Estive no Japão no final de Maio, dois meses depois da floração das cerejeiras, mas ainda a tempo de encontrar o monte Fuji cercado de bruma, ciosamente oculto da nossa vista.
O Japão apareceu sempre, aos olhos ocidentais, com uma certa aura de mistério. É assim, desde as cartas de Francisco Xavier aos estudos antropológicos de Roland Barthes. Desde os relatos de Fernão Mendes Pinto, que admirava os «pagodes que eram de muita majestade e riqueza» e a gente «naturalmente muito bem inclinada e conversadora», às páginas cruas de Paul Claudel, diplomata em Tóquio nos anos 1920, sobre a pobreza urbana, o ópio e a prostituição.
Encontramos, nesse misterioso arquipélago-fortaleza, a marca de uma civilização que se recusa a desaparecer. Vinte e cinco vezes mais pequeno do que os Estados Unidos e a China, quarenta vezes menor do que a grande Rússia, o Japão teria tido, ao longo dos séculos, todos os argumentos para se deixar esmagar, humilhar e desvanecer da cena mundial. Em vez disso, preserva uma língua e um alfabeto, um povo e uma identidade cultural, uma certeza própria sobre a arquitectura e as artes, a religião e o modo de vida, a gastronomia e o código cívico.
Como se explica este fenómeno? Como se explicam a sobrevivência e a projeção mundial da cultura nipónica? Talvez seja, em grande medida, fruto de uma relação muito própria, muito pragmática, com o progresso tecnológico e com a globalização.
A história conta-se facilmente (se o leitor me perdoar alguns necessários simplismos). No início do século XVII, o Japão viu nascer um regime, o Xogunato Tokugawa, fortemente apostado em cortar laços com o mundo. Ao longo de dois séculos, o progresso foi lido como uma ameaça existencial e as influências externas como uma inaceitável corrupção da alma japonesa.
Este espírito persecutório e isolacionista, relatado com grande crueza no Silêncio de Shusaku Endo, acabaria por fragilizar o Japão, culminando, na década de 1850, com a assinatura dos Tratados Desiguais, que firmaram a subalternidade do país diante das potências ocidentais. Fechado, isolado, apostado na auto-suficiência, o Japão tinha sido incapaz de acompanhar o grande desenvolvimento do Ocidente.
O regime que nasceu depois, e que a História recorda como Restauração Meiji, veio inaugurar uma nova modalidade de relação com o progresso. Procurava-se, por um lado, desenvolver o país, dominar as técnicas e os processos, alargar a economia e o tecido produtivo, conhecer novas ideias e trazê-las para solo pátrio. Mas também se queria, ao mesmo tempo, conservar a singularidade japonesa. Preservar, reinventando. Vencer o jogo do progresso, para depois poder escolher em que termos ele seria aplicado.
Esta relação dual, complexa, pragmática com a tecnologia marca, até hoje, o espírito japonês. Ali é claro, como talvez em nenhum outro lugar, que a tecnologia é nossa serva, e não mestra da vida social.
Em Tóquio, os quimonos passeiam, tranquilos, ao lado dos arranha-céus. As lojas de conveniência crescem ao lado de templos e palácios ancestrais. O vasto caudal das superstições xintoístas desagua na cultura dos animes, com os seus milhares de personagens e histórias. Telemóveis de última geração quebram a distância entre os turistas e um povo que se recusa a aprender inglês. Uma sociedade profundamente ciosa dos seus deveres de hospitalidade (omotenashi) não deixa de impor, a si mesma e a quem a visita, o mais estrito código de regras de convivência.
A cidade medra, vertiginosa, polarizando uma área metropolitana com 37 milhões de habitantes, mas as ruas estão limpas, floridas e silenciosas, sulcadas de carros eléctricos e de transportes públicos de impecável precisão. E tudo isto funciona, enraizado num sistema social de dever e de honra, de pertença e de lealdade, que continua a governar as relações cívicas e a vida pública, mas também a marcar a cultura das empresas e a sua relação com a sociedade. Conceitos muito japoneses, como o princípio da melhoria contínua (kaizen) ou a capacidade de preparar a mudança, trabalhando à volta das raízes (nemawashi), transitaram para o mundo corporativo e moldaram a sua identidade.
Nas suas sombras, como a queda dos índices de fecundidade, as adições digitais e o isolamento social extremo (hikikomori), a sociedade japonesa replica alguns dos principais desafios das sociedades pós-modernas. Vive-os, porém, de um modo muito próprio, muito seu, e procura combatê-los aliando a tecnologia e as tradições.
Deste modo, tradição e progresso, quimonos e arranha-céus, tocam-se, sem nunca se colocarem mutuamente em causa. Pelo contrário, quanto mais a tecnologia avança, mais o país sente que tem meios para guardar, com segurança, os seus costumes. E quanto mais a tradição se transmite, quanto mais a cultura se derrama de geração em geração, mais se preserva uma mentalidade grupal, tenaz, briosa, que tem sido indispensável à marcha do progresso.
Foi no Japão que li, pela primeira vez, o alerta do Papa Leão XIV, na encíclica Magnifica Humanitas, contra um progresso tecnológico babeliano, que pretende terraplanar as diferenças e submeter-nos a todos ao mesmo jargão globalizado, uniforme e pós-moderno: «a uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa» (MH, §.10).
Não pude evitar, ao ler estas palavras, pensar naquele mundo de quimonos e arranha-céus, onde o progresso foi abraçado, mas também submetido a um propósito de preservação civilizacional. Um progresso escrito, falado, pensado em japonês e posto ao serviço da sociedade japonesa.
Talvez tenhamos, pelo menos quanto a esta matéria, algumas lições a aprender com o Extremo Oriente.
P.S. – A minha visita ao Japão aconteceu ao abrigo de um programa académico da AESE Business School. Uma rara oportunidade para mergulhar na cultura, na sociedade e na economia daquele país. À escola, só posso agradecer a iniciativa.