Há frases que, em política externa, não podem ser avaliadas apenas pela intenção com que são ditas. Têm de ser avaliadas pelo sinal que enviam. E quando o Primeiro-Ministro português afirma que uma paz duradoura na Ucrânia implica “sentar a Rússia” à mesa negocial, o problema não está apenas na evidência formal da frase. É claro que, em algum momento, qualquer guerra terminará com alguma forma de contacto entre as partes. O problema está no tempo, no tom e na ausência de condições políticas claras.
Porque Vladimir Putin não precisa que a Europa lhe explique que existe uma mesa. Putin precisa de perceber que não há vitória possível no campo de batalha, que não haverá reconhecimento das conquistas territoriais obtidas pela força, que a Ucrânia não será tratada como objecto de negociação entre terceiros e que a Europa não confundirá cansaço com prudência.
Portugal não pode falar da Ucrânia como se estivesse perante um conflito simétrico entre duas partes teimosas. Há um agressor e há um agredido. Há um Estado que invadiu e há um Estado que resiste. Há um regime que bombardeia cidades, deporta crianças, destrói infraestruturas civis e testa diariamente os limites da segurança europeia. E há um povo que paga, com sangue, a defesa da sua liberdade e, em larga medida, da segurança de todo o continente europeu.
Por isso, quando Luís Montenegro diz que a Europa deve tomar a iniciativa de dialogar com a Ucrânia e também com a Rússia, falta-lhe dizer o essencial: dialogar com Moscovo para quê, em que condições e com que linhas vermelhas? Sem essa moldura, a mensagem torna-se perigosa. Não porque a diplomacia seja dispensável, mas porque a diplomacia sem força, sem clareza e sem princípios rapidamente se transforma em encenação.
A história europeia devia ter-nos vacinado contra a tentação de chamar “realismo” àquilo que, demasiadas vezes, é apenas medo bem vestido. Realismo não é acreditar que Putin ficará mais moderado se lhe for oferecido estatuto internacional. Realismo não é imaginar que o Kremlin respeitará compromissos que assinou enquanto continuar a beneficiar da violação dos anteriores. Realismo não é dizer à Ucrânia que aceite uma paz que, na prática, recompensa a agressão russa e prepara a próxima guerra.
Realismo é precisamente o contrário. É compreender que a paz só será duradoura se for justa. E só será justa se não transformar a invasão numa oportunidade diplomática para o invasor.
O padrão, infelizmente, não é novo. Em Setembro de 2025, em Pequim, Luís Montenegro pediu a Xi Jinping que usasse a relação próxima da China com a Rússia para ajudar a construir uma “paz justa e duradoura” na Ucrânia. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, também destacou na altura o papel que a China poderia ter na persuasão da Rússia para aceitar um cessar-fogo e abrir caminho a um processo negocial.
Mas esta ideia merece ser combatida com frontalidade. A China não é um árbitro neutro. Não é uma potência distante, desinteressada e acima do conflito. Pequim tem uma parceria estratégica profunda com Moscovo, beneficia do enfraquecimento ocidental, disputa a ordem internacional liberal e tem interesses próprios num mundo em que as democracias se mostrem divididas, cansadas e vulneráveis.
Pedir à China que seja intermediária é, por isso, uma aposta arriscada. Pode fazer sentido exigir que Pequim deixe de facilitar, directa ou indirectamente, a agressão russa. Pode fazer sentido pressionar a China a usar a sua influência sobre Moscovo. Mas isso é diferente de a promover como mediadora credível de uma paz europeia. Uma coisa é dizer à China que tem responsabilidades. Outra, bem diferente, é entregar-lhe centralidade diplomática num conflito em que o futuro da segurança europeia está em causa.
Neste ponto, aliás, Paulo Rangel esteve bem quando rejeitou a hipótese de Gerhard Schröder poder assumir qualquer papel de mediação. Chamou-lhe, e bem, uma “ideia descabida”, lembrando que o antigo chanceler alemão está alinhado com o regime russo. É exactamente esse o critério que deve ser aplicado a todos os potenciais intermediários: quem está demasiado próximo do Kremlin não pode ser apresentado como mediador imparcial.
Se Gerhard Schröder não serve por estar comprometido politicamente com Moscovo, então a China também não pode ser tratada como se estivesse acima da disputa. A coerência exige mais do que rejeitar um nome inconveniente. Exige rejeitar a ilusão de que os aliados estratégicos da Rússia podem ser árbitros independentes da paz europeia.
E isto não significa defender que a Europa nunca deve falar com Moscovo. Deve fazê-lo quando for necessário. Mas não cada capital por si, não com sinais contraditórios, não por impulso e não procurando protagonismo nacional num conflito que exige unidade estratégica. A pessoa indicada para conduzir esse contacto, em nome da União Europeia, é Kaja Kallas, Alta Representante da União para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança.
Não por ser uma “mediadora neutra”, porque a União Europeia não é neutra entre o agressor e o agredido. A União Europeia está, e deve estar, do lado da Ucrânia. Mas precisamente por representar a posição europeia comum: apoio a Kyiv, pressão sobre Moscovo e defesa da ordem de segurança europeia. Moscovo não deve escolher os seus interlocutores europeus. E os Estados-membros não devem competir entre si para parecerem os mais disponíveis para conversar com o Kremlin.
É essa a diferença entre diplomacia e voluntarismo. Diplomacia é a Europa falar a uma só voz, com mandato claro, através das suas instituições e em articulação permanente com a Ucrânia. Voluntarismo é cada dirigente europeu tentar parecer construtivo, deixando no ar a ideia de que há uma paz à espera de ser desbloqueada por uma conversa com Putin. Não há. Há uma guerra de agressão que só terminará quando Moscovo concluir que continuar a guerra lhe custa mais do que parar.
Há ainda um dado novo que torna estas declarações particularmente infelizes. Um drone russo caiu sobre um edifício de habitação civil em Galați, na Roménia, perto da fronteira com a Ucrânia, provocando dois feridos e obrigando à evacuação de dezenas de pessoas. A Roménia é membro da NATO. O incidente foi confirmado pelas autoridades romenas e descrito como uma grave violação do seu espaço aéreo.
Este ataque, ainda que não deliberado, não é um detalhe. É um aviso. Enquanto em Lisboa se fala na necessidade de “sentar a Rússia” à mesa, em Galați cidadãos europeus são feridos por drones russo. Enquanto alguns procuram sinais de abertura em Moscovo, Moscovo continua a testar fronteiras, radares, sistemas de defesa aérea, nervos políticos e a determinação das democracias. A Rússia não está apenas a travar uma guerra contra a Ucrânia. Está a medir, todos os dias, o preço que o Ocidente está disposto a pagar para defender a sua própria ordem de segurança.
A resposta de Moscovo ao incidente também devia servir de lição. Dmitry Medvedev, antigo Presidente russo e actual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, avisou que a Europa deve preparar-se para mais incidentes com drones. Ou seja, no mesmo momento em que alguns responsáveis europeus procuram sinais de disponibilidade russa para dialogar, figuras centrais do regime russo respondem com intimidação e ameaça.
É por isso que Portugal devia ser mais claro. Não basta repetir que se quer uma paz justa e duradoura. Todos dizem querer a paz. A questão é saber que paz se aceita, que paz se recusa e que preço estamos dispostos a pagar para que a paz não seja apenas uma pausa entre duas agressões russas.
A posição portuguesa deveria assentar em princípios simples.
Primeiro: nada sobre a Ucrânia sem a Ucrânia.
Segundo: nenhuma negociação pode reconhecer a anexação de territórios ucranianos ocupados por forças afectas à Federação Russa.
Terceiro: qualquer diálogo com Moscovo deve ser conduzido de forma coordenada pela União Europeia, através de quem tem mandato para representar a política externa comum, e não por iniciativas nacionais avulsas.
Quarto: a Europa deve reforçar o apoio militar, financeiro e diplomático a Kyiv, não dar ao Kremlin a impressão de que basta esperar pelo cansaço democrático.
Quinto: a China pode e deve ser pressionada, mas não promovida a juíza de uma guerra em que tem interesses próprios.
A paz é um objectivo nobre. Mas há formas de falar de paz que acabam por servir a guerra. Quando um agressor percebe que a sua violência lhe garante lugar, estatuto e negociação, aprende a repetir o método. Quando percebe que a agressão tem custos insuportáveis, começa finalmente a procurar saídas.
Portugal deve estar do lado da segunda opção.
A Ucrânia não precisa de discursos europeus que pareçam antecipar concessões. Precisa de aliados que ajudem a criar as condições para uma paz verdadeira: uma paz em que negociar não signifique premiar o invasor, em que dialogar não signifique normalizar o criminoso, e em que a Europa não volte a confundir a vontade de paz com a disponibilidade para ceder.
A Rússia pode, um dia, sentar-se à mesa. Mas não deve ser a Europa a puxar-lhe a cadeira enquanto os drones russos continuam a cair sobre cidades ucranianas e, agora, também sobre território da União Europeia e NATO.