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(A) :: Hoje é só disto que se trata

Hoje é só disto que se trata

Surpreendentíssimo é ter sido Leão XIV o primeiro “grande” a entrar em cena com o argumento da IA: sozinho, diante da plateia do mundo. Entre a esperança e o perigo, a vantagem e a desvantagem.

Maria João Avillez
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1 Um dos factos que sem sombra de dúvida mais impacto tiveram para além dos círculos e circuitos religiosos; que maior interesse global suscitaram e maior capacidade interpelativa obtiveram em qualquer ponto cardial deste vasto mundo, foi a primeira encíclica de Leão XIV, “Magnifica Humanitas”. Título inspiradíssimo (tudo o que precisamos de voltar a ouvir dizer, para voltar a acreditar).

As reações ao texto papal, brotando instantaneamente, lembraram algumas coisas que se achavam arrumadas na memória – a antiguidade, a presença, a sabedoria da Igreja – e confirmaram outras: a permanente atenção, a vitalidade, a aguda observação do mundo que leva já dois mil anos de prática, a oferta do caminho, a escolha do bom combate.

2 Há muito que não me lembro de um feito – e efeito – planetário tão marcante: o Chefe da Igreja remando sozinho contra as marés dos tempos e ventos, mas oh! com que serenidade. E oh! com que firmeza nessa serenidade, face a um mundo atónito com o feito. E reagindo entre o amparo de que necessita e o medo que o verbo do Santo Padre interrompa ou rompa os lucrativos interesses da corrida da Inteligência Artificial.

3 Um dos pontos porém mais inesperados e até surpreendentíssimo é ter sido Leão XIV o primeiro “grande” a entrar decididamente em cena com o argumento da IA: sozinho, no centro do palco, diante da plateia do mundo. Com vigorosa lucidez e um imenso equilíbrio entre a esperança e o perigo, a vantagem e a desvantagem. Sim estava sozinho porque antes não o estivera: muitos tinham sido chamados por ele a dizer, transmitir, reflectir em voz alta.

E se seria grande a orquestra e muitos os músicos, houve um só maestro, Leão XIV. Saúde-se o maestro.

4 Claro que houve também desde há um bom ar de anos muita gente boa e séria debruçada sobre isto. Investigando e descobrindo, ao mais alto nível da ciência; avisando sobre a bondade e a maldade deste instrumento tão capaz de luz como da negritude. Onde porém quero chegar é que não foram resoluções públicas de cientistas de excelência; nem documentos de chefes políticos ou “pappers” de grandes meios económicos, quem primeiro ergueu a voz a nível global.

Foi o Papa.

5 Por isso sim, pode falar-se da coragem de Leão XIV. Deve-se. A coragem de um “Chefe” que escolheu intervir e desceu ao terreno. Depois olhou-nos de frente e propôs uma profundíssima reflexão contra a corrente de critérios hoje quase absolutos – o lucro, o interesse, a eficiência (e a sua mistificação) – deixando em troca uma simples pergunta: em que humanidade nos queremos tornar? Ou vamos consentir que nos tornem?

Repare-se ainda que enquanto a também notável encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII pode ter surgido ao mundo com algum “atraso” face ao adiantado estado de gravidade das coisas – políticas, económicas, sociais – de então, a “Magnifica Humanitas” talvez venha a tempo do discernimento para o qual fomos convidados (crentes e não crentes, obviamente).

6 Ou seja, o Chefe da Igreja foi à raiz e à natureza do que pela primeríssima vez está em causa na história da humanidade: a sua substituição pura e simples e com pressa por máquinas com mais pressa.

Foi do Vaticano que veio a indispensabilidade de saber o que queremos fazer de nós. Foi dessa Igreja de que muitos haviam desistido por achá-la irreversivelmente manchada pela indizível tragédia dos abusos; ou que outros apelidavam de fragilizada, envelhecida, irrelevante: sem visão, viço, jovens, plateias, futuro. Mas foi de “lá” que brotou a “Magnifica Humanitas” que pôs o mundo em sentido.

7 Eis o que causa espanto mas o espanto também pode produzir a graça.