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(A) :: Formou-se como advogado, tornou-se juiz no futebol. João Pinheiro, o "Ferrari da arbitragem" que também representa Portugal no Mundial

Formou-se como advogado, tornou-se juiz no futebol. João Pinheiro, o "Ferrari da arbitragem" que também representa Portugal no Mundial

João Pinheiro, o nono árbitro português num Mundial, quer "apitar bem o primeiro jogo para ter direito ao segundo" e "apitar bem o segundo para ter direito ao terceiro e assim sucessivamente".

Manuel Conceição Carvalho
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Advogado de formação, juiz de partida por vocação. João Pinheiro nasceu a 4 de janeiro de 1988 em Vila Nova de Famalicão e construiu, em simultâneo, duas carreiras que raramente andam de mãos dadas. É formado em Direito, mas foi dentro das quatro linhas que o seu nome ganhou projeção – primeiro em Portugal, depois na Europa, agora no Mundo. O apito passou de uma conveniência para a grande vocação.

A história começou antes de qualquer apito. Aos “12 ou 13 anos”, Pinheiro tentou a sorte no futebol, no Famalicão. A experiência foi breve. “No meu primeiro treino que fiz, marcámos três golos e eu fiz os três, ganhámos 3-2. O treinador chegou à minha beira e disse-me: ‘Vais dar um bom central’ e eu suspeitei daquilo. Passado dois meses fui para a bancada, para o banco… foi uma trajetória muito rápida”, recordou à Antena 1. O basquetebol chegou a seguir, mas o futebol nunca saiu da cabeça.

A arbitragem entrou pela porta mais improvável. “Uns dias depois há um cartaz que apareceu num café a dizer: ‘Inscreve-te no curso de árbitros’. Lembro-me perfeitamente desse dia como se fosse hoje, lembro-me do café e lembro-me do meu pai, olhámos para o cartaz. A principal coisa é que eu ia ver muito futebol e na altura a arbitragem dava um cartãozinho que permitia acesso gratuito a todos os campos na região de Braga para assistir e aquilo até me aliciou um bocado. Foi o cartão que me impulsionou a tirar o curso”, revelou. Com 14 anos – a idade mínima permitida – começou o curso. Aos 15, dirigiu o primeiro jogo. Na altura, já arbitrava seniores como assistente, em campos cheios, ao lado de um colega mais experiente da Associação de Futebol de Braga.

Naqueles primeiros anos, havia um espectador fiel nas bancadas – mas discreto. “O meu pai esteve sempre comigo, via os meus jogos todos. O segredo era deixá-lo a dois quilómetros do campo, ele ia a pé e entrava no campo como se fosse um adepto normal, normalmente da equipa visitante, para pensarem que era um adepto de fora. Ele estava lá a ver o jogo, assistia ao filho a ser insultado e aguentou-se sempre”, recordou. A arbitragem ainda não era uma vocação mas sim um passatempo com entrada gratuita. “Sinceramente, o objetivo era mais ser advogado, os estudos estiveram sempre primeiro. Estive quatro anos na antiga Terceira Divisão Nacional e não levava as coisas com a mesma seriedade que passei a levar a partir daí. Só por volta dos 22 ou 23 anos é que houve um clique de que se calhar era possível chegar à primeira divisão ou ser internacional”, admitiu.

O clique aconteceu. A carreira na arbitragem chegou à Primeira Liga a 20 de setembro de 2015, num jogo entre Académica e Boavista. Um ano depois, em 2016, foi incluído na lista de árbitros da FIFA – porta de entrada para o futebol internacional. A partir daí, o percurso foi sendo construído jogo a jogo: partidas internacionais de seleções, ligas estrangeiras como a da Arábia Saudita, finais nacionais de prestígio. Em 2025, chegou ao grupo de Elite da UEFA, o patamar mais alto da arbitragem europeia – e um reconhecimento reservado aos árbitros com melhor avaliação técnica e maior regularidade nas provas continentais.

Antes de chegar ao Mundial, o nome de João Pinheiro já tinha sido associado a alguns dos jogos mais importantes do calendário europeu. Na época 2024/25, esteve na equipa de arbitragem da final da Liga dos Campeões, onde o PSG goleou o Inter por 5-0, na condição de quarto árbitro. Pouco tempo depois, foi o árbitro principal da Supertaça Europeia de 2025, em Udine, onde o PSG voltou a bater o Tottenham, desta vez nas grandes penalidades. Eram os maiores palcos do futebol de clubes – e Pinheiro estava lá.

O que o distingue em campo não é apenas a qualidade técnica das decisões – é a forma como as comunica. Ao contrário de muitos árbitros, fala com os jogadores, explica o que decidiu e porquê, e faz isso sem sobranceria. Pedro Henriques, antigo árbitro internacional português, sublinha precisamente esse traço. “O João Pinheiro sempre foi um árbitro que falava com os jogadores, que explicava, que dialogava, e isso é muito apreciado, sobretudo nos jogos internacionais”, sublinha. A postura calma e não confrontacional traduz-se também na forma como gere os momentos de tensão – em vez de escalar conflitos, opta pelo diálogo e pela proximidade. A estatura física acrescenta uma camada de autoridade natural que, goste-se ou não, conta no futebol de alto nível, refere Pedro Henriques.

Houve jogos difíceis – como o do PSG frente ao Bayern – que geraram críticas e ruído mediático. Pedro Henriques relativiza: as decisões importantes foram corretas e a UEFA avalia pelos relatórios técnicos, não pelo barulho. “Há um lance em que não é penálti, ponto final. Quem acha que é penálti é porque não conhece as leis do jogo”, aponta de forma taxativa.

A 9 de abril de 2026, a FIFA confirmou oficialmente que João Pinheiro, agora com 38 anos, integra o grupo dos 52 árbitros escolhidos para o Mundial de 2026, nos Estados Unidos, Canadá e México, entre 11 de junho e 19 de julho. Será acompanhado pelos assistentes Bruno Jesus e Luciano Maia – os mesmos que estiveram ao seu lado na Supertaça Europeia. Para Portugal, representa o regresso de um árbitro principal a uma fase final de um Campeonato do Mundo 12 anos depois. O último tinha sido Pedro Proença, no Brasil, em 2014. Hoje presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Proença escreveu nas redes sociais que “também na arbitragem Vai dar Portugal“, depois de tomar conhecimento da nomeação. João Pinheiro é o nono árbitro português nomeado para a fase final de um Mundial na história. Só por estar no torneio, garante um prémio de 100 mil dólares – cerca de 87 mil euros –, de acordo com o The Times.

A reação foi imediata e sem rodeios. “É o momento mais alto da minha carreira, não existe outra forma de o dizer. Estar presente num Mundial é o sonho de qualquer jogador, treinador, dirigente e o árbitro não foge à regra”, disse em declarações ao Canal 11.

A preparação é parte central do seu método. Antes de cada jogo, estuda os nomes dos jogadores e a forma como as equipas jogam – e não entra em campo sem cumprimentar cada um pelo nome. As bolas paradas são outra das suas obsessões. “A FIFA esteve uma manhã connosco só a ver bolas paradas. Um árbitro de elite tem de ir para o jogo com um conhecimento tático das equipas que não pode ser só o básico“, explicou. No Mundial, o desafio será ainda maior: novas regras apresentadas num curso em Itália foram aprofundadas numa preparação de dez dias em Miami, entre 31 de maio e 11 de junho. “Tivemos o curso na semana passada, em Itália, mas tendo em conta que as competições nacionais ainda não terminaram, a FIFA decidiu deixar a preparação mais a sério para Miami. Efetivamente são algumas alterações e vão exigir algum trabalho. Demos um toquezinho nelas, mas vamos fazer um trabalho maior na preparação do Mundial entre 31 de maio e 11 de junho”, revelou.

Pinheiro sabe bem como funcionam estas competições. Já esteve em dois Mundiais de formação – Sub-17 e Sub-20 – e em ambos chegou às meias-finais. A lógica é simples e implacável: “Pode chegar lá o melhor árbitro do Mundo, se cometer um erro grave no primeiro jogo não apita mais“. A filosofia que leva para os Estados Unidos é a mesma que o levou longe nas provas de jovens: “Apitar bem o primeiro para ter direito ao segundo, apitar bem o segundo para ter direito ao terceiro e assim sucessivamente até vir embora”.

Há, no entanto, um paradoxo curioso na sua participação no torneio. Quanto mais longe Portugal for na competição, menos jogos Pinheiro poderá fazer – um árbitro não pode dirigir partidas em que o seu país está envolvido. Uma eventual final nacional seria uma noite de bancada para o árbitro português. Ainda assim, não hesita. “Não me importo que a Seleção seja campeã! Estou com a Seleção a todo o custo, se formos campeões não há problema nenhum”, garantiu.

As expectativas são realistas. Pedro Henriques não antevê jogos decisivos nesta edição, mas considera que três ou quatro partidas já representam um resultado muito positivo para um árbitro que chega ao seu primeiro Mundial sénior. O mais relevante, sublinha, é o que esta presença significa a longo prazo. “Se o Mundial correr de forma normal, o João Pinheiro fica lançado para seis a oito anos ao mais alto nível, com jogos grandes e finais internacionais”, adianta o ex-árbitro, que, durante a época, apelidou Pinheiro de “Ferrari da arbitragem em Portugal”.

O percurso de João Pinheiro até ao Mundial é também o retrato de uma arbitragem portuguesa que foi crescendo em silêncio nos últimos anos: dos escalões domésticos às listas internacionais, das ligas estrangeiras às finais europeias, do Euro 2020 – onde esteve como VAR – ao apito num Campeonato do Mundo. Em 2026, Vila Nova de Famalicão tem um representante no maior palco do futebol mundial, que é advogado de formação e árbitro por vocação.