Escrever sobre feminismo sem repetir o catecismo aprovado é, nos dias de hoje, um desporto de alto risco. Não por falta de argumentos, mas porque a nova ortodoxia funciona exactamente como as antigas: quem discorda não está errado, está doente; ou, na versão actualizada, é um privilegiado, “melhor” ainda, é fóbico. Ou simplesmente cancelado, que é a versão moderna da fogueira da caça às bruxas.
Pois bem. Vamos arriscar.
Há uma ironia magnífica no centro do feminismo contemporâneo dominante que os seus sacerdotes parecem ter decidido ignorar em uníssono. O movimento que diz defender as mulheres é o mesmo que, a sério, recusa defini-las. Quando a juíza Ketanji Brown Jackson, durante a sua audiência no Supremo Tribunal americano, declarou não poder definir “mulher” porque “não é bióloga”, não estava a ser cuidadosa. Estava a ser reveladora. Se não conseguimos definir o sujeito, como defendemos os seus direitos?
Olympe de Gouges, em 1791, escreveu a Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne sabendo muito bem o que era, e o que queria. Foi decapitada pela mesma Revolução que prometia libertar todos os homens e isto devia dizer-nos algo sobre o que acontece quando as mulheres entregam a sua emancipação a ideologias totalizantes.
A jurista americana Erika Bachiochi, no seu rigoroso The Rights of Women (2021), coloca o dedo na ferida com uma elegância que os seus críticos nunca lhe perdoaram: ao abraçar o aborto como uma condição sine qua non da igualdade, o feminismo moderno não libertou as mulheres, adaptou-as antes para um mercado de trabalho desenhado por e para homens sem responsabilidades familiares. A revolução, afinal, consistiu em pedir à mulher que fingisse não ter corpo. Algo que seria conveniente para toda a gente, excepto para ela.
É aqui que a ironia se torna quase cómica. As herdeiras de Simone de Beauvoir que se acham subversivas; são, na prática, o departamento de recursos humanos mais eficaz do capitalismo tardio. A tal mulher “liberta” trabalha catorze horas, terceiriza os filhos e adia o que o seu corpo lhe pede; num mergulho à superfície nas águas tépidas da emancipação. Mary Eberstadt, em Adam and Eve after the Pill (2012), fez as contas aos escombros desta “libertação” e concluiu, com dados, a existência de mais divórcios, mais solidão e mais ansiedade.
Mas o capítulo mais sombrio desta história não é o que aconteceu às mulheres adultas, mas o que está a acontecer às adolescentes. Abigail Shrier documentou em Irreversible Damage (2020) uma geração de adolescentes empurrada por algoritmos e por adultos irresponsáveis para a negação do próprio corpo. Há algo de profundamente perturbante nas ideologias que ensinam a uma criança saudável que o seu corpo está errado.
Elizabeth Fox-Genovese, que ajudou a fundar os primeiros departamentos de Estudos das Mulheres nos Estados Unidos e viu o monstro crescer por dentro, teve a lucidez, e a coragem de expôr o feminismo contemporâneo como uma ideologia burguesa que serve as mulheres ricas que podem pagar a outros para criarem os seus filhos e nas tarefas domésticas. Para a mulher que trabalha, que também ama e que constrói uma família com o que tem, este feminismo nunca teve uma palavra que prestasse. Tinha, na verdade, muita teoria opressiva.
“Ninguém te pode fazer sentir inferior sem o teu consentimento.” Uma frase de Eleanor Roosevelt, em 1960, que hoje nenhum activista contemporâneo se atreveria a dizer sem reservas ou pudores. Hoje chamar-lhe-iam de reaccionária, mas na altura, foi vista simplesmente como uma mulher com espinha dorsal.
O que todas estas mulheres tinham em comum e que as distingue das suas supostas herdeiras, é que não precisavam de teoria alguma para se reconhecer ao espelho. Não pediam ao Estado que as validasse na sua identidade e existiam com toda a força e toda a contradição que isso implica: mães e filósofas, crentes e rebeldes, enraizadas e, de certa forma, livres. Foram mulheres concretas, históricas e carnais; contrastantes com a abstracção de género que hoje ocupa o seu lugar nos manifestos.
A resposta mais moderna, mais descontraída e, francamente, mais provocadora que uma mulher pode dar à histeria ideológica do nosso tempo é, no fundo, muito simples: ter a coragem de ser normal. Ter a audácia de saber de onde vem sem precisar de pedir desculpa pelo que é.
As mulheres improváveis existiram sempre. Existiram apesar dos impérios, das revoluções e das ortodoxias — incluindo esta. Existirão depois dela também.
E isso, afinal de contas, não será a prova mais antiga da sua força?