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Credencialistas e merdificação do ensino superior

As universidades que possibilitam que os credencialistas vinguem e que coloca os professores como meros prestadores de serviços a tais ignorantes, prejudica todos e está a fornecer à sociedade falsos

Paulo Castro Seixas
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No ensino superior, entre professores e alunos temos, muitas vezes, as quatro gerações na mesma sala de aula: Baby Boomers (nascidos até 64); Geração X (1965-80); Geração Y (1981-96) e Geração Z (nascidos a partir de 1997).

Este quadro já implica relações de valores com o trabalho e a educação profundamente diferentes. Ora a gestão de tais diferenças é impossível num sistema que ainda segue o ensino de massas e o mesmo tipo de avaliação para todos, apesar das suas diferenças.

Se temos (e temos) estudantes com fortes motivações académicas e outros com fortes motivações profissionais, temos também, cada vez mais, em sala de aula, presentes-ausentes ou mesmo ausentes-presentes: aqueles que de facto só aparecem em situação de avaliação. Ora estes credencialistas (cujo único objectivo é obter a credencial) são cada vez em maior número, influenciando de forma clara todo o processo de ensino-aprendizagem e as próprias instituições.

Os credencialistas são de vários tipos. Há os nem-nem (não querem aprender nem serem ensinados); os clientes (para quem a universidade é um lugar de consumo de diplomas); os oportunistas (que (ab)usam dos elementos a seu favor, pessoais ou institucionais – seja a cor da pele, o género, a deficiência, o associativismo, o regulamento, etc.) ou os cretinos digitais (seja no telemóvel a jogar, ligando o computador na sala para ver futebol ou, agora, delegando o cérebro no ChatGPT). No entanto, todos eles, apesar das diferenças, têm como valor comum e acima de todos os demais, a performatividade: obter o diploma, a credencial.

O diploma é um direito que consideram ter à partida, tomando a universidade como um espaço de consumo (como um ginásio, um supermercado ou uma loja de materiais de construção…ou até uma espécie de restaurante ou bar) e os professores como meros prestadores de serviços.

O problema é que estes credencialistas, apesar de frequentarem pouco a sala de aula e até a universidade, estão cada vez mais a ditar as regras das mesmas.

Caso algum prestador de serviços ou empregado (que antes se chamava professor) crie dificuldades, obviamente é entendido como um obstáculo administrativo e há que fazer queixa ao gerente. Se fala um pouco mais alto (coitadinhos dos meninos!); se insiste em determinados actos (não usar telemóvel; não entrar e sair quando lhe apetece; estar atento; ler os textos; etc.); se não responde a um email no tempo que para os clientes é o indicado… já está em falta, e é culpado da ansiedade que têm.

Em relação ao ensino-aprendizagem, se o prestador de serviços aborda questões actuais, que são referidas na televisão ou em redes sociais, aplicando assim os conteúdos ao tempo presente, pode-se sempre acusá-lo de fazer conversa de café em vez de dar aulas; se o prestador de serviços se centra em teorias e hipóteses e suas aplicações, pode-se sempre acusá-lo de ser demasiado exigente.

Em última análise, tudo pode ser entendido como falha do prestador de serviço, tudo pode servir para se queixarem e, se possível, solicitar a quem manda, uma substituição.

É claro que a acusação depende…da avaliação que o prestador de serviços der ao cliente. A situação aqui complicou-se nos últimos anos pois de facto é o cliente cada vez mais que avalia o prestador de serviços: avalia a sua capacidade científica; a sua capacidade pedagógica; a qualidade e quantidade dos elementos de estudo fornecidos; a disponibilidade para os clientes… Enfim, o cliente mesmo que não tenha ido a nenhuma aula tem todo o direito de avaliar a prestação do empregado.

As próprias regras de avaliação têm no presente nos clientes os seus maiores experts. Os clientes são os experts em didácticas e pedagogia. Se não lhes agradar as metodologias de ensino e de avaliação têm todo o direito a reclamar e o empregado, prestador de serviços, tem o dever de mudar tais metodologias … até agradar ao cliente. Assim, neste sistema, a pergunta efectivamente é em que lugar fica a avaliação que o ex-docente faz em relação ao ex-aluno?

De facto e na prática, em muitos casos, quando estes empregados ousam dar uma avaliação negativa a um cliente, colocam a sua satisfação em causa e, portanto, a interpretação é óbvia: a falha não é do desempenho do cliente, claro! Pois se ele/a é cliente! A falha há-de ser sempre do prestador do serviço. E esses empecilhos administrativos ao fast food académico devem ser substituídos!

Agradar ao cliente é, de qualquer forma, aparentemente simples: aceitar que o cliente só tem direitos; que não tem de ser ensinado por ninguém e não precisa de aprender nada; que pode sempre delegar cognitivamente na IA todas as tarefas a fazer sem qualquer reflexão e, como consequência óbvia, passar a todas as cadeiras o mais depressa possível para sair com a credencial que pretende. E isto não é uma piada! Está a ser efectivado como pratica universitária!

Neste quadro, saber quem nasceu primeiro, se foram os credencialistas estúpidos ou as instituições de estupidificação superior é uma pergunta similar à do ovo e da galinha. Agora que o ChatGPT e os cretinos digitais fizeram avançar o processo, não tenho dúvida.

Quanto às instituições de ensino superior que estão a permitir todo este quadro de non-sense, tornando-se palco para credencialistas arrogantes e ignorantes e possibilitando mesmo que sejam estes a ditar as regras, não podemos senão dizer que estamos perante a má moeda que expulsa a boa, a estupidificação e, mesmo, a merdificação, quer do trabalho académico, quer das universidades.

As universidades que possibilitam que as práticas dos credencialistas vinguem, que comportamentos oportunistas não sejam sancionados, têm como consequência o reprimir (ou mesmo expulsar) dos estudantes com valores académicos e profissionais, assim como os docentes de valor. É a lei de Gresham: da má moeda que expulsa a boa moeda.

As universidades que possibilitam que os credencialistas vinguem e que coloca os professores como meros prestadores de serviços a tais ignorantes, prejudica todos e está a fornecer à sociedade falsos diplomados. Logo é uma instituição estúpida! Ou seja, segundo a fórmula da estupidez de Cipolla, a instituição que causa prejuízo aos outros sem tirar benefício para si própria, podendo até prejudicar-se, é estúpida.

As universidades que possibilitam que o trabalho académico de professores e estudantes (que querem continuar a ter esses nomes e a desempenhar tais papeis) se resuma aos desejos dos credencialistas, deixa de ter sentido. Em tal quadro, não temos professores, mas tão só ‘flunkies’ (lacaios – existem para fazer alguém parecer importante – possibilitando competências aparentes e diplomas sem valor). Ou seja, os professores são prestadores de serviços, inúteis, desnecessários e mesmo perniciosos. Estamos assim perante, seguindo Graeber, a merdificação do trabalho académico e a merdificação das instituições de ensino superior.