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Festivais, encontros no Aqueduto, o negócio no Rato e o "portão castanho". Os pontos quentes do Uber da Droga em Lisboa

Andava por toda a cidade — e pelos arredores — em eventos musicais, festas e à porta de discotecas. Operação da PSP revela os locais onde dealer dos famosos atuava.

Pedro Raínho
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Inês Correia
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As encomendas chegavam, muitas vezes, através de uma chamada telefónica. Nuno Ricardo atendia e eram definidos o “tipo, quantidade e qualidade do produto, preços, locais, horas de entrega”, refere a sentença do tribunal que julgou o caso Uber da Droga. As conversas duravam poucos segundos e era quase sempre usada “linguagem codificada” para referir a droga: MDMA, LSD, 2C-B, cetamina e cocaína eram, ao telemóvel, referidos como “bitola”, “o normal”, “coiso”, “saquinho” ou “aquilo”.

Na investigação que conduziu durante um ano, a PSP detetou transações entre a rede do Uber da Droga e os seus clientes em, pelo menos, 19 locais diferentes. O negócio acontecia na Grande Lisboa, fosse à porta de restaurantes, junto a centros comerciais, nas principais praças da cidade, em bares na zona da Costa da Caparica, na zona de festivais ou próximo de edifícios emblemáticos da cidade. E também em casa do próprio líder da rede.

https://observador.pt/especiais/a-lista-de-clientes-vip-do-uber-da-droga-que-a-psp-apanhou-atores-um-atleta-olimpico-funcionarios-da-tap-e-concorrentes-de-reality-shows/

O Observador mostra como a rede de tráfico do dealer dos famosos se estendia por “vários locais da cidade de Lisboa” e como os encontros entre Nuno Ricardo e os seus clientes eram combinados.

Nalguns casos, essas transações ficaram registadas nas escutas que a PSP realizou aos telemóveis do Uber da Droga e do seu sócio, Leonel Nhaga — ambos condenados por tráfico de droga a 28 de maio, um com pena efetiva (Nuno Ricardo) e outro com pena suspensa.

Noutros casos, os agentes da PSP assistiram, em direto e ao vivo, à compra e venda de drogas psicadélicas. Seguiam as movimentações de Nuno Ricardo e de Leonel e estavam a poucos metros dos dealers quando estes se deslocavam até junto dos clientes para concluir o negócio.

Negócio a dois passos da esquadra do Rato

A PSP estava a seguir todos os passos de Leonel Nhaga naquele dia. Eram 15h20 de dia 23 de julho de 2024. No dia anterior, o sócio do Uber da Droga tinha recebido uma chamada de um dos seus clientes. Os detalhes do encontro ficaram definidos e, agora, Leonel estava a dirigir-se para o local. E a agenda estava preenchida naquela tarde.

Está no cruzamento da Avenida Álvares Cabral com a Rua do Sol ao Rato, mesmo nas imediações da sede do PS, em Lisboa. A esquadra da PSP no Rato fica a menos de 100 metros de onde Leonel se encontra. O sócio do Uber da Droga não dá sinais de preocupação. Parece esperar pela chegada de alguém.

[Ouça aqui o episódio do podcast A História do Dia sobre “O Uber da droga dos famosos”]

https://observador.pt/programas/a-hist-ria-do-dia/o-uber-da-droga-dos-famosos/

Cinco minutos depois, um carro aproxima-se. É um Fiat Doblò. Leonel reconhece o condutor. Leva a mão ao bolso e lá de dentro retira “embalagens de cocaína”. Passa-as ao homem que está ao volante e recebe 50 euros logo de seguida.

De acordo com a sentença, cada grama de cocaína era vendida por Nuno Ricardo e Leonel Nhaga por um valor de 50 ou 60 euros. No caso do MDMA e do LSD, cada pastilha tinha um custo que variava entre os cinco e os 10 euros. Tudo dependia do cliente que estivesse a comprar.

Negócio feito. Leonel abandona o local, tal como o cliente que acabou de o abordar.

Às 16h12, cerca de 50 minutos depois, Leonel já percorreu cerca de 1,5km e está na Calçada do Combro, quase a chegar ao cruzamento com a Rua Marechal Saldanha.

Fala com um homem, que os agentes da PSP responsáveis pela vigilância não conseguem identificar, e passa-lhe uma “embalagem” para a mão. Depois, recebe 100 euros. E saem rapidamente dali.

O encontro com o amigo que era namorado da mãe

Alguns dos encontros com clientes aconteciam em locais altamente vigiados, onde garantidamente haveria câmaras de videovigilância a gravar cada segundo daquelas interações. Mas nem Nuno Ricardo nem a mãe, Lucinda Santos — que em alguns momentos substituía o filho nos contactos com clientes —, pareciam muito preocupados com isso.

Uma dessas situações acontece na antevéspera do Natal. Era dezembro de 2023, a investigação da PSP estava em marcha há cerca de quatro meses e o dealer dirige-se a um posto de abastecimento à entrada de Lisboa.

O contacto de Nuno Ricardo nesse dia vinha ao volante de um Citroën C1. A mensagem para aquele encontro tinha sido enviada minutos antes, já depois das 22h: o contacto devia ir ter com o Uber da Droga às Amoreiras. A PSP acompanhou aquilo que acredita ter sido mais uma transação de droga. Já passava das 23h quando A. ali chegou.

Amigo de Uber da Droga foi apanhado pela PSP quando se encontrou com a mãe do dealer numa bomba de gasolina. Disse que o encontro tinha sido motivado por “motivos passionais”. E que estava naquela relação "às escondidas" do amigo.

Quase um ano depois, em outubro de 2024, há uma nova transação, mas agora é a mãe de Nuno Ricardo quem surge no radar.

Lucinda dirige-se a um posto de abastecimento em Marvila. A PSP acredita que ali foi para “entregar cocaína” a um dos clientes do filho — que era, ao mesmo tempo, amigo de infância do Uber da Droga.

Eram 20h28 quando o amigo do filho chega ao posto de abastecimento. Os dois aproximam-se, o homem retira “algo” de uma mala que trazia a tiracolo e entrega-o a Lucinda. Depois, dirige-se ao porta-bagagens e retira lá de dentro uma “embalagem branca”.

A seguir, arrancaram, cada um no seu carro.

O amigo de Nuno Ricardo foi interrogado pela PSP sobre aquela interação de outubro de 2024. À agente que o interrogou, disse que aquele encontro tinha sido motivado por “motivos passionais”. Contou que, naquele momento, mantinha uma relação amorosa com a mãe do amigo, que teria começado há bem mais de um ano. Mas que o fazia “às escondidas” de Nuno Ricardo. Estavam juntos todas as semanas, mas esses encontros nunca aconteciam em público e os dois optavam sempre por fazê-lo em “motéis”.

E quando a agente quis saber o que tinha ido fazer às traseiras do carro de Lucinda Santos, contou que tinha ali deixado um telemóvel, para que a mulher o pudesse usar em futuros contactos entre ambos.

Mas a PSP tinha uma dúvida: se aquele encontro tinha acontecido sem o conhecimento de Nuno Ricardo, então como explicava que pouco antes o amigo tivesse ligado à mãe pedindo-lhe expressamente que fosse ter com uma pessoa com o nome dele? Não soube responder. Mas garantiu não fazer ideia de que o amigo de infância se dedicava ao tráfico de droga.

Os encontros no Aqueduto

L. não sabia que morada era aquela, mas seguiu ao encontro de Nuno Ricardo. Queria comprar-lhe um grama de cocaína e não estranhou quando recebeu indicações sobre o local onde deveriam encontrar-se daquela vez.

Foi sempre assim nos três encontros que disse à PSP que tinha tido com o Uber da Droga. L. ligava a Nuno, recebia as indicações necessárias e os dois apareciam no mesmo local à hora combinada. Esses encontros, contou à PSP, eram “agenciados em vários locais da cidade de Lisboa”.

Daquela vez, a transação aconteceu junto ao Aqueduto das Águas Livres, em Campolide. Era agosto. Pagou 50 euros e seguiu viagem.

Lista de clientes era composta por várias figuras públicas. No verão de 2024, os pedidos eram demasiados para a capacidade de resposta de Nuno Ricardo. E nesse momento o Uber da Droga passou a ter um sócio.

Um mês mais tarde, Nuno Ricardo estava novamente ali. Tinha acabado de receber uma chamada de José Carlos Pereira e o Aqueduto voltou a ser o local escolhido para um encontro.

Ao telefone, o dealer questionou o ator sobre um momento de tensão em que teria estado envolvido no dia anterior. José Carlos Pereira ainda começa por explicar que se tinha tratado de um desentendimento com um segurança, mas recusava-se a dar explicações a uma pessoa naquelas funções. Rapidamente, Nuno atira: “Já falamos.”

“Ganda filme” e a passagem relâmpago pelo Camões

24 de março de 2024. 22h06. Nuno Ricardo liga para um dos seus contactos — um artista que já foi DJ residente numa das principais discotecas de Lisboa.

Nuno ia passear o cão. “Literalmente.” E queria saber onde o seu contacto estava naquele momento, para poderem encontrar-se. V. estava no Bairro Alto, mesmo junto ao Largo do Camões.

Nuno diz-lhe que vai a caminho. Volta a ligar quando estiver a subir a Rua do Alecrim. Combinam encontrar-se ali e beber “duas jolinhas”. Mas Nuno está com dificuldades — 20 minutos mais tarde, volta a ligar exasperado: a Praça do Comércio está encerrada, e há “centenas” de jovens de bicicleta a percorrer a Avenida 24 de Julho. “Um ganda filme.”

Agora, está a passar junto ao restaurante Palácio Chiado. E avisa que vai seguir de imediato para o Largo do Rato. V. está à espera junto a uma pastelaria, no Camões. Encontram-se uns minutos depois.

Sunset na Costa da Caparica

A conversa intercetada pela PSP aconteceu entre Nuno Ricardo e Leonel. O sócio do Uber da Droga tinha tido um problema com a aplicação do Uber e Nuno queria saber se ele já conseguia usar o serviço de transporte. Conseguia.

Falam ao telemóvel durante menos de 40 segundos, por volta das 19h30. Nuno dá indicação para Leonel pesquisar na aplicação em quanto ficaria uma viagem do local onde Leonel se encontrava até um bar na Costa da Caparica — era dia 16 de junho de 2024 e o beach club tinha organizado um sunset para esse final de tarde, com DJ set de música afro.

Nuno partilha a localização do espaço com Leonel e explica-lhe: era lá que estava o “Diogo” (que a investigação não chega a identificar). Leonel pergunta se Nuno quer que ele se “mude” para aquela zona, mas o Uber da Droga não toma uma decisão naquele momento.

Um grama de cocaína podia custar entre 50 e 60 euros. E uma pastilha de MDMA ou LSD podia ir dos cinco aos 10 euros. Tudo dependia de quem era o cliente.

Menos de uma hora depois, Leonel volta a ligar para Nuno Ricardo. Já estava no local que lhe tinha sido indicado e avisa: precisa urgentemente das “cenas”. Nuno tranquiliza-o: também já está a chegar ao espaço.

Concertos, discotecas, festivais — os negócios na movida de Lisboa

Na grande maioria das escutas da PSP ao Uber da Droga, há sempre um cuidado para que as conversas sejam suficientemente vagas para nunca ser absolutamente claro que o tema é a compra e venda de droga. Mas nem sempre Nuno conseguiu garantir que os clientes mantinham a discrição.

https://observador.pt/2026/06/09/nunca-fui-arguido-nem-suspeito-judoca-jorge-fonseca-nega-ligacao-ao-caso-uber-da-droga/

A 25 de agosto de 2024, o dealer liga para uma das clientes. Ainda mal tinham acabado de se cumprimentar, e ela — uma assistente de bordo e consultora imobiliária — já lhe estava a perguntar como conseguiria “fazer entrar as cenas” no festival de música em que se iam encontrar. Nuno avisa: era preciso cuidado com as conversas ao telefone.

Eventos culturais — festivais, concertos, festas — eram, aliás, um dos pontos frequentes de negócio para Nuno Ricardo.

A 19 de junho, um cliente liga-lhe: queria saber se o dealer ia a uma festa no Parque Eduardo VII. Nuno estava “enjoadinho” de festas. E, além disso, estava a guardar-se para um grande evento de música eletrónica que estava para acontecer por esses dias.

O cliente quer saber se Nuno está em Lisboa. Tinha o restaurante cheio — era chef de cozinha —, não tinha “nada” consigo e precisava de se reabastecer. Ainda por cima, queria mesmo ir ao tal evento no Parque Eduardo VII. Combinam um encontro em casa de Nuno para daí a umas horas.

Nessa mesma noite, uma outra cliente liga-lhe. Estava precisamente no mesmo evento e queria fazer uma compra. Mas eram quase 21 horas, Nuno tinha acabado de chegar a casa de um jantar, estava com o filho e não tinha como sair àquela hora. Sugere enviar Leonel Nhaga — o seu sócio, que tinha acabado de se juntar à rede liderada pelo Uber da Droga.

Ele estava na Alameda, não devia demorar muito a chegar ali. Mas, para isso, diz Nuno, a deslocação teria de “compensar”. Leonel teria de abandonar o local onde estava, fazer aquele caminho todo e, depois, voltar. A cliente não teria por ali “mais gente” interessada? Não tinha, era mesmo só ela.

As chamadas caíam às horas mais improváveis. A 17 de dezembro de 2023, o telemóvel do dealer dos famosos toca. Era 6h06 da manhã daquele domingo. O homem que lhe estava a ligar era namorado da cliente. Estava à porta de uma das mais conhecidas discotecas de Lisboa e precisava de “duas”. Mas Nuno já estava “fixo”. Tinha chegado a casa e, àquela hora, já não ia sair.

As entradas e saídas constantes pelo “portão castanho”

Durante um ano, a PSP fez dezenas de vigilâncias aos elementos da rede do Uber da Droga. Estiveram em vários dos locais da cidade — e arredores — onde Nuno Ricardo se encontrava com muitos dos clientes. E também passaram horas à porta do dealer.

Para alguns clientes, a localização que receberam no telemóvel foi uma surpresa: não conheciam a morada para onde Nuno lhes estava a pedir que se dirigissem. Numa das chamadas intercetadas, um cliente fala com Nuno ao telefone enquanto percorre a rua que o GPS lhe mostrava como o destino. O dealer ajudou: devia procurar pelo portão castanho.

Mas, em muitos casos, não eram precisas quaisquer indicações. Os clientes já sabiam onde entrar, e também nunca ficavam muitos minutos. Era entrar, recolher, pagar e sair. Entre setembro de 2023 e novembro de 2024, a PSP registou dezenas de “visitas” àquela vivenda onde Nuno vivia com a mulher e o filho. Foi ali, aliás, que a 28 de novembro os agentes responsáveis pelo caso do Uber da Droga o apanharam. Nuno tinha um jantar combinado com a família, preparava-se para sair e foi surpreendido pela operação da Divisão de Investigação Criminal.

Não resistiu à detenção. No final de maio, foi condenado a cinco anos e meio de prisão efetiva. O sócio foi condenado a quatro anos e meio de prisão com pena suspensa. E a mãe, o terceiro elemento do grupo, foi condenada a quatro anos e três meses, também com pena suspensa.