivemos na festa de 18 anos da princesa Beatrice no Castelo de Windsor”, disse, sem dar mais detalhes do encontro.

Contudo, ao ser questionada se tinha presenciado abusos sexuais cometidos por André, Sarah Kellen disse que não — negou também que tenha visto outras figuras proeminentes como Bill Gates, Elon Musk e Woody Allen, a interagirem de forma sexualmente inapropriada com outras mulheres.

A presença de Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell na festa organizada a 15 de julho de 2006 nos jardins do Castelo de Windsor já era conhecida. O baile de máscaras teve a presença de mais de 400 membros da aristocracia britânica, personalidades políticas e celebridades. Mas horas antes, os então duques de Iorque organizaram um cocktail mais íntimo no Royal Lodge, a residência oficial da família, apenas para os mais chegados — incluindo Epstein e Maxwell.

A Thames Valley Police anunciou recentemente que André está a ser investigado também por casos de má conduta sexual. Além do caso já amplamente conhecido de Virginia Giuffre, que terá sido abusada pelo ex-príncipe no ano 2000 no apartamento de Ghislaine Maxwell em Londres, em causa estão pelo menos outras duas alegações: uma mulher que diz ter sido abusada em Ascott em 2002, e outra que alega ter sido levada a uma moradia em Windsor para “fins sexuais”.

De “tenente” a alegada vítima

Também conhecida por Sarah Kensington, Kellen foi modelo na adolescência e começou a trabalhar como assistente de Epstein aos 20 anos, no início dos anos 2000. Apresentava-se muitas vezes nos emails como designer de interiores e atualmente é proprietária de uma empresa chamada SLK Designs. Nos ficheiros divulgados no início do ano, Sarah aparece a enviar e responder emails acerca de passagens aéreas e pedidos de peças de decoração para as casas de Epstein, além de ser citada em vários registos de voos no jato privado do milionário, incluindo viagens na companhia de Bill Clinton ou do ex-príncipe André.

Sarah é descrita por algumas vítimas como a “tenente”, ou a “número dois”, abaixo apenas da própria Ghislaine Maxwell. No depoimento à comissão, entretanto, nega ter tido tanto poder. “Isso é uma grande distorção. Eu era literalmente uma escrava por contrato. Na verdade, ela até se referia a mim como sua escrava e serva. Eu não tinha nenhum poder ou autoridade. Eu estava lá apenas para servir e me submeter. Somente depois que Jeffrey confirmou que eu me submeteria ao seu abuso sexual é que ele começou a me pagar”, alegando receber 25 mil dólares por ano, cerca de 21 mil euros, para trabalhar “24 horas sete dias por semana, sem parar”.

As alegadas vítimas ouvidas pela polícia na investigação que decorreu entre 2005 e 2007 afirmam que a mulher era responsável por marcar as massagens na casa de Epstein em Palm Beach, e mantinha uma agenda com os números das raparigas, para as quais ligava a verificar as que estavam “disponíveis para encontros” na mansão. Algumas relataram que foram levadas até ao segundo andar, onde ficava a infame sala de massagens de Epstein, por uma mulher chamada Sarah, que ainda arranjava a mesa de massagem e os óleos disponíveis. Num artigo do New York Times, duas alegadas vítimas, Haley Robson e Sarah Ransome, contam como Kellen “ensinava” as jovens a satisfazer Epstein. A assistente é também listada no acordo de 2007 como “potencial co-conspiradora” que ficou livre de acusações criminais.

A mulher confirmou à comissão do Congresso norte-americano ter recebido uma indemnização do espólio do milionário, destinada às alegadas vítimas. Em 2020 Sarah Kellen vivia em Nova Iorque, numa mansão de mais de 4 milhões de dólares. Abordada pelo The Sun na altura, afirmou: “Fui retratada como um monstro, mas não é verdade. Sou uma vítima de Jeffrey Epstein. Fui violada e abusada semanalmente”, disse. Durante a audiência de condenação de Ghislaine Maxwell, em 2022, o juiz Alison Nathan disse que Kellen é “uma participante conhecida de uma conspiração criminal”, e que a mulher é “uma participante criminalmente responsável”. Sarah casou-se com o piloto da NASCAR Brian Vickers em 2015 — os dois divorciaram-se em 2025.

Outra das mulheres que ajudaram a fazer rodar a engrenagem de Epstein foi ouvida na passada terça-feira pela comissão. Lesley Groff, que trabalhou como assistente do milionário por 20 anos e é citada centenas de milhares de vezes nos ficheiros, alegou, entretanto, que não sabia das atividades criminosas do chefe. “Em retrospectiva, o Sr. Epstein foi um mestre da manipulação e do engano, que separava a sua vida legítima da sua vida secreta como abusador e garantia que eu, enquanto a sua secretária, não permitisse que esses dois mundos colidissem.”