Antes de um primeiro encontro, há quem ainda pense na roupa, no sítio, na hora, nessas pequenas coisas normais. Mas, sejamos honestos, muita gente faz outra coisa primeiro. Ou logo a seguir. Pega no telemóvel e pesquisa o nome da pessoa. Vai ao Google, depois ao Instagram, talvez ao LinkedIn, e se houver Facebook ainda aberto, também lá passa. Não é propriamente uma investigação com bloco de notas e lupa, mas às vezes anda lá perto.
Eu própria já vi isto acontecer em conversas banais. Alguém menciona uma pessoa nova, alguém com quem vai sair, trabalhar ou dividir casa, e há sempre quem pergunte: “já foste ver quem é?”. A pergunta sai quase sem peso, como se fosse igual a confirmar a morada de um restaurante. E, no entanto, não é bem a mesma coisa. Procuram-se fotografias antigas, amigos em comum, publicações fora de contexto, opiniões soltas, ausências estranhas, excessos de exposição. Uma pessoa que ainda nem entrou verdadeiramente na nossa vida já está, de certa maneira, a ser avaliada por algo que nada temos a ver com.
Mas, isto não acontece só nos encontros. Antes de contratar um explicador para uma criança, aceitar alguém numa equipa pequena, arrendar uma casa, vender alguma coisa em segunda mão ou combinar uma boleia, o gesto repete-se. Parece prudente. Às vezes até é. Há burlas, perfis falsos, histórias mal contadas e gente que sabe apresentar-se muito melhor do que aquilo que é. Ninguém quer fazer figura de ingénuo. Ainda assim, há aqui qualquer coisa que se instalou devagar, com ar de bom senso, e que talvez mereça mais desconfiança do que temos dado.
A palavra “vigiar” soa pesada. Eu sei. Também me pareceu exagerada quando comecei a pensar nisto. Mas depois tentei encontrar outra e não encontrei nenhuma muito melhor. Antigamente, dizia-se que havia sempre uma vizinha à janela a saber quem entrava, quem saía, quem discutia, quem chegava tarde. Hoje, a janela passou a caber no bolso. O cidadão comum, com um telemóvel na mão e dez minutos livres, transforma-se facilmente numa espécie de analista amador da vida dos outros. Junta bocados, cruza sinais, tira conclusões. Um comentário antigo vira sintoma. Uma ausência nas redes vira suspeita. Uma fotografia de há sete anos, tirada num contexto que já ninguém conhece, passa quase a funcionar como prova de carácter.
Não quero fingir que isto vem do nada, até por que a internet não é um lugar inofensivo. Longe disso. As burlas sentimentais existem, as fraudes digitais multiplicaram-se e há uma sensação, bastante real, de que as plataformas chegam tarde, quando chegam, e a polícia pouco consegue fazer. Por isso, cada pessoa sente que tem de fazer a sua própria triagem antes de confiar. Uma consulta rápida parece não custar nada. E, em certos casos, talvez não custe mesmo.
O problema começa quando esse gesto deixa de ser uma cautela pontual e passa a ser reflexo. Quase automático. Antes de falarmos com alguém, já queremos saber se essa pessoa “passa” numa pequena inspeção informal. A confiança deixa de ser o ponto de partida e passa a ser uma espécie de prémio, entregue só depois de a pessoa não ter levantado bandeiras vermelhas. E isto muda qualquer coisa. Não se nota logo, mas muda.
Há uma confiança mínima sem a qual a vida comum se torna impraticável. Entramos num autocarro da Carris sem pedir o currículo moral de quem vai sentado ao nosso lado. Compramos pão sem pesquisar o passado da pessoa que nos atende na padaria. Aceitamos boleias, conversas, pequenas ajudas, indicações na rua. Claro que há riscos. Sempre houve. Mas aceitamos, pelo menos em parte, que a maioria das pessoas, com falhas e contradições, não está necessariamente a tentar enganar-nos. Essa confiança não é ingenuidade pura. É uma espécie de acordo silencioso que permite que a vida não se transforme numa sucessão de testes.
A pesquisa digital dá uma ilusão muito convincente de conhecimento. Vemos meia dúzia de sinais e parece que já percebemos alguma coisa. Mas percebemos pouco. Quase sempre pouco. Um perfil online é uma montagem, e nem sempre feita com cuidado. Há quem pareça impecável e não o seja. Há quem pareça estranho apenas porque não sabe apresentar-se bem nas redes. Há pessoas que mudaram. Há outras que nunca couberam bem numa cronologia, nem numa fotografia, nem num conjunto de gostos ou partilhas antigas.
Também há um detalhe que me incomoda cada vez mais: quase nunca damos ao outro o benefício do contexto. Se alguém não tem presença digital, perguntamos o que esconde. Se tem presença a mais, perguntamos por que precisa tanto de se mostrar. Se encontramos uma opinião antiga, lemo-la como se tivesse sido escrita ontem à tarde. Se não encontramos nada, até essa ausência parece dizer alguma coisa. É uma armadilha curiosa, porque qualquer resultado pode confirmar a suspeita que já levávamos connosco.
E depois há o direito ao esquecimento, que é uma expressão um pouco formal, mas que aponta para uma coisa muito simples: as pessoas precisam de poder deixar certas fases para trás. Antes, muita coisa desaparecia porque a memória humana falhava. E ainda bem. As pessoas mudavam de cidade, de grupo, de trabalho, ou apenas cresciam. Certos erros não eram apagados, mas perdiam nitidez e o seu peso. Hoje, uma frase infeliz, uma fotografia parva, uma fase menos bonita ou uma convicção antiga podem ficar disponíveis durante anos, prontas a reaparecer quando menos sentido faz. Quando vasculhamos o passado dos outros por rotina, ajudamos a manter essa prisão discreta.
Não estou a defender que se confie cegamente em toda a gente. Isso seria absurdo. Há situações em que verificar é necessário, sobretudo quando estão em causa crianças, dinheiro, segurança física ou relações de dependência. Eu faria o mesmo, e acho que quase toda a gente faria, mas a questão não é essa. A questão é perceber quando é que a prudência se transforma em vício e quando é que a curiosidade começa a chamar-se prevenção só para parecer mais respeitável.
Fala-se muito de literacia digital. Normalmente, pensa-se logo em reconhecer burlas, proteger palavras-passe, não clicar em ligações duvidosas, confirmar fontes. Tudo isso importa. Mas falta uma parte menos técnica, talvez mais chata de ensinar: aprender a usar a informação sem perder a medida humana. Saber que nem tudo o que podemos descobrir deve ser procurado. Saber que uma pessoa não cabe no rasto que deixou online. Saber também que a promessa de segurança absoluta costuma pedir em troca uma desconfiança sem fim. E viver sempre desconfiado cansa. Cansa mesmo.
Talvez, antes de pesquisar uma pessoa que ainda mal conhecemos, valha a pena fazer uma pergunta simples: que tipo de relação estou a construir se começo por investigá-la? A resposta não será sempre a mesma. Há casos em que pesquisar faz sentido. Há outros em que é apenas medo vestido de sensatez. E há muitos, talvez a maioria, em que convinha parar um momento antes de transformar uma pessoa real num dossiê improvisado.
Proteger-nos no mundo digital é necessário. Mas se essa proteção nos habitua a olhar para todos como potenciais ameaças, alguma coisa se perde. Podemos ficar com mais informação, mais alertas, mais ferramentas e uma sensação maior de controlo. E, mesmo assim, acabar com menos capacidade de confiar. Não falo de uma confiança ingénua, nem cega. Falo daquela confiança inicial, imperfeita e arriscada, sem a qual nenhuma vida social respira durante muito tempo.
Talvez seja isto o mais difícil de admitir: às vezes, também é preciso proteger a confiança de nós próprios.