(c) 2023 am|dev

(A) :: O melhor dos fins do mundo possíveis

O melhor dos fins do mundo possíveis

Há um mundo que ainda existe, que ainda se interessa por filosofia, por pintura, pelos cinemas de rua, pela verdade, o que quer que ela seja, por aquilo de que pode ser capaz o engenho humano.

Alexandre Borges
text

A primeira imagem foi a de uma espécie de salvação: fila para ver um filme sobre Leibniz, num dos últimos cinemas de rua de Lisboa, às cinco e meia da tarde dum dia de semana. Talvez ainda nem tudo estivesse perdido afinal – o cinema, a cultura, o país, enfim, a Humanidade, dum modo geral. Sim, sim, de acordo que era a última hipótese para ver “Leibniz – Crónica de uma Pintura Perdida” e sabemos como nos pelamos por uma boa oportunidade de fazer o que quer que seja à última da hora. Mas caramba: para ver um filme alemão sobre um filósofo do século XVII? E as suas reflexões sobre arte? Numa tarde de sol, daquelas em que Lisboa é quase obscenamente bela, quando a cidade branca de Alain Tanner se torna dourada, azul, lilás, ao sabor dos dias que ainda crescem até ao solstício e da flor dos jacarandás que já cai? Com este requinte final para nos fazer amar este torrão onde tivemos a fortuna de nascer: a funcionária da sala vir cá fora anunciar à fila exasperada que estavam a retardar o início da sessão para que o maior número possível de pessoas não perdesse pitada. Confesso-lhe, amigo leitor: nem quando uma velhinha na coxia se arreliou comigo, um nazi do bom comportamento nas salas de cinema, por entrar na sala com a projecção já em andamento, se me arrefeceu o sorriso: aqui tens, velho Gottfried, o melhor dos mundos possíveis.

Gottfried Leibniz foi um dos maiores génios que a Humanidade conheceu, ofuscado depois pelo sucesso das ideias de Newton e pelo estrondoso impacto político dos dois porta-estandartes finais do idealismo alemão, Kant e Hegel. Vindo do crepúsculo daquela época em que ainda era possível ser um génio da matemática e da filosofia ao mesmo tempo, em vez de refugiado do terror de uma na outra, inventou o cálculo infinitesimal, o sistema binário ou a primeira calculadora realmente capaz de multiplicar e dividir, entre muitos outros engenhos e teorias; mas foi, acima de tudo, o nome maior de uma fugaz corrente filosófica conhecida como “optimismo metafísico”. Numa espécie de resumo Europa-América para a era dos 140 caracteres ou menos, defendia a tese de este, em que vivemos, ser o melhor dos mundos imagináveis. Mesmo com toda a dor e sofrimento. Porque era o único capaz de equilibrar as liberdades de todos, até a liberdade de escolher, a cada momento, fazer o bem ou o mal. Um mundo em que toda a parte reflectia o todo. E em que só a imagem geral seria capaz de nos fazer compreender que cada acontecimento individual concorre para o bem maior, a harmonia universal. Que seria se nunca morrêssemos, nunca chovesse, nunca anoitecesse, nunca nos esquecêssemos, nunca perdêssemos, nunca sentíssemos fome, frio, falta, desejo? Quão desprovida de sentido a vida? Quão aborrecido Deus?

O filme do veteraníssimo Edgar Reitz (93 anos, senhores) coloca o mestre de Leipzig na situação de ser retratado por uma pintora ficcional, Aaltje Van De Meer, a pedido da jovem rainha da Prússia, Sofia Carlota, antiga pupila e admiradora do filósofo. O que se segue é um conjunto de diálogos extraordinários, entre pensador e artista (e o pontual contributo do prestável assistente Cantor), sob luzes e texturas de pintura flamenga, acerca da arte, do génio e, acima de tudo, da verdade. Como percebê-la? E como capturá-la? Será uma cópia perfeita da verdade ainda algo mais do que mera cópia? Como encapsular vida, alma, génio, todas as ideias tidas e por ter, numa só aparição de si, pelos olhos de outro?

Só no final, quando as luzes da sala se acenderam e o público se encaminhou lentamente para a saída, de regresso a Lisboa, a 2026 e aos jacarandás, se aperceberia este vosso da média etária da plateia naquela sessão memorável: uns jovens para Edgar Reitz, uns admiráveis septuagenários à desinteressante luz do registo civil. E foi então (venham lá as acusações de “idadismo” ou lá que é um desses crimes lesa-majestade pós-pós-modernos), que se furou a efémera mónada da nossa esperança inicial: há um mundo que ainda existe, que ainda se interessa por filosofia, por pintura, pelos cinemas de rua, pela verdade, o que quer que ela seja, por aquilo de que pode ser capaz o engenho humano, que corre para a fila de um cinema às cinco e meia da tarde dum dia de semana. Mas quanto tempo durará?

Se a inteligência artificial nos pinta o retrato em instantes e até faz todos os cálculos e descobertas por nós; se não importa a verdade, mas apenas ganhar; se são alguns dos pais dessa inteligência artificial os próprios a dizer que poderá provocar a extinção da humanidade em 50 anos, que é uma sala de cinema de rua mais do que um velho templo a uma fé antiga e nós ali, naquela sala, mais do que os últimos fiéis de uma igreja dos dias do fim?

Ao menos, ainda há Junho e jacarandás. E Leibniz, que também foi jardineiro e ele mesmo considerado um dos precursores da inteligência artificial, com os seus conceitos da characteristica universalis e do calculus ratiocinator e a sua busca por uma linguagem simbólica universal que permitisse resolver disputas filosóficas por meros meios mecânicos, se aqui estivesse, talvez nos pusesse o braço por cima e dissesse: calma, faz tudo parte do plano. E iríamos, rua afora, a falar do terramoto de Lisboa, do chato do Voltaire e de como isto ficou ainda mais bonito depois da reconstrução.