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(A) :: Casas e carros em chamas na Irlanda do Norte após homem sudanês tentar decapitar uma pessoa

Casas e carros em chamas na Irlanda do Norte após homem sudanês tentar decapitar uma pessoa

Várias centenas de manifestantes incendiaram carros e residências em vários pontos de Belfast. Alguns ataques visaram especificamente residências e negócios de pessoas pertencentes a minorias.

António Moura dos Santos
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Larissa Faria
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Foram vários os focos de violência que surgiram na Irlanda do Norte na terça-feira, particularmente em Belfast e nos arredores da cidade, depois da tentativa de homicídio perpetrada na segunda-feira à noite por um migrante sudanês identificado como Hadi Alodid, de 30 anos. Grupos vestidos de negro e de caras tapadas incendiaram carros e casas, atacaram negócios pertencentes a estrangeiros e atiraram objetos à polícia, com a situação a acalmar apenas por volta das 23h00, quando começou a chover intensamente.

Tanto as autoridades como atores políticos de diferentes quadrantes tinham apelado à calma e ao protesto pacífico no rescaldo do ataque levado a cabo por um indivíduo de origem sudanesa, que terá tentado “decapitar” um homem com recurso a uma faca na segunda-feira, sendo impedido por várias pessoas.

https://observador.pt/2026/06/09/homem-sudanes-preso-apos-tentar-decapitar-uma-pessoa-em-belfast-starmer-considera-crime-repugante/

No entanto, ao fim da tarde de terça-feira, começaram a ser registados desacatos em Belfast e nos arredores da cidade, com centenas de manifestantes — descritos pelos jornalistas no local como jovens vestidos de negro e com o rosto coberto por balaclavas — a criar ajuntamentos em diferentes pontos da capital norte-irlandesa.

Uma das primeiras áreas a entrar em ebulição foi perto de Newtownards Road, zona unionista a leste do centro da cidade, onde cerca de 200 pessoas começaram por bloquear as vias rodoviárias.

No entanto, os manifestantes começaram a queimar caixotes do lixo e vários destes objetos a arder foram colocados junto a um autocarro que entretanto também pegou fogo, acabando por ser totalmente consumido pelas chamas. Segundo o jornal britânico The Telegraph, a Translink, empresa que opera os autocarros Metro e Glider, suspendeu os seus serviços até nova ordem em contrário.

Segundo a Sky News, a acompanhar os acontecimentos num helicóptero, vários dos manifestantes começaram a atacar o cordão policial entretanto formado na zona, atirando objetos contra os veículos da polícia e empunhando tochas.

No entanto, nas proximidades, a situação agravou-se em Lendrick Street, próxima de Newtownards Road, quando vários carros começaram a ser incendiados, provocando explosões e espalhando as chamas para casas nas proximidades. Um dos proprietários cuja residência ardeu afirmou à Sky News que vários “homens encapuzados estavam a arrombar portas” na sua rua.

Uma conta na rede social X afeta aos protestos partilhou um vídeo onde vários dos agressores entram numa casa em chamas e ouve-se um a gritar “vão se f***r, estrangeiros”. Várias famílias tiveram de ser socorridas.

Pouco mais a sul, em McMaster Street, a BBC diz que cerca de 100 homens com a cara tapada percorreram a rua, arrombando portas e partindo janelas, afirmando que estavam a “expulsar os estrangeiros”. O Telegraph afirma que os manifestantes também tentaram incendiar o Sham Supermarket, uma loja de produtos do Médio Oriente, na Donegal Road, a sul do centro da cidade.

Entretanto, começaram a surgir outros focos de desordem na cidade, com a formação de barricadas nas estradas a partir de montes de caixotes do lixo e outros detritos de plástico incendiados ou de grades dispostas sobre o alcatrão. Em algumas instâncias, a polícia viu-se forçada a atravessar as barreiras improvisadas com recurso aos seus veículos blindados.

Em Shankill Road, algumas centenas de pessoas começaram a partir janelas de casas, um carro foi incendiado e alguns homens com balaclavas invadiram uma casa depois de atirarem fogo de artifício e tochas na rua, reporta uma jornalista do The Guardian no local.

Segundo esta repórter, a casa visada era especificamente habitada por uma família de origem étnica minoritária, com alguns dos invasores a afirmarem que estavam a “libertar” esta residência, apesar de entre a turba em fúria alguém avisar que estavam “meninas pequeninas lá dentro”. Nas proximidades foram escritas nas paredes frases como “casas locais para a população local”.

A jornalista conta ainda que os agentes da polícia no local mantiveram-se à margem dos desacatos, considerando que não era seguro intervir. “Quando os reforços chegaram em quatro carrinhas da polícia, a maior parte da multidão de centenas de pessoas já se tinha dispersado”, escreve. Entretanto, nas imediações, duas lojas de telemóveis foram saqueadas e uma loja africana foi incendiada.

Em Crumlin Road e Oakley Street, na zona noroeste de Belfast, várias casas e carros foram também incendiados, e a polícia teve de escoltar os camiões dos bombeiros para evitar que fossem atacados. Além disso, vários manifestantes pararam o trânsito junto à entrada da autoestrada M2 na zona norte da cidade, adianta a BBC.

Ainda mais a norte, no condado de Newtownabbey, nos subúrbios de Belfast, a emissora reporta que cerca de 100 pessoas começaram a atirar pedras a uma casa em Whiteabbey e que outros dois carros foram incendiados.

Segundo a BBC, os manifestantes também se reuniram em Antrim, a 25 quilómetros a oeste de Belfast. Neste mesmo condado, um deputado da UUP, partido de natureza conservadora unionista, denunciou a onda de vandalismo em Ballyclare, onde um barbeiro turco foi atacado. Um carro da polícia foi também incendiado em Portadown, a sudoeste da capital.

Ao final da noite, os bombeiros ainda se encontravam a conter os incêndios nas casas e nos carros visados, auxiliados pela forte chuva que se abateu em Belfast e que ajudou também a dispersar os manifestantes.

Não houve registo de detenções nem de feridos. A polícia, todavia, emitiu um comunicado, com o chefe adjunto da polícia local, Ryan Henderson, a classificar a situação como “focos esporádicos de desordem” em vários locais da Irlanda do Norte esta noite. O responsável pediu às pessoas para manterem a calma e evitarem atividades que possam colocar em risco a sua própria segurança ou a de terceiros.

“Os agentes estão no terreno, a trabalhar em conjunto com as agências parceiras, a responder aos incidentes à medida que estes ocorrem e a ajudar a garantir a segurança das pessoas”, afirmou Henderson, que apelou também a “todas as vozes influentes nas comunidades locais para que incentivem a manifestação pacífica e desencorajem qualquer envolvimento em atos de violência ou desordem”.

A primeira-ministra do executivo que governa autonomamente a Irlanda do Norte, Michelle O’Neill, do partido irlandês republicano Sinn Féin, reagiu aos desacatos com declarações duras, afirmando que “grupos de homens mascarados a incendiar casas e a expulsar famílias dos seus lares não passam de um ato repugnante de covardia”, sendo “puro vandalismo”.

“O ataque em North Belfast foi hediondo e inaceitável. Mas há tentativas perigosas de explorar essa situação para visar e atacar pessoas inocentes que estão simplesmente a tentar viver, trabalhar e criar as suas famílias aqui. O racismo, a intimidação e a violência são errados onde quer que ocorram. Não pode haver desculpa nem justificação para estes ataques desta noite”, afirmou ainda, apelando “novamente à calma”.

Hilary Benn, secretário para a Irlanda do Norte do governo de Keir Starmer, também reagiu, dizendo que os distúrbios ocorridos esta noite não fizeram mais do que “apenas prejudicar as comunidades e colocar vidas inocentes em risco”. Admitindo que “as pessoas ficaram chocadas e com razão” com o ataque ocorrido na segunda-feira, Benn afirmou que “não há qualquer justificação para este tipo de vandalismo”.

A família da vítima, identificada como Stephen Ogilvie, de 44 anos, disse à BBC que os distúrbios causados “não são bem-vindos” e que “o protesto pacífico é o único caminho a seguir”. Lamentaram a tragédia, mas pediram entretanto que esta “não seja usada para dividir as pessoas ou alimentar a hostilidade”. A Irlanda do Norte, disseram os parentes de Ogilvie, tem “muitos migrantes que dão uma contribuição extremamente valiosa, inclusive no nosso sistema de saúde e no setor de hotelaria, e dependemos deles para que o nosso país funcione”.

Notícia atualizada às 17h de 10/06/2026 com declarações da família da vítima.