“Não sou fã dele.” A vice-ministra dos Negócios Estrangeiros de Israel, Sharren Haskel, distanciou-se publicamente do ministro da Segurança Nacional israelita e líder de um dos partidos ultra-ortodoxos do Governo, Itamar Ben-Gvir — que publicou vídeos onde protagoniza um tratamento humilhante de membros da flotilha Global Sumud Flotilla, o que levou à condenação de vários países europeus, incluindo Portugal.
Num encontro no Ministério dos Negócios Estrangeiros israelita em Jerusalém com jornalistas estrangeiros, onde o Observador esteve presente, a ministra do partido Nova Esperança (fundado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Gideon Sa’ar), um partido de centro-direita que faz parte dos aliados de Benjamin Netanyahu no Governo de Israel, deixou clara a sua discordância face às ações do colega, que disse não representarem todo o Executivo.
“O que faz ou diz Itamar Ben-Gvir não é a nossa política. O que ele pensa e faz é diferente do que é decidido pelo primeiro-ministro e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros”, salientou a número dois de Gideon Sa’ar, apesar de Ben-Gvir ter a pasta da Segurança Nacional. “Eu não sou fã de Ben-Gvir. Discuto com ele no Governo praticamente todos os dias. E digo isto claramente, porque o Governo israelita não fala a uma só voz. A nossa política é muito clara”, declarou a diplomata, que referiu que o Executivo de Israel “não quer criar atenção mediática” em redor de iniciativas como a flotilha, ao contrário de Itamar Ben-Gvir.
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A vice-ministra descreveu ainda a política israelita como “muito diferente” da europeia. “Na Europa, quando um primeiro-ministro está num Conselho de Ministros e decide uma coisa, todos dizem o mesmo, mesmo que pensem diferente. Em Israel, é diferente. E isso faz parte da política israelita.” Para reforçar essa ideia, a vice-ministra lembra que os membros ultraortodoxos que fazem parte do Governo de Benjamin Netanyahu — onde se inclui Ben-Gvir — criticam “80% das decisões” que são tomadas pelo Executivo.
“Nós filmámos toda a viagem [da entrada dos soldados das IDF nos barcos da flotilha] para mostrar que os tratámos adequadamente, mesmo que sejam criminosos e que sejam apoiantes terroristas do Hamas. Mesmo que não tivessem ajuda humanitária a bordo e mesmo sem saber se tinham armas”, afirmou a vice-ministra, que criticou a imprensa internacional por ter “dois pesos e duas medidas” e não ter “investigado” as ações das polícias europeias que detiveram tripulantes da flotilha em países como Espanha ou Áustria.
Num tom também crispado, a vice-ministra não deixou de criticar o chefe do Governo espanhol, que acusou de ser um “apoiante do terrorismo comunista” e do “regime fanático iraniano”. Para Sharren Haskel, Pedro Sánchez está a “destruir Espanha”: “Está a criar um problema de segurança muito maior do que se possa imaginar”, avisou.
Relação entre Trump e Netanyahu em crise? Vice-ministra nega
As críticas recentes do Presidente norte-americano ao primeiro-ministro israelita não incomodam a diplomata. Sharren Haskel acredita que Benjamin Netanyahu e Donald Trump “continuam a ter uma relação muito próxima” e são “fortes aliados” que “falam todos os dias, às vezes várias vezes e por muito tempo”: “Eles falam de forma honesta e o Presidente Trump é conhecido por ser muito honesto”. “Eles são bons amigos”, garantiu a vice-ministra.
A governante concedeu que existem temas em que os dois líderes nem sempre estão de acordo, mas isso é “mantido entre eles” e em segredo: “Eles não precisam de escrever mensagens nas redes sociais. A relação e a amizade [entre Israel e os Estados Unidos] é mais forte do que nunca”, descreveu.
Interrogada sobre a possibilidade de um acordo entre os Estados Unidos e o Irão, Sharren Haskel vê como muito improvável que aconteça. “Eu acho que [os iranianos] não estão dispostos a fazer compromissos. Acho que quanto mais tempo durar esta situação, mais pressão vai ser exercida sobre o Irão. O tempo vai acabar por favorecer os Estados Unidos, porque está a ser criada uma enorme pressão económica no Irão“, sustentou.
Em relação à economia iraniana, a vice-ministra assinalou que existe um “fardo” sobre o regime iraniano. “Muitos dos salários dos membros da Guarda Revolucionária não estão a ser pagos e começaram já a recrutar pessoas do Afeganistão e do Paquistão para policiar as ruas, porque são incapazes de pagar à própria população”, alegou Sharren Haskel, que enfatizou também que existe uma “seca profunda” no Irão, que vai acabar por prejudicar o regime. “O tempo está do lado dos Estados Unidos.”
Sobre a Europa, Sharren Haskel manifestou opiniões bastante mais negativas. As críticas tecidas a Israel pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, foram “muito desapontantes”, assim como os comportamentos do líder do Governo britânico, Keir Starmer, que também classifica como “dececionantes”, principalmente por Londres ter recusado fazer parte da ofensiva contra o Irão dos Estados Unidos e de Israel.
“A Europa parece um espectador. Não desempenha qualquer papel. Apenas pede aos Estados Unidos para entrar em guerras, como na Ucrânia, para a qual são incapazes de enviar as suas tropas”, apontou. A vice-ministra identifica uma “doença” nos países europeus, falando em “ódio à própria cultura, aos próprios valores, à tradição de liberdade, democracia, direitos das mulheres e liberdade religiosa”.
Sobre a guerra na Ucrânia e o apoio a Kiev no conflito, a vice-ministra apenas declarou que Israel, desde o início do conflito, “declarou e mostrou o apoio à Ucrânia”. “A nossa política não mudou. Temos dado apoio à Ucrânia de formas diferentes e ainda é assim hoje”, rematou.
Haskel acusa secretário-geral da ONU de ser “cúmplice” de terroristas
Questionada sobre a relação crispada que Israel tem mantido com o secretário-geral das Nações Unidas, Sharren Haskel não poupou nas palavras sobre António Guterres: “Será lembrado na História como alguém que foi cúmplice e colaborou com organizações terroristas.” Num tom exaltado, a diplomata acusou Guterres de “trair as mulheres” do país: “recusou condenar completamente” a “violência sexual como ferramenta de guerra contra as mulheres e crianças” israelitas, sentenciou.
Sharren Haskel lembrou conversas que teve com Guterres, referindo que o secretário-geral desvalorizou os casos de violência sexual por militantes do Hamas relatados por mulheres israelitas. “E depois ele coloca as Forças de Defesa de Israel [IDF] na lista negra?”, questionou a vice-ministra, referindo-se ao facto de a Organização das Nações Unidas ter colocado Israel nessa categoria no final de maio deste ano, por atos de violência sexual em zonas de conflito.
“É uma vergonha. As forças da ONU tiveram mais de 700 casos de violência sexual nas suas próprias forças e ele teve a coragem de colocar as IDF na lista negra?”, continuou a vice-ministra, acusando António Guterres de ignorar os apelos de Israel para rever as acusações que lhe são imputadas. Sharren Haskel assinalou que atualmente Israel “não tem grandes expectativas das Nações Unidas”.
Na opinião da vice-ministra, as “forças radicais islâmicas” têm usado a ONU como uma “ferramenta política” para prosseguir os seus fins políticos. “Infelizmente, esta organização que foi criada para proteger os mais desfavorecidos traiu os seus valores e a sua missão inúmeras vezes. Adotou uma abordagem única de apoio ao lado radical islamista”, enfatizou Sharren Haskel, frisando que as Nações Unidas “não precisam de provas” para condenar Israel quando se ouve uma “acusação” contra o país.
O Observador viajou para Israel a convite da European Jewish Association