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Cerca de 200 pessoas manifestaram-se no Porto contra crimes de ódio em Portugal

Cerca de 200 pessoas manifestaram-se no Porto em memória das vítimas em Portugal dos "crimes de ódio". O destaque foi para Alcindo Monteiro, assassinado há 31 anos.

Agência Lusa
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Cerca de 200 pessoas, segundo a organização, manifestaram-se esta quarta-feira no Porto, em memória das vítimas em Portugal dos “crimes de ódio”, no primeiro protesto sobre o tema organizado na cidade no Dia de Portugal.

Organizado pela associação Vida Justa e pelo SOS Racismo a concentração ocorreu na Praça Marquês de Pombal, seguindo depois até ao Campo 24 de agosto, local onde “há dois anos dois imigrantes argelinos foram brutalmente espancados por um grupo neonazi”, disse Aline Rossi, da Vida Justa.

“Esta data tem a ver com o resgatar da memória de Alcindo Monteiro, que foi assassinado há 31 anos, em Lisboa. Desde então temos visto um crescendo desses crimes de ódio e o endurecimento das leis [para os imigrantes] também a nível do Parlamento Europeu e da Assembleia da República em Portugal”, acrescentou.

Segundo Aline Rossi, tratam-se de decisões que “têm consequências reais na violência diária, contribuindo para o crescimento dos crimes de ódio”, razão pela qual decidiram ir para as ruas na data de 10 de junho, para “disputarem esse discurso e marcar a memória de Alcindo Monteiro e de todas as outras vítimas”.

Joana Santos, por seu lado, justificou a opção por esta quarta-feira, argumentando que “o Dia de Portugal é um dia de todos e que não deve ser apropriado por uma ideia de identidade portuguesa que cheira a colonialismo, que cheira ao tempo da ‘outra senhora'”, numa alusão à ditadura do Estado Novo.

Preocupada com a “legitimação de um discurso violento e de ódio contra as pessoas migrantes e racializadas”, a responsável do SOS Racismo diz haver “uma dupla força, no Parlamento e em grupos internacionais, de caráter informal, mais ou menos encapotado, que tem vindo a tomar espaço nas redes sociais e em determinadas esferas”. “Felizmente, também existe um movimento social antirracista crescente e grupos de pessoas migrantes, de minorias éticas, nomeadamente da comunidade cigana, que cada vez mais têm vindo a tomar espaço público e voz nesta luta”, referiu.

Aline Rossi explicou depois a importância de “mobilizar migrantes e pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade, de precariedade muito grande”, enfatizando essa dificuldade por serem pessoas que “no feriado estão a trabalhar nos centros comerciais, na agricultura, nos Ubers, nos transportes de modo geral”. “Por isso, quando se consegue aumentar o número de pessoas que se mobilizam em torno de uma causa, isso significa que se consegue disputar a consciência, o discurso, que se consegue ocupar o espaço e transmitir a mensagem, quer para grupos paramilitares, neonazis, grupos de extrema-direita informais na rua, quer no parlamento, quer para aqueles que tomam as decisões políticas, que nós temos o apoio da população”, continuou.

Questionada sobre o aumento dos crimes de ódio em Portugal na última década e o que possa ter falhado, Joana Santos respondeu que o fenómeno esteve “escondido em Portugal e em muitos dos países com a história colonial”, defendendo que isso ajuda a perceber a chegada “com muita força a Portugal dos grupos de extrema-direita”.

“Eles estavam aí, no fundo, e isto também revela uma camada de ressabiamento quanto a uma perda de um imaginário do Império Português”, continuou a responsável, admitindo que, até então, “havia um bocadinho mais de vergonha” na verbalização de ideias e comportamentos racistas.