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(A) :: Legitimar a guerra e a paz através da figura de Maria: exemplário breve a partir da História de Portugal

Legitimar a guerra e a paz através da figura de Maria: exemplário breve a partir da História de Portugal

A história de Fátima mostrou que o mais importante era apresentar Maria como rainha da paz num mundo em guerra.

Marco Daniel Duarte
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Apropriação nacionalista da figura de Maria 

Entre os múltiplos exemplos acerca das inexoráveis antinomias relativas à forma como as comunidades vivem a religião que professam, encontra-se a forma como, nalguns casos, a Mãe do Deus dos cristãos foi venerada, não raras vezes cultuada a partir de ideologias que, à luz da Teologia, se afastam do que preconiza a mensagem evangélica, situação também observável em diferentes momentos da História de Portugal.

Tomada desde a Idade Média como figura tutelar das comunidades — a ela se dedicando territórios e igrejas, entre as quais, as catedrais —, Maria foi associada a conjunturas históricas que a tornaram especial protetora de um Portugal que se sentiu eleito, lendo-se como predileto e chegando mesmo a cantar, jurando amor perpétuo: «Ó glória da nossa terra que tens salvado mil vezes». Embora já tardiamente se possa documentar, transpira entre os fiéis portugueses que Portugal é Terra de Santa Maria, epíteto não raramente entendido como lugar de privilégio em detrimento de outras geografias políticas, como o mesmo canto, de cronologia oitocentista, afirma: «salve, nobre padroeira do povo teu protegido; entre todos, escolhido para povo do Senhor». Esta loa, que durante as conjunturas históricas do século XIX, mas também do século XX, fora ganhando fulgor também em razão do momento ideológico das diferentes épocas, esbarra na reflexão teológica que não admite à Mãe de Deus ter, em prejuízo de outros, povos escolhidos, a não ser que se tome aquela frase como referente à simbólica do antigo povo de Israel, o eleito do Deus veterotestamentário e embrião do povo pascal que todos os povos virá a convocar.

Com efeito, se a Teologia atual não consentirá essa predileção de Maria por uma parte da humanidade que se lê a partir de uma delimitação geográfica e/ou político-institucional, e menos ainda que a mesma Virgem seja instada a rebelar-se contra o inimigo, a práxis cultual não tem problema em fazê-la especial protetora e defensora dessa comunidade contra o estrangeiro. Embora também outras nações a tenham como especial protetora e estejam ligadas a movimentos históricos de fulgor mariano — na Europa, são exemplo Espanha, França, Itália, Hungria… —, Portugal mostra-se terreno profícuo para demonstrar como Maria foi, à semelhança da Senhora do Rosário da Batalha de Lepanto, bandeira de paz, mas, também, estandarte de guerra.

Santuário de Nossa Senhora do Almurtão: a imagem e os adufes da Beira Baixa.

Da Virgem guerreira à Virgem irenista 

A diferença entre a proposta teológica e a devoção popular não fez desaparecer as contradições que ficaram marcadas na cultura das comunidades e ainda hoje são visíveis em cantares como o que a Senhora do Almortão (Idanha-a-Nova) ouve em cada ano, mesmo que já não se sinta a ofensiva do outro lado da fronteira: «Senhora do Almortão,/ ó minha linda raiana:/ virai costas a Castela,/ não queirais ser castelhana». Com efeito, percebe-se que, desde a fundação da nacionalidade, a figura de Maria se viu associada às vitórias que os portugueses alcançavam diante do inimigo. Assim acontecera na primeira dinastia com a Senhora dos Mártires, em Lisboa ou em Castro Marim, no contexto da chamada reconquista do território ao Infiel; assim sucederia com a Senhora da Vitória nos alvores da dinastia avisina, quando da luta contra os castelhanos; assim acontecera com Nossa Senhora da Escada, de Lisboa, invocada no contexto de Aljubarrota, no contexto da conquista do norte de África e no contexto do chamado domínio filipino como protetora da nacionalidade lusitana.

Se é certo que as fontes que o asseguram são, muitas vezes, posteriores aos acontecimentos e, por isso, rememorialistas (entre outros, Agostinho de Santa Maria é paradigma deste discurso), também é certo que o que nelas se espelha é a visão que os povos têm de que a Mãe do seu Deus lutou pelas suas causas: quer a Senhora da Atalaia (Montijo), quer a Senhora da Piedade (Santarém), esta última antecipando a vitória na Batalha do Ameixial, se encontram associadas à luta pela restauração da independência face a Espanha, no contexto da monarquia dual. O ápice desta identificação encontra-se em Vila Viçosa, como parte de um processo que tem raízes medievais nos movimentos imaculistas e que a Idade Moderna portuguesa — também na esteira do que acontecerá noutros países (ironicamente, também em Espanha) — guindará a honras especiais: Nossa Senhora da Conceição padroeira do reino, de cidades e vilas, da universidade e da academia da nação.

Este tipo de olhar para a figura de Maria chega à época contemporânea, como se observa quando das batalhas da Roliça e do Vimieiro, momento em que os portugueses cantavam «a Maria Santíssima em acção de graças» com a justificação: «por nos ter livrado dos pérfidos e malvados franceses».

Em meados do século, no contexto da guerra civil que dividia a política nacional, asseveram os absolutistas que a Virgem Maria, evocada sob o título de Nossa Senhora da Rocha (Carnaxide), nada queria com os seguidores da ideia liberal. Se este exemplo difere dos anteriores por não opor fações de nacionalidades diferentes, mas antes portugueses que seguiam D. Miguel e portugueses que seguiam D. Pedro, mostra, contudo, como o culto mariano fora instrumentalizado para defesa ideológica.

É ainda nessa centúria que se acentuará este tipo de estratégia, convocando a nação em torno da Senhora do Sameiro (Braga) para que nela se visse o baluarte da defesa do dogma cristão face aos avanços da ideia iluminista que trazia claras consequências à vivência humana. Não deixa, com efeito, de se mostrar a figura de Maria como baluarte defensivo contra a modernidade de pensamento e, ainda mais, como a mulher «que avança como aurora, temível como um exército em ordem de batalha» (expressão bíblica muito usada pelo marianismo da época, que chegou a desenvolver movimentos intitulados de Milícia ou de Legião) contra os novos infiéis defensores do pensamento moderno.

A imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, no santuário.

O século seguinte abriria especial capítulo nesta forma de olhar para a Mãe de Deus.

O rápido desenvolvimento do culto a Nossa Senhora de Fátima, em menos de um século e na complexidade dos fenómenos contemporâneos, passa por diferentes formas de posicionamento neste tema: se o contexto nacional liga as aparições da Cova da Iria à tensa relação entre crentes e não-crentes na tessitura da I República, o fundo internacional da mariofania de 1917 relaciona-a com a questão da paz, estando este ‘topos’ omnipresente nos interrogatórios iniciais. Se o desenvolvimento do fenómeno nos anos iniciais o relaciona com o renascimento do país católico que a República tentara extinguir — ao ponto de, nascendo deste sentimento da década de 1920 e ganhando força em tempo da II Grande Guerra, a jaculatória implorar «Nossa Senhora do Rosário de Fátima, salvai-nos e salvai Portugal!» —, o posicionamento de Fátima fora também mais abrangente, mostrando Maria como bandeira contra os regimes ateus, numa linguagem que servia quer a política nacional do tempo quer o posicionamento intelectual da Igreja acerca dos que levantavam bandeiras contra a ideia da presença de Deus na história humana. Nessa época, em que se constitui o Exército Azul de Nossa Senhora de Fátima, a esplanada do santuário da Cova da Iria era tomada como praça branca, em antítese à praça vermelha de Moscovo.

Contudo, a história de Fátima mostrou que, não obstante essa forma de olhar a mensagem, o mais importante era apresentar Maria como rainha da paz num mundo em guerra, ‘leitmotiv’ que atravessa toda a história de Fátima e é, entre outros aspetos de carácter universalista, a mais clara chave de leitura para a fortuna que Fátima alcançou no mundo. Com efeito, sobretudo a partir do momento em que Fátima se desprende dos fatimólogos de linguagem belicista e acentua a hermenêutica que liga o fenómeno à paz universal, o discurso irenista tornou-se pedra angular sobre o qual assentaram as palavras dos papas quando se referiram ao lugar, dramaturgicamente vivido com as velas da esperança e com os lenços da paz. A própria retórica imagética da escultura ali venerada, coroada de ouro e pedras preciosas e, ao mesmo tempo, de uma bala, é disso que fala: do papel de Maria, entre a guerra e a paz.

[Os artigos da série Portugal 900 Anos são uma colaboração semanal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. As opiniões dos autores representam as suas próprias posições.]