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(A) :: BCE deve subir juros como "tiro de aviso" contra a inflação. Há analistas a avisar que a decisão será "um erro"

BCE deve subir juros como "tiro de aviso" contra a inflação. Há analistas a avisar que a decisão será "um erro"

Primeira subida de juros em três anos deverá ser de 25 pontos-base. Intenção é sinalizar que BCE não irá tolerar que se forme uma escalada súbita da inflação, como aconteceu em 2022.

Edgar Caetano
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Um “tiro de aviso“. É assim que vários analistas descrevem o mais que provável aumento das taxas de juro que Christine Lagarde deverá anunciar nesta quinta-feira, em Frankfurt. Traumatizado com o descontrolo da inflação em 2022/2023, em que o banco central foi acusado de intervir tarde demais, o BCE quer sinalizar aos agentes económicos que não irá cometer o mesmo erro. Mas há analistas que avisam que, desta vez, subir os juros é que poderá ser um erro.

O agravamento da taxa de juro deverá ser de 25 pontos base, para 2,25%, uma decisão que foi cuidadosamente sinalizada pelos principais responsáveis do banco central ao longo das últimas semanas – para evitar que os mercados financeiros fossem surpreendidos com o aumento dos juros que será o primeiro em quase três anos.

Essa sinalização já levou a que as taxas Euribor, calculadas a partir do juro exigido entre os bancos quando emprestam entre si, subissem para os níveis mais elevados desde finais de 2024. O indexante de crédito as 12 meses já superou os 2,9%, voltando a subir depois de passar o ano de 2025 “estacionado” pouco acima dos 2%.

As famílias (e empresas) com créditos indexados às taxas Euribor que viram as prestações revistas em junho já sentiram um aumento que, num crédito à habitação típico, facilmente podem significar várias dezenas de euros.

Uma questão de “gestão de risco” que pode ser “um erro”

Se dúvidas existissem sobre a decisão que seria tomada nesta quinta-feira em Frankfurt, na sede do BCE, elas foram praticamente eliminadas quando o Eurostat comunicou, na última semana, que a inflação na zona euro subiu para 3,2% em maio.

Esses dados, comentaram de imediato os economistas do BPI, “reafirmaram que, através do aumento dos custos da energia, o conflito no Médio Oriente está a impulsionar significativamente os preços na zona euro, além de ter um potencial considerável para se propagar ao resto do cabaz de consumo (efeitos indiretos)”.

É para tentar evitar que essa propagação que o BCE deverá anunciar uma subida dos juros que funcionará como um instrumento de “gestão de risco”. Isto é, as possíveis consequências de não fazer nada podem ser bem piores do que as consequências de subir os juros em (apenas) 25 pontos-base e, depois, perceber-se que não tinha sido necessário.

“Os mercados de energia ainda estão a negociar num contexto relativamente benigno, mas os riscos para a inflação estão a tornar-se mais assimétricos”, avisaram os analistas do banco holandês Rabobank, acrescentando que “o custo potencial de um aumento dos juros por engano é inferior à perda de credibilidade que aconteceria se o BCE mantivesse a taxa inalterada e arriscasse, dessa forma, ser ultrapassado pelos acontecimentos”.

Será, por isso, uma questão de “gestão de risco”, afirmou o Rabobank.

Apesar de ser fácil de perceber o raciocínio que enquadra a provável subida dos juros nesta quinta-feira, também há analistas que consideram que este será “um erro de política” que irá ser cometido pelo BCE. É o caso de Holger Schmieding, economista-chefe do Berenberg, que, em nota de antecipação, se manifesta preocupado com o impacto económico que o agravamento poderá ter, mesmo sendo apenas 25 pontos-base, ou 0,25 pontos percentuais.

“A confiança do consumidor na zona euro afundou para níveis tipicamente associados com crises graves” e “a atividade no setor privado está já em contração ligeira”, destaca o economista, acrescentando que “até a recuperação encorajadora no crédito bancário às famílias está em desaceleração”.

Neste contexto pouco animador, “a última coisa de que a zona euro precisa é de um vento contrário como taxas de juro mais elevadas, que irão exacerbar o impacto económico negativo da guerra no Irão”. Em poucas palavras: “Na nossa opinião, o BCE prepara-se para cometer um erro”, afirmou Holger Schmieding.

E depois de junho? Analistas atentos aos sinais dados por Lagarde

Mas essa não é a opinião consensual entre os analistas. Michael Krautzberger, diretor de investimento global (CIO) da Allianz Global Investors, considera que “os motivos para o aumento dos juros em junho são muito fortes”.

“O novo choque petrolífero fez com que a inflação na zona euro voltasse a estar acima do objetivo” e “os preços do petróleo estão agora significativamente acima dos pressupostos incorporados nas projeções do BCE de março, o que deverá conduzir a revisões em alta das previsões para a inflação, com esta a manter-se substancialmente acima da meta ao longo do horizonte de projeção, aproximando-se dos 3% em 2026 e dos 2,2% em 2027″.

O BCE idealiza uma taxa de inflação de 2%, no médio prazo, pelo que as projeções atualizadas que irão ser divulgadas (também) esta quinta-feira devem dar a Christine Lagarde a justificação para a subida dos juros em 25 pontos base.

A continuada disrupção no Estreito de Ormuz reforça o risco de os preços elevados da energia persistirem por mais tempo do que o anteriormente previsto. Além da energia, os primeiros sinais de pressões inflacionistas mais amplas – em particular, nos bens de consumo – sugerem que os efeitos secundários começam a surgir”, afirma Michael Krautzberger.

A questão mais importante é, contudo, saber que sinais Christine Lagarde poderá dar sobre o pendor do BCE para lá de junho. Ou seja, irá o banco central ficar-se por este “tiro de aviso” ou será esta pequena subida o início de um ciclo de várias subidas das taxas de juro?

“Esperamos que a presidente Lagarde mantenha uma postura flexível, dependente dos dados, embora apoie implicitamente uma maior restrição monetária”, antecipa a Allianz GI, prevendo mais uma subida – que poderá ser, essa sim, a última do ano – de mais 25 pontos-base em setembro.

Álvaro Santos Pereira, embora participe na reunião do Conselho do BCE, não terá direito de voto nesta quinta-feira, por força da habitual rotação que existe no organismo que determina a política monetária da zona euro. O governador do Banco de Portugal voltará a ter direito de voto em julho e ao longo dos meses seguintes.

Embora seja difícil estimar quão perto se está de um cessar-fogo no Irão (e na Ucrânia), a expectativa dos analistas, de um modo geral, é que os juros só voltarão a subir em julho se houver, entretanto, uma surpresa desagradável nos dados sobre a inflação.

Mas poucos analistas apostam que este “tiro de aviso” em junho será a última vez que o BCE irá aumentar as taxas de juro ao longo deste ano. “Globalmente, o BCE mantém-se em modo de restrição monetária — não de forma agressiva, mas com um claro viés” nesse sentido, afirma o especialista da Allianz GI.