Há algo de profundamente inquietante no facto de, em simultâneo, um jovem programador em São Francisco comprar ações de uma empresa que ainda não deu lucro com a mesma convicção com que um casal em Lisboa se endivida para trinta anos por um apartamento de cinquenta metros quadrados. São realidades distintas, em continentes distintos, mas partilham uma mesma lógica: a crença de que os preços só podem subir. Ora, quando esta crença se generaliza e, sobretudo, quando se desliga dos fundamentos económicos que a deviam sustentar, é legítimo perguntarmo-nos se não estamos, coletivamente, a construir castelos sobre areia.
Comecemos pelos mercados acionistas norte-americanos, onde os sinais de sobrevalorização são, no mínimo, dignos de reflexão. Os rácios preço-lucro do S&P 500 encontram-se em níveis que só foram atingidos em dois momentos da história recente: antes do colapso das dot.com em 2000 e imediatamente antes da crise financeira de 2008. Sabemos como ambos os episódios terminaram. Mais relevante ainda é a concentração absurda de valor num punhado de empresas tecnológicas (as chamadas “Magnificent 7”) que representam uma fatia desproporcional do índice. Bastaria que uma destas gigantes tropeçasse para arrastar consigo o mercado inteiro.
A esta concentração soma-se o comportamento especulativo que tem caracterizado parte dos investidores de retalho. As meme stocks, impulsionadas pelos reddits da vida e por uma cultura que trata a bolsa como um casino digital, são sintomas de um mercado onde a euforia já há muito substituiu a análise financeira. Ora, quando o taxista e o influencer são todos analistas de mercado (com o devido respeito por ambas as profissões (“ocupação” quanto à segunda…)), é porque provavelmente já estamos no território a que os economistas chamam “exuberância irracional”.
Apesar disto não podemos, contudo, ignorar o argumento contrário. A inteligência artificial é, de facto, uma tecnologia com potencial transformador real e talvez a mais relevante desde a internet. As empresas que lideram esta revolução têm gerado receitas crescentes e poderão vir a justificar (em parte) as suas avaliações se concretizarem as promessas de produtividade que apregoam. O problema não é saber se a IA vai mudar o mundo, mas sim se o preço atual já incorpora essa mudança toda e mais alguma que pode nunca acontecer.
Atravessemos agora o Atlântico e olhemos para mais perto de casa: o mercado imobiliário europeu e, em particular, o português. Aqui a desconexão entre preços e rendimentos das famílias é ainda mais visível e, diria, mais sentida no quotidiano. Em Lisboa e no Porto, os preços por metro quadrado mais do que duplicaram na última década, ao passo que os salários médios fizeram pouco mais do que acompanhar a inflação. O resultado é aritmético. Uma parte crescente da população está simplesmente excluída do acesso à habitação nas cidades onde trabalha.
Os motores desta subida são conhecidos: (i) anos de taxas de juro historicamente baixas que tornaram o crédito barato e canalizaram poupanças para o imobiliário como refúgio de valor; (ii) vistos gold e investimento estrangeiro atraído por um regime fiscal favorável; (iii) turismo de curta duração que converteu bairros inteiros (e sobretudo os históricos e nos centros das cidades) em hotéis disfarçados; e last but not least (iv) uma oferta de construção nova que nunca acompanhou a procura. Ora, quando todos estes factores confluem, o preço sobe. A questão que se impõe é: até quando?
Também aqui é justo reconhecer que nem tudo é bolha. Portugal tem uma escassez real de habitação, sobretudo nas áreas metropolitanas, e os custos de construção subiram substancialmente. Estes factores sustentam parte da valorização. Todavia, quando um casal jovem com dois rendimentos médios não consegue comprar um T2 sem se endividar até ao limite e durante décadas, algo no sistema não está a funcionar.
Apesar disto, seria redutor afirmar que estamos inequivocamente perante bolhas prestes a rebentar. A história ensina-nos que os mercados podem permanecer irracionais durante mais tempo do que qualquer analista consegue prever. O que é, contudo, prudente dizer é que os riscos estão elevados, que a margem de segurança é bastante reduzida, e que seria sensato tanto para investidores individuais como para decisores políticos agir com a consciência de que nem tudo o que sobe tem obrigação de continuar a subir.
Em suma, vivemos um momento em que a distância entre o preço dos ativos e o seu valor intrínseco parece maior do que o habitual, aplicando-se esta lógica a uma ação tecnológica em Nova Iorque, ou a um apartamento em Alfama. Ora, reconhecer isto não é ser alarmista, mas sim ser minimamente prudente.