Nas entrevistas que tem vindo a dar por ocasião da estreia do seu novo filme, O Dia da Revelação, Steven Spielberg tem afirmado a sua crença na existência de vida extraterrestre e nas visitas ao nosso planeta de alienígenas tecnologicamente superiores a nós. Apesar de nunca ter visto um OVNI, o que gostava muito que acontecesse, Spielberg diz acreditar que “o universo fervilha com vida”, adiantando mesmo a hipótese de que aquilo que julgamos ser criaturas de outros planetas e galáxias, “poderem sermos nós, meio milhão de anos no futuro”, e que assim regressamos à Terra do nosso passado.
[Veja o “trailer” de “O Dia da Revelação”:]
https://www.youtube.com/watch?v=SCYT8vb2siQ
Em O Dia da Revelação, Spielberg quer partilhar a sua crença de que não estamos sozinhos no universo. E se aqueles que também acreditam nisso decerto sairão do filme reforçados na sua fé, os cépticos continuarão a sê-lo. E ficarão ainda muito decepcionados com o realizador, do ponto de vista estritamente cinematográfico. É que, além de repisar os lugares-comuns mais barbudos da ovnilogia de babar na gravata, e as teorias da conspiração mais estafadas e atontadas sobre a ocultação oficial da existência de extraterrestres, e do contacto com estes, O Dia da Revelação é uma fita de onde se ausentaram para parte incerta o sentido de maravilhamento e do espanto, a limpidez narrativa e a capacidade de arrebatamento emocional do realizador, levadas ao seu expoente máximo precisamente em filmes aparentados com este, como Encontros Imediatos do Terceiro Grau e E.T.: O Extraterrestre.
[Veja uma entrevista com Steven Spielberg:]
https://www.youtube.com/watch?v=fW73jP8RolM
O Dia da Revelação parece um Encontros Imediatos do Terceiro Grau virado do avesso, pessimista, sinistro, complicadíssimo e com presunções teológico-messiânicas, em que foi enxertado um enredo ao estilo dos de M. Night Shyamalan. Josh O’Connor interpreta um génio da matemática e perito em cibersegurança, e o potencial criador do WikiLeaks de alienígenas; Emily Blunt faz uma apresentadora da meteorologia num canal de televisão regional que de súbito começa a falar em línguas e a ter dotes divinatórios; e Colin Firth é o director da Wardex, uma empresa que guarda segredos que a personagem de O’Connor quer, com a ajuda de um grupo de dissidentes daquela, tornar públicos, e que causarão uma comoção a nível planetário, ou mesmo uma revolução. Enquanto isso, o mundo está à beira da III Guerra Mundial.
[Veja uma entrevista com Josh O’Connor e Emily Blunt:]
https://www.youtube.com/watch?v=Q6sRzKycbZY
Sob todo o seu contorcionismo narrativo e espavento de encenação, que fazem o filme enredar-se na sua própria complicação, tornar-se mais e mais opaco ao querer manter-se misterioso pelo máximo de tempo possível, e perder o norte ao que quer contar, está uma história que expõe o catálogo dos clichés mais esfarrapados, infantis e exaustos da ficção científica televisiva e cinematográfica de temática ovnilógica. Desde a grande conspiração de origem estatal (agora em parceria com a iniciativa privada) para ocultar as provas de existência extraterrestre, até ao “incidente de Roswell”, à interacção entre humanos e visitantes galácticos, e às “mensagens” deixadas nos círculos das searas, tudo vem picar o ponto em O Dia da Revelação.
[Veja imagens da rodagem do filme:]
https://www.youtube.com/watch?v=eGjQp-8W_2k
A preguiça de puxar pela imaginação por parte de Spielberg e do argumentista David Koepp é tanta, que até os extraterrestres do filme são à medida dos estereótipos cartoonescos que atingiram o cúmulo do ridículo no célebre logro da pretensa autópsia a um alienígena morto no citado “incidente de Roswell”, tal como foi perpetrado no filme Alien Autopsy, em 1995. E o alienígena-mor que aparece no clímax é tão falho de credibilidade na aparência e no comportamento, que faria corar de vergonha alheia o falecido Carlo Rambaldi, o criador de E.T. Quanto à tecnologia não-humana, ficamo-nos por um aparelho que projecta as pessoas no espaço, e um artefacto multiusos, uma espécie de canivete suíço alienígena cujo funcionamento nunca é explicado.
Como se tudo isto não bastasse, também não sentimos, visual, estilística, imaginativa ou emotivamente, a presença de Steven Spielberg – tirando talvez a sequência em que o carro dos protagonistas é colhido e arrastado pelo comboio. O espectador nunca chega a ficar surpreendido, boquiaberto, maravilhado, como sucede às personagens face à grande revelação que é feita para todo o planeta no final colectivo. Este anonimato formal tem eco na apagadíssima banda sonora de John Williams, que se limita a ser papel de embrulho musical, sem um tema, um momento, um motivo que sobressaia e se instale no ouvido. O Dia da Revelação é uma decepção de proporções intergalácticas, um colossal desencontro imediato do terceiro grau.