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(A) :: Somos todos muito bem medicados

Somos todos muito bem medicados

O país decida de vez se quer trabalhadores produtivos e plenos na sua saúde, ou prefere continuar a colecionar recordes de consumo de ansiolíticos com alheamento a relações de causa e efeito.

César Portela e João Rocha Neves
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Portugal bateu um recorde que ninguém celebra. E que ninguém, curiosamente, quis evitar.

Nunca consumimos tantos antidepressivos. Os números das doses diárias definidas atingiram em 2023 o valor mais alto de sempre. Somos um dos países mais medicados da Europa em psicofármacos, com 88 mil caixas de antidepressivos por dia. Somos recordistas, silenciosamente, com a discrição envergonhada de quem esconde um vício que ainda não ousou confessar ao médico de família. E a resposta que ouvimos, invariavelmente, da boca dos que governam e dos que comentam? Precisamos de mais acesso a tratamento em saúde mental, de preferência sem fármacos. Exigem-se mais consultas no SNS, mais aplicações digitais, mais linhas de apoio, sem fundamentar o eventual resultado ou o possível valor em saúde. Afirma-se tal como se o problema fosse uma insuficiência de oferta terapêutica, e não uma falha estrutural de civilização.

Há 40 anos, os estudos Whitehall (*) no Reino Unido demonstraram algo que ainda hoje incomoda profundamente quem governa e quem gere: o que mata as pessoas não é o trabalho difícil, é o trabalho sem controlo. É destrutivo acordar todos os dias para uma função onde não se decide nada de relevante, onde a injustiça é estrutural e aceite como fatalidade natural. É arrasador trabalhar onde o esforço não tem correspondência no reconhecimento nem no salário, e onde a hierarquia existe não para liderar, mas para oprimir, com a eficiência silenciosa de quem aprendeu que o poder se exerce sobretudo por meio da indiferença. Marmot et al. descobriu, há quatro décadas, que o stress crónico mais letal não é o do gestor sobrecarregado que tenta apanhar o voo das sete para Frankfurt, mas sim o do trabalhador invisível.

Portugal leu esses estudos. E não fez nada. Ou pior… fez exactamente o contrário e perdeu a oportunidade na recente reforma laboral de fazer um debate sério, centrado na competitividade e qualidade de vida, preferindo o folhetim do “diz que disse” das negociações.

Construímos uma economia assente em salários baixos, vínculos precários e uma cultura laboral onde pedir direitos ainda parece um favor, uma impertinência, quase uma ameaça subversiva à ordem estabelecida. Somos uma economia que descobriu que a precariedade é um modelo de competitividade a exportar.

E sobre este substrato construímos o Código do Trabalho, documento que, no papel, garante direitos, mas que, na prática, foi habilmente esvaziado por décadas de interpretação patronal permissiva, de fiscalização inexistente e de uma Justiça laboral que trabalha (essa sim, com ironia involuntária) em tempo que não é útil para ninguém que precise de comer este mês. As 35 horas no sector público tornaram-se uma bandeira política que esconde que o problema não é a duração do trabalho, mas é a qualidade das condições em que ele é feito.

Mas o que verdadeiramente falta, e que nenhum Código do Trabalho, nem na tão falada reforma laboral, por si só, resolve, é algo mais difuso e, por isso, difícil de legislar. Falta cultura empresarial. Falta cultura de liderança.

Em Portugal, é muita a distância entre o que a lei diz e o que acontece na segunda-feira de manhã ou quando o telemóvel toca às onze da noite de sexta-feira. É um percurso longo, que a Autoridade para as Condições do Trabalho não percorre com frequência suficiente para incomodar alguém. As férias existem… mas o correio eletrónico não descansa. O repouso está garantido… mas a cultura diz que quem desliga é quem não se compromete. Os limites pessoais estão protegidos… em teoria, nessa teoria confortável que vive nos artigos de lei e morre nas práticas de gestão. Não aplicar a defesa de um direito é, na prática, o mesmo que não o reconhecer.

É sobre este substrato jurídico esvaziado que construímos a nossa cultura de liderança, ou a sua ausência. Portugal tem hierarquias, muitas, rígidas, ciosas das suas prerrogativas com o ardor de quem tem pouco a perder se as exercer mal. Não tem muitos líderes. Tem chefes. A distinção não é semântica, existe como símbolo da diferença entre uma organização que funciona e uma que sobrevive apesar de si mesma. O nosso modelo de gestão é, em larga medida, um top-down sem alma: instruções que descem, problemas que não sobem, e um silêncio intermédio, que se confunde com eficiência, mas é apenas medo organizado. Não há feedback. Não há avaliação a 360 graus. A hierarquia portuguesa confunde autoridade com infalibilidade. Instrumentaliza a crítica como sinal de deslealdade. Isto não é gestão. É uma forma suave de totalitarismo organizacional.

A segurança psicolaboral, esse conceito que as empresas de Silicon Valley descobriram há 20 anos com o entusiasmo de quem acredita ter inventado a roda, ainda não chegou, de forma real, aos contratos coletivos nem às reuniões de equipa portuguesas.  A saúde não se protege com workshops de mindfulness às sextas-feiras, nem com um qualquer “terapeuta” disponível via aplicação que a empresa anuncia no LinkedIn com o hashtag wellbeing. O bem-estar psicossocial resulta de vínculos laborais estáveis, salários que chegam ao fim do mês sem milagre aritmético, chefias que respondem perante a lei e perante as suas equipas, e de um Estado que funciona como rede de proteção e não como labirinto kafkiano. Kafka, convém recordar, escrevia ficção distópica, não manuais de administração pública, embora a diferença, em Portugal, por vezes seja difícil de estabelecer.

O “coaching” executivo não salva quem tem medo de perder o emprego no dia em que pedir melhores condições. Nenhum antidepressivo trata isso. Nenhuma consulta, por mais competente e assertiva que seja, resolve o que é uma falha de arquitectura sociopolítica, construída legislatura a legislatura, com a cumplicidade tácita de quem governa e de quem elege.

As soluções existem, e não são mistério para ninguém.. Pagar de forma justa. Não há substituto de salários dignos. Um crédito ao consumo não é prosperidade, é bem-aventurança adiada e com juros. Facilitar genuinamente o trabalho a tempo parcial, sem que isso implique automaticamente a perda de metade dos direitos e o aumento da precariedade. Tornar a flexibilidade de horários uma realidade e não um favor que o patrão concede nos anos em que está bem-disposto. Consolidar o teletrabalho como direito efectivo, e não como benefício revogável. Nenhuma destas medidas é radical. Nenhuma delas exige uma revolução. Exigem apenas que o país decida, de uma vez, se quer trabalhadores produtivos e plenos na sua saúde, ou se prefere continuar a colecionar recordes de consumo de ansiolíticos com alheamento a relações de causa e efeito.

Enquanto as soluções não chegam, continuaremos a bater limites que ninguém festeja.