Chega agora ao fim o tempo de reorganização interna do PS, com eleições nas estruturas do partido, dentro de uma semana, por todo o país. O processo não se encerra, contudo, sem alguns focos de polémica: uma acusação de “pagamento massivo de quotas”, cinco federações com lutas pelo poder (uma delas a três) e outras onde ele muda de mãos de forma menos contestada. A direção tentou o apelo à paz, pela imagem pública de um partido que dispensa turbulência, mas, mesmo com pouco poder para distribuir neste ciclo, as disputas pelas estruturas nunca desaparecem. Já é menos visível o uso destas eleições como ensaio geral para o pós-Carneiro, com correntes a consolidar poder na máquina para um eventual desafio futuro à liderança. Mas isso dá um passe seguro a José Luís Carneiro até 2029?
São eleições para um mandato de dois anos em que, previsivelmente, não há legislativas nem autárquicas e, por isso mesmo, não há lugares em listas para disputar, cargos para negociar ou prémios imediatos para quem controla a máquina. Mas é nestes aparentes vazios que, muitas vezes, as lógicas de futuro começam a borbulhar – que o digam António José Seguro ou Pedro Nuno Santos, exemplos de socialistas que muitos outros recordam por terem procurado controlar estruturas e colocar peões bem antes de chegarem ao poder.
Certo é que, mesmo com toda essa antecipação, nenhum desses dois chegou ao objetivo de liderar um Governo e, no caso de Seguro, acabou apeado por António Costa que não tinha feito a internamente conhecida por “volta da carne assada”, essa preparação prévia do terreno à mesa de almoços e jantares pelo país. Ou seja: montar máquina com antecedência não garante a chegada ao topo, e não o fazer também não dá a nenhum líder garantias de tranquilidade no lugar.
“Não há ninguém com máquina montada. E quem quisesse, tinha de começar agora”, ouve o Observador de um dirigente socialista conhecedor desta lógica partidária. “Zero”, reforça outro que afasta qualquer possibilidade de leituras nacionais do que se está a passar no país socialista por esta altura: “As disputas que existem são por questões locais”, reforça a mesma fonte. A julgar pelo que se perfila para as eleições nas federações do PS da próxima sexta-feira e sábado, essa lógica não está, por agora, à vista, ainda que sejam significativas as alterações de liderança previstas: ao todo são dez, mais de metade.
Em 19 federações a votos, em cinco há disputa entre mais do que um candidato. Em Braga, a luta é entre dois vimaranenses: Ricardo Costa e Sérgio Castro Rocha; em Bragança, Júlia Rodrigues e Bruno Veloso tentam ficar com a liderança socialista; em Coimbra, há uma tripla em jogo: Pedro Coimbra quer regressar ao lugar onde já esteve e enfrenta nessa corrida Américo Batista e Victor Batista, outro regresso; em Vila Real, Rui Santos vai ter, desta vez, o desafio de Ricardo Almeida; em Viseu, Lúcia Araújo desafia o atual líder distrital Armando Mourisco.
Mas também vai haver novos líderes socialistas noutras paragens, embora com candidaturas únicas — era uma preferência do partido nesta altura, evitar divisões que pudessem dar a imagem de um PS perdido e fatalmente abalado depois das últimas legislativas. Será assim no caso de Hugo Pereira, que vai suceder a Luís Graça no Algarve; Marcelo Guerreiro, que quer ir para o lugar até agora ocupado por Nelson Brito, no Baixo Alentejo; João Grilo que se candidata a Évora para suceder a Luís Dias; Tiago Teotónio Pereira que é candidato ao atual lugar do deputado Luís Testa, em Portalegre; Luís Nobre, que vai seguir-se a Vítor Pereira, em Viana do Castelo. Nas restantes nove federações não haverá mudanças.
O essencial da estrutura federativa do PS já vinha da era de Pedro Nuno Santos e vários dos seus antigos aliados vão permanecer no mesmo lugar. No Porto, uma das maiores e por isso mais influentes federações socialistas do país, Nuno Araújo mantém o controlo. O ex-deputado e diretor de campanha de Pedro Nuno recandidata-se sem oposição e a sua força interna é tal que José Luís Carneiro não terá gostado de o ver subscrever uma moção crítica da sua liderança no último congresso — assinada à cabeça por Miguel Costa Matos e Pedro Costa, dois elementos próximos de Duarte Cordeiro (um dos nomes mais falados para o pós-Carneiro).
Nessa altura, a tensão não ficou apenas por aí: houve braço de ferro na composição da lista à Comissão Nacional. O líder terá tentado indicar, pela quota nacional, um terço dos nomes do Porto para o órgão máximo entre congressos, mas esbarrou na resistência do presidente da federação, que acabou por conseguir impor a sua posição.
Também em Aveiro ficará Hugo Oliveira, deputado e outro quadro próximo de Pedro Nuno Santos. O mesmo acontece com André Pinotes Batista, que volta a candidatar-se sozinho em Setúbal, e com Gonçalo Lopes, presidente da Câmara de Leiria e do PS no distrito, que pretende manter-se. São todos nomes relevantes no apoio a Pedro Nuno logo em 2023, quando este se candidatou à liderança do partido tendo precisamente José Luís Carneiro como adversário. O pedronunismo ruiu nas legislativas de 2025, seguiu-se Carneiro e uma estratégia de “tentativa de aglutinação” do que já estava instalado – apostou mais na reciclagem da máquina do que na rutura.
“José Luís Carneiro foi inteligente, fez dos dele seus”, resume um dirigente ao Observador sobre o perfil do atual líder. “Tenta agradar a toda a gente”, reforça outro que aponta a distribuição de cargos e as sucessivas tentativas de Carneiro de incluir membros da direção anterior nos órgãos do partido. Essa tática de integração teve, no entanto, um episódio de fricção mais visível quando Duarte Cordeiro recusou integrar a Comissão Política do partido, precisamente por sentir que Carneiro estava a usar essa inclusão para vincular socialistas que o criticavam às suas posições.
https://observador.pt/2026/04/19/duarte-cordeiro-quer-ficar-menos-comprometido-com-lider-do-ps-e-ter-mais-liberdade-para-discordar/
Nessa altura a marcação de Cordeiro tornou-se palpável, mas entre socialistas acredita-se cada vez menos num avanço à António Costa, ou seja, um dirigente aguardar taticamente pelo melhor momento para investir sobre a liderança poupando-se a uma desgastante oposição. Seja qual for o objetivo e o seu prazo, a antiga estratégia de alguns antigos líderes de posicionar já os seus no terreno não está, desta vez, a fazer caminho.
Entre alguns elementos afetos a uma futura candidatura de Cordeiro, a leitura passa frequentemente pela convicção de que a estrutura de Pedro Nuno rapidamente viraria para Duarte Cordeiro, em caso de necessidade. Afinal os dois eram muito próximos, faziam parte do mesmo grupo e da mesma geração no PS. Os laços com quem hoje lidera estruturas e, sobretudo, autarquias, são naturais, antigos e, por isso mesmo, facilmente mobilizáveis num apoio. Mas acima de qualquer lógica de medição de força interna parece agora imperar outra, bem mais pragmática: é difícil desafiar um líder à frente das sondagens, sobretudo depois do grande susto de 2025, com o PS a cair para terceira força no Parlamento.
“Os ativos com que podiam contar nem estão na política”, aponta um dirigente em conversa com o Observador quando é posto perante o exemplo de 2014 e a investida costista sobre Seguro. Nomes como Fernando Medina ou Duarte Cordeiro estão, atualmente, afastados da política ativa (apesar de manterem comentários televisivos), enquanto Costa era, na altura em que desafiou Seguro, presidente da Câmara de Lisboa há sete anos. “Pode até haver vontade em Lisboa, mas isso não tem colagem nas bases”, comenta a mesma fonte que reforça que “as pessoas estão assustadas com o que aconteceu ao Pedro Nuno Santos e não estão disponíveis para trocar o certo pelo incerto”.
Para já, entre a herança de máquina e a memória fresca do desastre, o PS parece ainda mais em modo sobrevivência do que em modo sucessão.
Disputas mais acesas
O próximo fim de semana pode não trazer a tal preparação para o futuro, mas nem por isso deixa de trazer algumas disputas mais acesas, que já motivaram reações e inquietações internas. Em Coimbra, a disputa a três já envolveu uma carta ao secretário-geral assinada pelo militante número três do PS, António Campos, a denunciar “pagamento massivo de quotas em determinadas secções e concelhias, casos havendo de aumentos de pagamentos na ordem dos 300%” e “afirmações sigilosas de camaradas que assumem que lhes pagaram as referidas quotas, e que apenas receberam telefonemas a indicarem onde votar”, o que demonstra “o fenómeno de adulteração das eleições”.
A carta é assinada também por um dos candidatos à federação de Coimbra, Américo Batista (que rompeu com a anterior estrutura federativa liderada por João Portugal), e pede à direção nacional que suspenda as eleições e que faça uma participação ao Ministério Público. Esta terça‑feira, nos Açores, o líder foi questionado sobre o caso, mas recusou responder, limitando‑se a dizer que são “assuntos do foro interno e da Jurisdição Nacional”. Os subscritores ponderam mesmo avançar com uma providência cautelar para travar as eleições em Coimbra, contestando também a regularidade dos cadernos eleitorais: alegam que militantes com dois anos de quotas em atraso perderam direitos eleitorais e só os recuperariam ao fim de 60 dias, já depois destas eleições internas.
As polémicas a envolverem estas eleições não ficam por aqui. Em Braga, Ricardo Costa, vereador da Câmara Municipal de Guimarães, e Sérgio Rocha, o ex-presidente do conselho de administração da empresa municipal Vitrus e ex-presidente da Junta de Freguesia de Ponte, disputam a liderança, com o primeiro a ser apontado como melhor colocado para uma vitória. Mas a candidatura de Ricardo Costa foi ensombrada pela recente reportagem da RTP que revelou que, enquanto deputado, o socialista terá mentido para comprar a baixo custo um terreno, em Ribeira de Pena, com o argumento de que seria para plantar canábis medicinal. Ricardo Costa garantiu à autarquia de Ribeira de Pena que tinha um pré-licenciamento do Infarmed que a instituição negou ter dado. Ricardo Costa negou irregularidades e notou que “esta notícia surge em contexto de eleições internas na Federação Distrital de Braga do Partido Socialista”, como quem diz que é uma manobra eleitoral.
Com menos polémica, mas a prometer uma disputa renhida até ao fim, surge o frente‑a‑frente de Bragança entre Júlia Rodrigues, deputada e ex‑autarca de Mirandela, e Bruno Veloso, vice‑presidente da Agência para a Energia, que já se candidatara à federação em 2022, perdendo então para Berta Nunes. Trata‑se de uma federação pequena, onde chegaram a estar em cima da mesa estes dois candidatos e ainda o atual presidente, Benjamin Rodrigues — politicamente fragilizado depois de perder a Câmara de Macedo de Cavaleiros ao fim de oito anos — que acabou por não avançar.
Em Viseu, o deputado e atual presidente da federação distrital, Armando Mourisco, é desafiado pela antiga deputada e ex‑líder da concelhia de Viseu, Lúcia Araújo. Ambos têm proximidade ao atual líder socialista. Em Vila Real, a luta é entre duas gerações: Rui Santos, atual líder da federação – cargo que já tinha ocupado no passado, tendo também sido presidente da Câmara de Vila Real durante 12 anos – enfrenta agora Ricardo Almeida. Há dois anos, Ricardo Almeida já se tinha posicionado para este desafio, mas recuou numa fase em que se multiplicavam os apelos à unidade interna.
Nestes combates, a direção socialista garante que não quis interferir e que não procurou impor candidaturas únicas, mas, no círculo de José Luís Carneiro, reconhece‑se a necessidade de “preservar a imagem do partido” nesta altura, evitando que as disputas distritais alimentem a ideia de um PS em guerra consigo próprio. Também se sabe que uma renovação de linhas mais generalizada poderia significar uma oportunidade para Carneiro poder colocar peões em sítios-chave, mas a prioridade parece ser outra: sobreviver sem ondas e sobretudo sem acordar lutas internas, mais do que arriscar para consolidar poder.