The Duke of Parma (“O Duque de Parma”), a peça em inglês de Fernando Pessoa que permaneceu inédita até fevereiro deste ano, vai ser levada à cena, pela primeira vez, em 2027, na cidade italiana que lhe deu o nome. A iniciativa, financiada pela Câmara Municipal de Parma através da universidade local, integrará a programação da Capital Europeia da Juventude, título que, no próximo ano, recairá sobre Parma. Estão previstas duas sessões, nos dias 12 e 13 de fevereiro, no Teatro Lenz, e um debate aberto ao público, após a última data.
A adaptação dramática, proposta por Enrico Martines e Carlotta Defenu, da Universidade de Parma, para integrar a programação da Capital Europeia da Juventude 2027, terá por base as transcrições feitas pelos investigadores do projeto The Duke of Parma, que possibilitou a publicação integral da tragédia pessoana pela primeira vez, num arquivo digital. Seguirá as instruções dramatúrgicas deixadas pelo poeta e manter-se-á fiel ao original pessoano, incorporando, ao mesmo tempo, os contributos, críticos e criativos, de especialistas na obra do escritor português, em literatura portuguesa e em dramaturgia, de maneira a produzir um texto coerente e encenável. Será encenada no original em inglês com legendas em italiano.
A comunidade jovem local será convidada a envolver-se ativamente no projeto enquanto público, mas também enquanto protagonista, através da participação de artistas e profissionais emergentes nas diferentes fases de adaptação da obra. Os jovens (e não só) terão também oportunidade de participar no debate que decorrerá após a sessão de 13 de fevereiro, em que se abordará a conceção cénica e os temas principais da peça, como a loucura ou a sexualidade.
The Duke of Parma é uma tragédia fragmentária em inglês de inspiração shakespeariana, que integra o corpus menos conhecido do teatro em língua inglesa de Fernando Pessoa. Trata-se do projeto literário a que o poeta dedicou o mais longo período de tempo, desde cerca de 1908 até 1935, o ano da sua morte, e da peça de teatro de Pessoa que sobrevive no maior número de documentos. Apesar disso, a peça permaneceu inédita durante seis décadas, desde a sua descoberta pelo crítico alemão Georg Rudolf Lind, nos anos 60, até à sua recente publicação.
O projeto de transcrição e publicação dos mais de 170 documentos que compõem a tragédia foi desenvolvido ao longo de dois anos por uma equipa internacional e multidisciplinar de especialistas em três países diferentes, coordenada a partir de Itália por Enrico Martines, professor de literatura portuguesa e brasileira na Universidade de Parma, e culminou com o lançamento do arquivo digital a 23 de fevereiro deste ano, durante uma conferência internacional que foi acompanhada de perto pelo Observador, que viajou até Itália a convite da organização.
A encenação da tragédia The Duke of Parma no âmbito da programação da Capital Europeia da Juventude, uma iniciativa anual do Fórum Europeu da Juventude que visa impulsionar a participação dos jovens na criação de uma Europa melhor e mais inclusiva, constitui mais um contributo para a divulgação de um texto literário que é pouco conhecido, mas que os investigadores acreditam ocupar um lugar de grande importância no contexto da obra pessoana.
Novo número da revista Pessoa Plural é dedicado a The Duke of Parma
O novo número da Pessoa Plural, a revista de Estudos Pessoanos publicada pela Brown University, nos Estados Unidos da América, é, em parte, dedicado à tragédia The Duke of Parma. A edição, que ficará disponível no repositório da universidade norte-americana no final desta semana, inclui um número especial com todas as comunicações feitas durante a conferência organizada pela Universidade de Parma, a 23 e 24 de fevereiro. Estas abordam diferentes questões relacionadas com a peça, como a influência de Shakespeare e a presença de temas como sexualidade e misoginia, e com o processo de transcrição e de criação do arquivo digital. O número inclui artigos de Enrico Martines, coordenador do projeto The Duke of Parma e editor convidado deste número da Pessoa Plural, de Jerónimo Pizarro e Nicolás Barbosa, de Carlos A. Pittella, de João Dionísio e Maria João Sousa, de Elena Lombardo e de Carlotta Defenu, entre outros.
A segunda parte do n.º 29 da revista criada em 2012 explora a importância do mito na arquitetura intelectual pessoana e a posterior transformação de Pessoa num mito cultural global. “Reunindo perspetivas literárias, filosóficas, intermediais e intelectuais, o dossier evidencia a vitalidade contínua dos estudos pessoanos e a relevância duradoura do mito para pensar a modernidade, a identidade e a criação artística”, refere o ensaio introdutório, da autoria de Rui Sousa, Mafalda Sofia Borges Soares e Filipe Senos, editores convidados. “Considerados em conjunto, estes contributos revelam, não apenas a vitalidade dos estudos pessoanos, mas também a pertinência de abordar a obra do autor de Mensagem a partir da categoria de mito.” Os artigos são da autoria de Valeria Tocco, de Ana Maria de Albuquerque Binet, de Ana Clara Magalhães de Medeiros e Daiane Rodrigues da Silva, de Rui Alberto Costa e de Ana Isabel Soares, entre outros.
O mais recente número da revista agrega ainda outros ensaios sobre diferentes aspetos da obra pessoana e inclui as habituais secções de documentos e de crítica, esta última dedicada à análise de alguns livros recentemente publicados sobre o poeta português, com destaque para Os Livros Ocultos de Fernando Pessoa, de Rita Catania Marrone, e para a nova edição de Cartas Astrológicas, de Paulo Cardoso com colaboração de Jerónimo Pizarro, originalmente publicadas em 2011.
“Os trabalhos aqui reunidos confirmam que o universo pessoano continua a oferecer um campo fértil e sedutor para a investigação, abrindo, em boa hora, e não obstante os estudos e olhares críticos que já sobre ele impenderam, novas vias para a compreensão de um dos projetos mais ambiciosos da modernidade literária”, afirmaram Rui Sousa, Mafalda Sofia Borges Soares e Filipe Senos sobre a secção dedicada ao mito. Uma frase que se pode aplicar aos dois dossiers especiais, que oferecem novas perspetivas sobre aspetos distintos da obra pessoana sobre os quais há, ainda, muito a dizer.