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(A) :: O que se faz na Feira do Livro de Lisboa? Sobe-se e desce-se. Primeiro de um lado, depois do outro

O que se faz na Feira do Livro de Lisboa? Sobe-se e desce-se. Primeiro de um lado, depois do outro

Como se vai ao Louvre para ir ao Louvre e a Nova Iorque para se ir a Nova Iorque, o evento conquistou essa aura que faz com que se visite a feira, mesmo que tenhamos saído de um longo coma na véspera.

Patrícia Le Mans
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A Feira é un événement extrêmement populaire num país onde se diz haver cada vez menos leitores. Essa popularidade não será de admirar porque nos últimos anos a Feira do Livro conseguiu tornar-se num acontecimento anual muito mais importante do que o seu objeto específico. Não vou tão longe e afirmar que os livros são o que menos interessa, mas observado o “para cima e para baixo” de milhares de pessoas, não deixo de me interrogar que há na Feira uma determinada atmosfera que sentimos dever respirar, ainda que não tenhamos o menor interesse no mais recente thriller da autora de A Criada ou na nova novela de José Eduardo Agualusa. Como se vai ao Louvre para ir ao Louvre e se vai a Nova Iorque para se ir a Nova Iorque, a Feira do Livro conquistou essa aura que faz com que se visite a Feira, mesmo que tenhamos saído de um longo período de coma na véspera da abertura.

É engraçado que numa capital com tão poucas livrarias como deve ser, a Feira do Livro seja um sucesso. Não sei dizer com precisão os motivos, mas é deveras engraçado. É como se nestas semanas, o mosquito da literatura, ensaio e poesia, picasse os portugueses lisboetas. Também pode ser de tudo o que está lá para além dos livros, mas isso seria cinismo a mais e não estamos aqui para isso.

Pela minha parte, a Feira do Livro emociona-me porque é um dos poucos eventos na cidade que continua a ser pensado para portugueses. Creio que nem os próprios organizadores deram por isso. É por causa de la langue, naturalmente, mas é montada, organizada e promovida para os portugueses. E fazem-no sem recorrer ao Galo de Barcelos e ao Ronaldo. A zanga surda entre os editores, autores e intelectuais com os seus lecteurs, acusados de serem preguiçosos e desinteressados no resto do ano, vive uma trégua nos dias da Feira. Nestas semanas, todos são amigos.

Talvez seja esta dimensão emocional que faz com que os meus amigos adorem a Feira. Estão sempre a perguntar quando vamos, como se temessem perder a dose anual. Durante muito tempo, nunca percebia ao certo o motivo, já que muitos dos livros que compram existem à venda em qualquer loja normal, até perceber que o segredo está nesta nacionalização e pacificação. Ali, no Parque Eduardo VII, os portugueses de todos os tamanhos e feitios têm a sua sessão periódica de recolhimento uns com os outros, sem expats, sem motinhas de Uber Eats, sem turistas e sem refilar uns com os outros.

Sei que não é inteiramente verdade que seja só de portugueses para portugueses, até porque existem autores de outros países que comparecem para sessões de autógrafos, mas é inequívoco que a Feira tal como está é uma chose portugaise.

Durante uns anos, achava este amor à Feira um comportamento bizarro, mas deixei-me de coisas quando percebi que os meus amigos nem sequer percebiam onde eu queria chegar, quanto mais estarem dispostos a falar sobre isso. É uma hipnose coletiva, adormecida pendant toute l’année, que desperta assim que notam que os pavilhões estão a ser montados. Quando hesitava em ir, refilando que havia calor, que a distância entre pavilhões é pouca, que as multidões que andam por ali muito devagar, tornando difícil que se caminhe e que é complicadíssimo pagar em certos stands, nem por um minuto senti que estava a passar uma ideia que merecesse ser discutida seja a quem for. Porque Feira que é Feira, é para ir e é para ser sempre no desconfortável Parque Eduardo VII, um local sem WC, sem locais cómodos e confortáveis e sem pensamento para ser usado pelas pessoas.

Este ano, e como sempre, a Feira anuncia-se como estando diferente, espetacular, incrível, mas nas duas visitas que lá fiz, achei que estava mais ou menos na mesma. Outra vez muito tempo para pagar, outra vez calor e mais calor, essas histórias. Como em todos os anos, muitos insistem em levar carrinhos com crianças, como se acreditassem que os livros nos pavilhões haverão de emanar um perfume que transformará um dia as crianças em leitoras. Também como sempre, vi a ocasional celebridade e vi jovens vestidos para dar nas vistas, normalmente aos pares. Quase toda a gente tinha algum tipo de sacos de lona ou pano a tiracolo, sempre com une phrase spirituelle et intelligente. Havia mesas e cadeiras em cima de palcos, com autores à espera de quem queira autógrafo. Vi palcos com apresentação de livros e inúmeros sítios criativos que vendiam gelados, comidas e bebidas.

É assim que se pretende que a prossiga. Prova disso é os lisboetas serem tão sensíveis em relação à sua Feira do Livro. Se me atrevo a dizer que não me pareceu haver muita gente, logo me dizem que no dia anterior, as enchentes eram imensas. Se digo que é cansativo furar a multidão, refilam e dizem que ano anterior foi muito pior. E se partilho que não encontrei o que procurava, é de imediato que me perguntam se por acaso fui àquele pavilhão, ao lado do outro, atrás daquele, perto da passagem. Reconheço logo que não, que não cheguei a passar por lá…

Nas conversas sobre a Feira, só não se fala muito de livros, literatura, ensaio, poesia, cultura, naquele sentido de ser qualquer coisa que nos pode melhorar a vida. Não se discutem coisas ditas nos lançamentos e palestras, porque nas visitas que fazemos, limitamo-nos a subir e a descer, andando por ali, sendo aspergidos pelo ar sagrado dos livros e pronto, já está.

Em 2026, são 96 anos de feira, bem mais de trezentos pavilhões, centenas de eventos, milhares e milhares de exemplares, funcionários felizes da vida, com roupa colorida, quase todos disponíveis para ajudar, numa simpatia que deve ser inerente à circunstância de ser estar na tal trégua anual.

Este ano vi sistemas de nebulização, deram-me um “abanador” do Toy e notei que há um carro oficial da Feira do Livro. Existem demonstração de soluções auditivas. Há um pavilhão bengaleiro onde se podem enviar os livros que comprámos para nossa casa. Existe um espaço de Saúde, que apresenta o Hug Lusíadas Home Care (não entendi bem o que era, mas recebi um abraço de um jovem perto do stand da editora da Presença). Também há rastreios visuais, cinema ao ar livre, carrinhos de bebé para requisitar (só há dois), um espaço para grávidas. Onde é que isto tudo encaixa com os livros? Não sei, mas não faz mal.

Tenho dito muitas vezes a quem me quer ouvir, que um dos problemas maiores em Portugal é o excesso de ideias. A Feira do Livro tem o mesmo defeito de outros eventos coletivos em Portugal cem por cento positivos, como correr na ponte e andar de bicicleta na Marginal: só se pode elogiar e como só se pode elogiar, os organizadores exageram e vão metendo mais temperos. Não tarda, a Feira vai fazer 100 anos. Só posso imaginar que nesse dia será maior que a Expo’98.

A Feira do Livro de Lisboa dura até domingo, dia 14 de junho. A entrada é gratuita e fecha pelas dez da noite.

Patrícia Le Mans estudou Filosofia e Moda. Gosta de queijo, champagne e de amêijoas à Bulhão Pato. Tem mãe portuguesa, pai francês, vai flutuando entre Lisbonne e Paris e escrevendo para o Experimentador Implacável.