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(A) :: Talibãs abrem fogo sobre manifestantes em Herat após detenção de dezenas de mulheres por "hijab inadequado"

Talibãs abrem fogo sobre manifestantes em Herat após detenção de dezenas de mulheres por "hijab inadequado"

Duas pessoas foram mortas, várias ficaram feridas e dezenas, incluindo mulheres e raparigas, foram detidas. Polícia da moralidade nega e diz que uso de burka é "mandamento divino".

Margarida Vieira dos Santos
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Mais de uma centena de pessoas saiu, esta terça-feira, às ruas de Herat, no oeste do Afeganistão, para protestar contra uma recente vaga de detenções de mulheres acusadas de violar o código de vestuário obrigatório. Em resposta ao protesto, os talibãs abriram fogo e agrediram vários manifestantes, provocando vários feridos e levando à detenção de dezenas de pessoas, entre as quais mulheres e raparigas. Algumas testemunhas, segundo a BBC, afirmam que pelo menos duas pessoas morreram.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram manifestantes a entoar slogans como “Pão, Trabalho e Liberdade” e “Educação” e ainda um grupo de talibãs a agredir brutalmente um jovem, enquanto outro membro do grupo persegue e dispara contra várias pessoas que tentavam fugir por um beco.

Na semana passada, as autoridades locais de Herat endureceram ainda mais as leis de vestuário, tornando obrigatório o uso da burka, que cobre o corpo inteiro, incluindo o rosto. Desde então, segundo uma investigação da organização Femena, “pelo menos 48 mulheres foram raptadas em plena luz do dia” pelos talibãs em Herat, sob o pretexto de usarem um “hijab inadequado”.

“Chamo-lhe rapto porque os talibãs não são um governo legítimo e não possuem um sistema legal justo”, explicou Zubaida Akbar, diretora do programa da organização no Afeganistão, em declarações ao El País. “Não é a primeira vez que os talibãs raptam grupos de mulheres na rua, obrigam-nas a entrar em veículos e mantêm-nas em cárcere privado, sem permitir que entrem em contacto com as suas famílias”.

Uma testemunha afirmou ao jornal afegão Hasht-e Subh que, assim que a lei foi emitida na passada sexta-feira, a polícia da moralidade começou a patrulhar as ruas de Herat em busca de mulheres afegãs sem burka para as prender. Segundo o relato, várias foram espancadas e atiradas à força para dentro de carros e uma mulher idosa chegou mesmo a desmaiar com medo.

“O uso de burka é um mandamento divino, uma lei que somos obrigados a cumprir”

Sayed Masoud Hosseini, porta-voz da polícia de Herat, afirmou à agência noticiosa estatal Bakhtar que a concentração de pessoas “gerou tensões” e perturbou a ordem pública sob o pretexto de contestar o uso do hijab, escreve a Reuters.

“As informações divulgadas sobre as mulheres presas em Herat são apenas boatos”, declarou em comunicado o Ministério da Virtude e do Vício do Afeganistão, que controla a polícia da moralidade, citado pela AP. “O uso de burka é um mandamento divino, uma lei que somos obrigados a cumprir”.

Entretanto, Richard Bennett, o Relator Especial da ONU para o Afeganistão, condenou “o uso excessivo da força contra manifestantes aparentemente pacíficos” em Herat e afirmou que os responsáveis ​​pela violência devem ser responsabilizados. “É tempo de diminuir a tensão, respeitar a liberdade de expressão dos cidadãos, especialmente das mulheres e raparigas, e evitar mais danos”, escreveu na rede social X.

https://twitter.com/SR_Afghanistan/status/2064254959617511641

Também a Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão afirmou, numa publicação no X, que as detenções e prisões de mulheres em Herat por alegadas violações do código de vestuário levantam “sérias preocupações em relação aos direitos humanos”.

Os protestos são raros no Afeganistão, governado pelos talibãs desde 2021. Em Herat, segundo o Hasht-e Subh, as mulheres usam tradicionalmente o “manteau islâmico“, um casaco que cobre os braços e as pernas até abaixo dos joelhos, juntamente com um véu que lhes cobre o cabelo e o pescoço.

Na sequência das rusgas pela polícia da moralidade e da vaga de detenções, a presença de mulheres afegãs nas ruas da cidade diminuiu drasticamente nos últimos dias, segundo testemunhas citadas pelo jornal.