Maria Rueff chega antes da hora marcada. À porta do Teatro Maria Matos, em Lisboa, cumprimenta quem passa, sorri para a equipa do teatro e mistura-se sem reclamar para si a atenção que, inevitavelmente, atrai. Há figuras que ocupam uma sala pela voz, Rueff fá-lo pela presença. Pequena de estatura, mas gigante no imaginário coletivo, é uma das raras artistas que atravessaram várias gerações. Desde que nos entrou televisão adentro no universo criado por Herman José, ajudou a redefinir a linguagem da comédia portuguesa com mérito próprio. Fê-lo sem espalhafato, sem o protagonismo ansioso de quem procura o centro do palco, mas com inteligência, versatilidade e rigor. A comédia pode ser um dom, como dirá mais adiante, mas dá trabalho — sobretudo quando se é mulher.
Encontramo-la no teatro lisboeta onde apresentará a partir de dia 15 de junho A Gorda, monólogo que adapta o romance homónimo de Isabela Figueiredo, um livro “punk”, como descreve, sobre vários temas que lhe tocam, entre eles a autoestima de uma mulher. Durante quase uma hora com o Observador, Maria Rueff fala com a mesma rapidez de raciocínio que exibe em palco, articulando ideias complexas sem perder a clareza. A conversa parte da peça — um texto sobre identidade, corpo, memória e pertença — mas rapidamente se alarga a temas que atravessam a sua própria trajetória: o lugar das mulheres na comédia, os limites da liberdade de expressão, a censura aos humoristas e a vulnerabilidade de uma profissão onde, cada vez mais, se trabalha com a sensação de ter a cabeça a prémio. Numa época em que o riso parece simultaneamente necessário e suspeito, Maria Rueff continua a fazer aquilo que sempre fez melhor: observar o país e devolvê-lo ao público. Com lucidez, inquietação e muita graça.

Descreva-me o seu encontro com o livro A Gorda (2016, Caminho), de Isabela Figueiredo, que já não é novo.
É uma coisa muito bonita. Li o livro mal saiu, porque estou sempre atenta a uma escrita com sentido de humor. Tocou-me profundamente, porque também nasci em Moçambique e, portanto, já vinha embalada com o Caderno de Memórias Coloniais (2015). Fiquei absolutamente surpreendida, porque o livro tem um lado punk, mas tem outro lado emotivo, poético e, sobretudo, um tema que me toca muito que é o trabalhar da autoestima de uma mulher. É uma mulher que foi vítima de bullying, que teve desgostos de amor, mas que os foi superando, e com fraturas, de alguma forma, semelhantes à minha.
Depois, há uma geração não tratada de quem veio das ex-colónias, que são de esquerda, isto é, que eram contra a guerra colonial, que eram contra o regime de Salazar, que eram a favor da independência das colónias, que todos os anos descem a Avenida da Liberdade no 25 de Abril e que foram vítimas na altura, quando vieram, estigmatizadas por serem retornadas. Foram vítimas durante muito tempo, porque sempre que se diz “nasci em Moçambique” as pessoas consideram ou fascistas ou… E depois foram vítimas em algumas zonas no outro extremo, quando o wokismo… As tais atitudes intolerantes, porque é tudo rotulado e também são estigmatizadas. Voltando ao país onde nasceram, no meu caso e da Isabela, também são de alguma forma considerados traidores. Portanto, tenho essa irmandade de alma com a Isabela, de ser de uma espécie de terra de ninguém.
Partilham esse cinzento.
Exatamente. Às vezes há uma certa leviandade a olhar sobre pessoas que ainda estão vivas e que transportam dores fortíssimas. Esta tal gordura [que é abordada no livro], que na Maria Luísa resultou em gordura, é uma fome que nasce de uma fratura que nunca mais tem solução, digamos assim. E há muita gente, estes tais retornados da minha geração, da geração da Isabela, que obviamente são antirracistas. Estas pessoas também têm fraturas e dores. Está tão na ordem do dia a saúde mental, é preciso muita delicadeza para tocar neste assunto, que é um assunto não político, mas sociológico. Isto é a parte séria do livro, que trata mais da menina que chegou, da fratura, do colégio, do bullying, deste comer para preencher uma tal fome emocional. Como mulher, interessa-me muito o direito à diferença, também em relação ao imperativo da beleza e dos botox, de não se ter rugas, da juventude, deste termos que ser todos iguais.
Como é que decide levar o texto para o palco?
Bom, fiquei doida com o livro e depois, num encontro no Festival de Teatro de Almada, fui perguntando a colegas “o que é que estão a fazer e tal” e o diretor da [Companhia] Cegada disse-me: “olha, curiosamente vamos fazer a A Gorda, é engraçado que a Sofia de Portugal só pensava em ti, mas quer dizer, é Alverca — off-broadway, como nós dizemos na gíria — e ninguém teve assim muita coragem de te dizer…” E eu disse: “vão fazer A Gorda? Mas eu quero, eu amo A Gorda!” Fui colega da Sofia de Portugal no Conservatório, é natural que a Sofia ao ler o livro se lembrasse de mim porque sentia precisamente o mesmo tipo de sentido de humor, algumas dores, a coisa [da personagem] de lavar no tanque desalmadamente… Eu tinha essa coisa, a Sofia tinha um tanque na marquise dela quando andávamos na escola eu ia para o tanque dela lavar… Aquele lavar onde está tudo, está uma vingança…
Era a sua catarse.
Precisamente. Portanto foi uma coisa absolutamente inesperada, calhou poder ter esse tempo e foi um prazer. Adaptámos [o texto] com a Marta Dias, que já tinha feito uma versão cénica para vários atores, a Maria Luísa mais nova, a mãe, o pai, etc.
Originalmente a ideia não era ser um monólogo?
Não. Mas depois a Sofia quando percebeu que eu queria [o papel] transformámos todas aquilo num monólogo e lemos essa versão à Isabela que gostou logo do que ouviu, com um belo caril à moçambicana [risos] e tudo isso. Para mim foi como voltar à escola porque fizemos isto de forma artesanal, em casas umas das outras, também com esta sensibilidade feminina. Depois tivemos a sorte de ter o Aurélio Vasques [que assina a cenografia e desenho de luz] que trabalha mais em cinema. Começou em Alverca como uma coisa mais intimista, mas com um grande cuidado e bom gosto, e com o Dino Alves [figurinista] que é meu amigo também desde sempre, com a delicadeza de não tornar este tema grotesco, não tratar a gordura como uma coisa risível.
O livro é um texto de grande crueza.
É o tal lado punk…
Mas é muito direto, objetivo. Como é isso se transpôs para o palco?
É invulgar as mulheres poderem assumir o seu desejo sexual, as suas práticas sexuais e nisso a Isabel é muito crua e corajosa. Digamos que esse lado na peça está evocado de uma forma teatral, porque uma coisa é ler outra coisa é ver e ouvir. Tratámos sobretudo esse tema da gordura ou mesmo da obsessão emocional com uma grande delicadeza… A própria Isabel assume, tanto nos Cadernos como n’A Gorda que há qualquer coisa de biográfico. E as pessoas estão vivas. As pessoas no teatro através de um ator veem-se a si próprios.
Quando fiz um monólogo da obra do [António] Lobo Antunes ele disse-me: “não leves a mal eu não ir à estreia, mas eu não consigo ver-me”. Achei isto muito bonito e sinto que há daqui com a Isabel um bocadinho isso. Foi tudo tratado a pinças. Não é que não haja zonas… O humor está lá, um humor ácido maravilhoso, mas não está a zona de grotesco. Está o bullying, estão as perdas emocionais, está a resolução, está também a saúde mental, as consultas. Acho que fizemos aqui um concentrado, uma hora, uma espécie de amuse-bouche para se ler o livro, porque o livro obviamente ultrapassará sempre, como é evidente, uma peça de teatro.
É curioso apontar isso como uma evidência. Há uns dias numa sessão especial de As Meninas Exemplares (2025), de João Botelho, o realizador também dizia que era uma discussão inútil, pois todos os livros são melhores que os filmes, desde logo porque o filme é apenas um olhar.
É isso mesmo, é só um ângulo! E o nosso ângulo foi esse, foi um ângulo feito por mulheres, agradecendo a coragem da Isabela, mas pondo também um bocadito o nosso ângulo, o ângulo da encenadora, de quem interpreta e sobretudo tendo esse cuidado de, como sou uma comediante, qualquer palavra em mim tem um resultado imediato de uma gargalhada, sobretudo nessas zonas de grotesco ou da gargalhada fácil de exibir uma gordura. Houve um cuidado também nos figurinos e na maneira como eu faço o débito do texto de isto não ser para gargalhar no mau sentido, mas para sorrirmos e percebermos que todos nós fomos aquela gorda em alguma zona na vida. Porque aquela gordura é metafórica…

A propósito de “gargalhar no mau sentido”, como diz, no universo cómico, e pensando até no universo do stand-up especificamente, os “gordos” e as “gordas” sempre foram uma punchline fácil.
Absolutamente.
Sendo a gordofobia o grande tema deste livro e, consequentemente, desta peça, como foi mergulhar num tema que no humor é tão facilmente abordado num sentido vou arriscar dizer depreciativo…
Pode dizer à vontade.
Como foi mergulhar neste terreno pantanoso?
Repare, tenho 30 anos de comédia, 30 anos de gestão… Não vou falar dos limites do humor, porque, na verdade, o humor está na moda, mas a comédia é clássica. Considero-me uma atriz de comédia, não necessariamente uma humorista nem uma stand-upper. Há muito roast, há hoje em dia várias formas de levar a comédia ou de incendiar as plateias. Cada comediante faz a gestão do que quer ganhar em termos da relação que quer ter com o público. A minha relação com o público vem de há muitos anos, é um casamento, já tenho 40 anos disto. Acho que houve uma evolução da perceção da piada fácil. Apesar de tudo, eu e o Herman fizemos sempre um caminho de abrir horizontes. Ainda começámos num país que não ria muito de si próprio. Fui das primeiras mulheres a fazer caricaturas, tive que ir medindo o pulso, a elegância com que as imitações eram ou não recebidas. Devo dizer-lhe que sou sempre grata às imitadas por mim. Tudo isso foi sendo um caminho feito com uma relação quase de confiança: elas sabendo que é o meu trabalho, eu tentando não… imitar o que é público, não ir para zonas privadas.
Acha que hoje se ultrapassa esse risco?
Acho que hoje as coisas estão um bocadito… Estão na moda e quando as coisas estão na moda vale tudo um bocadinho…
Vale?
Não, não vale. Estou a dizer é que neste momento está tudo misturado, é difícil perceber o que é o humor. O humor tem que fazer sempre rir e tem que se perceber sempre uma pirueta de inteligência, o tal olhar sobre. E muitas vezes não há esse olhar cómico. Mesmo o humor negro mais ácido, nós rimos porque percebemos a pirueta de inteligência do comediante. Agora no Elogio do Riso, uma peça que fiz em Almada, saiu um livro excepcional sobre as piadas que os judeus diziam uns aos outros nos campos de concentração. Há uma duríssima que é: alguém a caminho de uma câmara de gás dizia ao outro ‘que horror, que vida a nossa’ e o outro diz-lhe ‘não penses nisso, vamos encontrar um sítio melhor, olha, como sabão numa montra’. Isto é duríssimo, mas nasceu aí a logoterapia, o Viktor Frankl, o sentido de vida… O riso pode funcionar como uma ajuda, uma ferramenta para se encontrar um sentido de vida de alguma forma, aliviar momentaneamente uma coisa duríssima.
Portanto, não estou a dizer que ao longo da minha carreira não terei magoado alguém, não terei por inexperiência preferido fazer a graçola. Hoje em dia prefiro, às vezes, perder o que nós chamamos um foguetão, uma daquelas gargalhadas e, se calhar, porque tenho outra idade, porque tenho outras dores, prefiro não ferir alguém concretamente só porque vou ganhar uma gargalhada do público. Outra coisa é, em teatro, por eu ser uma comediante e porque sei que era muito fácil esgotar o pavio se eu dizer “gorda”, nessas coisas que seriam facilmente levadas como gargalhada fácil justamente. É como se eu de repente como atriz estivesse a fazer o próprio bullying à própria personagem. Portanto, foi tudo tratado a pinças. É, digamos, outra zona de representação. É um humor usado em teatro que é diferente do que ter que incendiar uma plateia.
Essa ideia de incêndio, de não querer ferir o outro, veio com a maturidade?
O próprio país mudou muito. O nosso país, o mundo passou a ditar regras sobre Portugal. O Herman era e é o maior, nós fazemos parte da escola Herman e eu ainda fiz parte de um sketch censurado, A Última Ceia, no Herman Enciclopédia. Portanto, o nosso caminho dentro da comédia é longo… E também havia uma perceção sobre os cómicos diferente que há hoje. Hoje é tudo isto, não se discutia limites, bullying. Também havia um entendimento que o cómico tem essa funcionalidade, países civilizados como a Inglaterra em que o próprio público está treinado para rir. E ainda uma outra equação que é: rir de nós próprios. A maior parte das pessoas ou estão resolvidas ou não é uma coisa fácil.
Agora, Portugal sempre teve grandes comediantes. Não só os nossos grandes comediantes do cinema português como muitas mulheres na comédia. Estamos aliás, aqui no teatro Maria Matos, debaixo do chapéu de uma das maiores comediantes portuguesas. Portanto, apesar de tudo, o povo português tinha essa prática. Temos o fado e também a capacidade de: há uma tragédia e dois segundos depois há não sei quantas anedotas a circular. Somos esse povo com grandes comediantes e que sabiam rir. Agora também se intelectualizou demasiado a operação sobre o riso. Agora toda a gente tem opiniões sobre o que é um limite, o que é que não é limite. Há cómicos melhores, há cómicos com ética ou sem ética. Por exemplo, desde sempre sou católica. Lembro-me em miúda, muito novinha, de ficar muito aflita quando tinha de fazer alguma coisa e ia gerindo… Lembro-me com o Herman com os autores todos das Produções Fictícias… Eles sabiam, “ai Maria é católica”, e íamos gerindo as sensibilidades de cada um. Porque, na verdade, o público acha que foi aquela pessoa que disse e esquece-se que por trás está uma equipa inteira a escrever textos. Isto para dizer que estamos num ponto em que muito há muitos treinadores de bancada, faço-me entender?
As redes sociais também trouxeram isso, há uma grande cobardia. E uma coisa é criticar atrás de um ecrã, outra coisa é na cara. Quando me estreei com o Herman não havia coisa nenhuma, as pessoas quando nos criticavam era muito diferente. Uma coisa é criticar cara a cara e dizer “não gostei”, outra coisa é estar em casa a sacanear ou a chatear. É a nossa função e uns cómicos são de uma maneira e outros são de outra, é isto. Deixa de ser comédia quando não se vê a tal pirueta de inteligência para provocar o riso. Que depois o riso aconteça ou não já é outra conversa, porque isso é a eficácia de cada um a saber fazer comédia.
É essa ética ou não ética que mencionava?
Sim. Tudo o que não é isto é bullying ou má comédia ou maus executantes ou sapateiros a tocar rabecão [risos]. Mas isso sempre houve. Esta coisa da Joana Marques… O cómico desde que nasceu que era o bobo da corte, que tem a guilhotina em cima. Ele sabe que o rei a qualquer momento lhe pode cortar a cabeça. Hoje há formas diferentes, mas que matam igualmente, de cortar a cabeça.
Quando se refere à Joana Marques, fala do processo com os Anjos?
Falo do processo, falo de o Herman ter perdido um programa de humor… Nós próprios somos os primeiros a sentir a censura e a censura nunca é só o lápis azul… Falar também da coragem de Maria Matos, Vasco Santana, todos eles que nós achamos só que eram uns engraçados, naifs, eles faziam um cinema em plena ditadura brincando com coisas do Estado Novo! Basta ver alguns planos dos filmes em que estão a brincar com algumas obras do Estado Novo, com uma profunda coragem física. Um cómico tem que ter uma grande bravura. Parece sempre um exagero, agora está na moda, mas uma coisa é ser funny, outra coisa é realmente interferir, ser contrapoder. Isso exige bravura e coragem. Portanto, está sempre a guilhotina, de várias formas, mas está lá sempre.
Hoje arrisca-se menos nesse contrapoder? Não existe um Contra Informação, a sátira política está mais contida?
Não, acho que o Ricardo [Araújo Pereira] faz isso semanalmente e muito bem. Acho que os tempos vão tendo os seus cómicos… Nos Estados Unidos há uma data de cómicos censurados pelo Trump com uma bravura imensa e continuam ali, continuam a fazer as piadas. Não acho que se arrisque menos, acho que em tempos duros nós avaliamos se vale a pena ser kamikaze. Porque, às vezes, o retorno de um cancelamento é ficar sem emprego e todos nós temos filhos para alimentar, rendas para pagar ao banco ou ao senhorio.
O “saneamento” de humoristas que está acontecer nos EUA é algo que poderiamos ver acontecer em Portugal?
Vamos vendo devagarinho. Portugal é muito pequenino, mas há formas de praticar essa censura. É como lhe digo, não é o lápis azul, mas há formas. Estou sempre a dizer isto, mas é a verdade. São censuras sem rosto. O que acontece é: afinal o seu programa, desculpe lá, não temos grelha. Isto é uma forma de dizer: não queremos que isso aconteça.
Falemos do Programa da Maria (2001-2022), foi um sucesso?
Foi um sucesso para uma geração, foi uma coisa de nicho. O Emídio Rangel deixou uma segunda série assinada que nunca chegou a ser feita.
Porquê?
Tive o chamado “azar dos Távora” em termos de televisão, porque começou ao mesmo tempo o grande êxito dos Big Brothers, dos reality shows. E confundiu-se números de audiência com qualidade ou não. Devo dizer que foi um luto que me demorou muito tempo a fazer, porque a pessoa, se é humilde e se é artista no verdadeiro sentido, interroga-se sempre e pensa: onde é que falhou? Hoje, apesar de tudo, guardo com muito carinho o programa, porque percebo que todos os autores são precisamente os grandes humoristas e guionistas que nós hoje temos na nossa praça: Markl, os Gato [Fedorento], o Ricardo, o João Quadros, Felipe Homem Fonseca, todos eles escreveram O Programa da Maria. E grandes atores: Nuno Lopes, Mina Andala a Sofia [Portugal], que também fez parte, o Manel Marques, que se estreou lá.
Tenho muito orgulho porque fiz, como se costuma dizer, como se faz lá fora. Com casting verdadeiro para atores. Não foi “porque é meu amigo e porque tem jeito”, não, foi com casting. Fizemos ensaio, que é uma coisa que em televisão raramente se faz, é tudo para ontem. Estive com eles numa espécie de fim-de-semana a trabalharmos texto a texto, figura a figura. Tenho muito orgulho. Foi realizado por pessoas do cinema, tínhamos um diretor de arte. Aquela espécie de oratório do Zé Manel [Taxista] era uma obra de arte, tinha coisinhas, relva do estádio da luz, um piton das chuteiras do Eusébio, ou seja, havia uma riqueza estética também que acompanhava o figurino. Foram todos criados, não foi só ali alugado na [loja] Mascarilha. Também ainda havia dinheiro para investir na qualidade artística, hoje em dia os orçamentos estão todos um bocadito reféns desta tal ideia de audiências. O mundo mudou. Quando se quer ter alguma preocupação digamos assim estética, o último bastião é o teatro, de facto.
Sei que chegou a apresentar outras ideias para programas a diretores de programas. Que peso é que acha que ser mulher teve nessa equação?
Muito. Não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Todas as mulheres: Maria Matos, Laura Alves, Mirita Casimiro, todas essas mulheres nos seus tempos foram ostracizadas. Mirita Casimiro foi casada com o Vasco Santana, depois separou-se e nunca mais trabalhou em Portugal. Foi para o Brasil, depois foi admitida por Carlos Avillez que era um miúdo e disse “esta senhora não pode estar sem trabalhar” e contratou-a para o teatro. Ou seja, é sempre muito duro ser mulher. Fala com uma escritora vai lhe dizer o mesmo fala com uma pintora vai lhe dizer o mesmo, uma música, uma compositora. Não tem a ver com a cor partidária, tem a ver com uma sociedade patriarcal quer nas pessoas de esquerda, quer nas pessoas da direita, está lá dentro. Verdadeiramente estar ao mesmo nível ainda é difícil de digerir. Algumas mulheres vão conseguindo passar entre os pingos da chuva, fico muito feliz de ver as novas comediantes a conseguirem medrar.

Isso dá-lhe alguma esperança? Ou receia que sejam casos episódicos?
[Suspira] Sinto um grande retrocesso, devo dizer, porque houve uma altura… Obviamente, fui uma privilegiada porque entrei pela porta grande ao lado do Herman, um homem que é um génio. Os génios não têm medo de serem ultrapassados, antes pelo contrário, ele gosta de trabalhar com mulheres, gosta de escrever para mulheres, ele ri-se com mulheres. Houve uma fase dos nossos melhores anos, digamos assim, de êxito em que não se sentia esse estigma [do género] e depois houve uma espécie… Sinto hoje uma volta do machismo, basta ver estas agressões últimas… Nas novas gerações há uma misoginia, um machismo… Ou seja, está sempre na iminência o racismo, o machismo, a misoginia. Estes lugares de sucesso espero que não sejam pontuais. Mas cada vez mais temos mesmo todas que lutar, não por cotas, mas por estar de igual para igual. Mas é sempre com termos que ser superiormente talentosas, engenhosas, diplomáticas. Isso é muito triste, porque qualquer tipo diz umas graçolas e chega diretamente a um programa, porque é dos nossos, e uma mulher para lá chegar tem que suar as estopinhas. Sim, acho que de alguma forma, para além do azar dos Tavóras, dos tempos que mudaram com o Big Brother, a partir daí também houve aqui qualquer coisa pelo facto de ser mulher não ser tão fácil.
Sendo que, deixe-me dizer, estou resolvida. Sei que tenho o respeito dos meus pares masculinos e femininos porque eu também os respeito. Portanto não há aqui nenhum “ai porque eu não tenho”, nada disso. Antes pelo contrário, sou fã de alguns novos comediantes, sou espectadora, vou vê-los ao vivo.
Quer mencionar alguém em particular?
Obviamente a Joana [Marques], que escreveu coisas para mim, o Ricardo [Araújo Pereira] também, mas eu sou espectadora do produto deles! Ainda agora no Elogio do Riso convidei o Ricardo para dar uma palestra porque ele de facto tem sido o maior teorizador cá e no Brasil sobre o humor, não há muita gente que tenha escrito sobre humor. Portanto não há aqui nenhum amargo nem inveja, aquilo — a gestão do Programa da Maria — foi o que foi. Não voltou a haver e eu fui fazendo outras coisas. Não estou com nenhum amargo nem nada mal resolvido, antes pelo contrário.
É uma mulher que gosta de olhar para trás, para o passado ou prefere dedicar-se a projetar o futuro?
Todos nós, seres humanos, deveríamos viver no presente, não é? Porque a ansiedade é justamente o que é que vai ser o futuro e as depressões muitas vezes são: o que é que eu não fiz e devia ter feito e, ai, porque é que eu fiz aquilo, etc. Tento ser grata dia a dia e viver o que me está a acontecer. E de facto não tenho razões de queixa. Olho para o passado no sentido de perceber em que é que eu posso não tornar a cair, não escorregar na mesma casca de banana, digamos assim. Tive sempre uma lucidez profunda sobre o privilégio que vivia, porque tudo que sonhei na vida é estar rodeada de talento e aprender. Não sou aquelas atrizes de “gostava muito um dia fazer a lady, não sei quê”, nunca fui. O meu maior prazer foi estar sempre ao pé de colegas que se tornam amigos e de aprender com eles e de ser um recreio e um prazer. E isso tenho conseguido. É o que me torna feliz, francamente.
Como é que se procura esse recreio sendo uma pessoa tímida? É curioso que tanto o RAP como a Joana Marques, que mencionou, também são figuras com esse perfil.
Absolutamente. Mas o Herman não é e há outros comediantes que não são. Mas quase todos são tímidos, são, o Rowan Atkinson era, o Chaplin era. Há muito comediantes que são tímidos, sim. Porque é através justamente das personagens e das piadas que nós nos conseguimos revelar aos outros. É justamente esse engenho, porque acho que a comédia é uma coisa também com que se nasce, à parte de depois ter uma técnica enorme. Uma coisa é ter graça numa mesa de café outra coisa é num palco, é mesmo diferente.
Já a vi a referir-se à comédia como um dom.
É, a academia divide-se. O Ricardo acha que não, que é trabalho. Eu acho que é um dom, acho que se nasce… No meu caso há uma informação genética, os meus pais tinham os dois um extraordinário sentido de humor. Depois, a dureza da vida, a descolonização, todas as nossas dores… Ainda agora o [filósofo sul-coreano Byung-]Chul Han dizia que a dor e o seu papel revelador e apela justamente a encarar-se a dor de frente para conseguir riso através da dor. Só vivendo as coisas, não lhes fugindo, é que depois se consegue a tal distancia para atingir o riso. Portanto, tenho em mim uma informacao genética, os meus pais já vinham com essa capacidade. Os meus irmãos todos tinham e têm, os que são vivos, ainda sentido de humor. O olhar trabalha-se desde pequenina, faço isso com a minha filha, habituei-a a olhar para o que pode ser eventualmente risivel, tentar ver o copo meio cheio em vez de meio vazio. Agora, nem sempre se consegue, como é evidente. Eu acho que é um dom porque é como ter voz ou não ter. Há pessoas que realmente nascem desafinadas e que nunca afinarão por mais que trabalhem. Agora, aparte disso, há momentos inspirados, mas 90% é trabalho. Trabalho e seriedade, que é uma coisa aparentemente antagónica à palavra riso, mas não.
O divertido não é sinónimo de desleixo.
É ao contrário e por isso é que distingo o que é funny, dizer umas graçolas. Outra coisa é realmente mostrar-se quer em palco quer numa caricatura. Repare, os cómicos não são só os humoristas, o Bordalo Pinheiro era um cómico. Era um extraordinário comediante com as caricatruas que fez, as personagens que criou. O Zé Povinho é ainda hoje uma grande figura cómica, um grande retrato do povo português. A gente é que acha que são só os humoristas, mas a comédia é um largo espectro, a literatura está cheia de grandes comediantes também.
Acha que se moveu nesse espectro ao longo dos anos?
Formei-me para ser atriz, e claro que esse lado veio ao de cima porque era natural em mim. Quando ultrapasso a timidez, com amigos, em familia, sou divertida, faço disparates.
Como boa irmã mais nova.
(risos) exato. E isso deu nas vistas no Conservatório.
Foi nessa altura que teve uma breve passagem pelo jornalismo, no jornal Público, não foi?
Exatamente, no primeiro ano.
Como é que isso se propicia?
Porque, lá está, eu fiquei sozinha em Lisboa. Os meus pais reformaram-se e precisava de uma bolsa porque não eramos ricos, tinhamos vindo de África. Não consegui logo a bolsa, mas consegui ir para a agenda do Público, uma coisa que já não existe, que era telexes. Eu fui a menina dos telexes do jornal Público no início do jornal. E foi uma coisa excecional durante a guerra do Golfo porque fez-me conhecer todos os grandes jornalistas de guerra, a Teresa [de Sousa]. Eu saía do Conservatório às cinco e tal, seis, ia para o Público e ficava até fechar a redação. Como foram os primeiros a ter Macintosh, eram os últimos a fazer a primeira página. Lembro-me de ir redação fora aos gritos a dizer: “caiu mais um míssil”, porque ainda dava para mudar. Foi uma coisa muito bonita. Foi onde conheci o Rui Cardoso Martins, sem sonhar que um dia iamos ser camaradas de armas, digamos assim, porque ele escreveu imensos programas de humor. Estive, aliás, quase para chumbar, porque aquilo para mim… Eu vivi aquilo que vemos nos filmes, uma redação à moda antiga ainda, com revisores de português…
Saudosos copy desk.
Os copy desk, com tudo! Fiquei com grandes, grandes amigos. Até que disseram-me no Conservatório: vais chumbar por faltas. Era a Sofia [Portugal] que me acordava: Maria, tens de acordar, vais chumbar! E eu morta depois de sair do jornal sabe Deus a que horas. Lembro-me de ter ido direita ao Vicente Jorge Silva — para ver a minha inocência —, e ter dito “desculpe, eu sou a menina da agenda”, eles estavam todos no fecho da edição, e de lhe dizer que me queriam chumbar. E ele disse-me: “ó rapariga, vai lá acabar o Conservatório, tens sempre aqui um lugar”. Fico muito comovida. Aliás, pude fazer uma rábula com o Belmiro de Azevedo. Falo dele porque já há poucas pessoas, hoje em dia então, com a questão de liberdade de expressão… Lembro este homem que nunca, nunca interferiu na linha editorial do Público.
Não havia livros de teatro à venda, e lembro-me que à socapa, quando a redação não tinha grandes coisas, alugava na biblioteca os livros e ia fotocopiar à borla ao Público [risos]. Então um dia numa rábula disse-lhe: “estou a dever-lhe muito dinheiro porque o gamei” [risos]. E ele generosamente disse-me: “tenho muito gosto em ter contribuido para o seu curso de teatro”. É uma coisa que me entristece hoje ao refletir sobre a inteligência artifical e todos estes tempos. A vida era feita destas coisas lindissimas, destas bondades. Mesmo as pessoas que estavam hierarquicamente muito acima de nós, conseguiam ter um olhar ternurento. Lembro-me de eu e o Rui ficarmos amigos porque ele cantava na redação do Público e eu também, faziamos uma espécie de espetáculo para os outros jornalistas quando os telexes estavam mais calmos. A vida era feita disto. E tudo isso está em mim, nas minhas personagens, esse lado doméstico. Por isso é que digo que o comediante é o palhaço pobre, porque gosta de olhar para o comum, para o povo português, mais do que para os reis. Gosto que o meu corpo sirva o povo português. Tem a ver com este olhar, estas memórias todas de humanidade que tenho dentro de mim, do bairro onde cresci, na Graça, de todas essas figuras. Mesmo os bons malandros tinham coração, davam a camisa, as coisas não são tão a preto e branco como a gente hoje tem necessidade de catalogar. Não, as coisas têm mais matizes.

A Maria está num lugar de grande afetividade do público. As primeiras datas deste espetáculo esgotaram rapidamente e as novas anunciada vão igualmente bem encaminhadas. Como interpreta isso?
Comove-me ao dizer isso. Eu tenho noção que o povo português é muito cuidadoso e carinhoso porque acho que também fui sempre honesta, autêntica. O monólogo do Lobo Antunes tinha coisas trágicas, a própria Gorda tem zonas mais dramáticas… É como se eu explicasse sempre: agora vou ali um bocadinho para fora de pé e depois já velho fazer o Zé Manel [Taxista]. As pessoas respeitam muito quem é autêntico e eu tenho um profundo respeito pelas pessoas. Há, às vezes, nos meios mais elitistas a ideia de que “a massa não entende”. Digo isto nos políticos, em alguns meios culturais, e as pessoas, mesmo as mais ignorantes — não quer dizer não tendo pensamento, digo sem estudos ou infoexcluídas — percebem tudo. As pessoas não são burras. Digo isto a amigos, sejam políticos ou músicos: atenção que as pessoas percebem tudo, respeitem-nas. E acho que esse respeito é recíproco porque eu tenho uma profunda gratidão. Porque eu sei que foi o público que me pôs no sítio onde eu estou.
Está a recordar-me de uma conversa com a Marina Mota, em que se falava precisamente de uma tendência para a menorização, de públicos, e até géneros em alguns teatros.
Aí está! Outra grande comediante injustiçada por alguns meios elitistas. A Marina é uma extraordinária atriz de comédia e foi durante anos censurada como uma “revisteira”. A Marina, o Zé Raposo, o Fernando Mendes. São dos melhores cómicos que nós temos, que ainda herdaram uma escola que se aprende nas tábuas, como nós dizemos, com os nossos mestres de comédia. A Marina só agora, há muito pouco tempo, é que está a ser olhada de outra maneira. Nós temos este olhar preconceituoso. Nós todos.
A Sofia [Portugal] conta sempre a história de como me tentaram chumbar no segundo ano por ser cómica. No Conservatório, em Portugal. Tive uma professora, a Anna Paula Zeiger, que me compensou dando-me uma nota enorme para compensar aquela negativa. Era o “vá lá para o Parque Mayer porque está a tirar lugar às atrizes”. Estamos a falar de há 30 e poucos anos. Havia este preconceito. Repare quão distante isso está hoje do estar na moda ser humorista. Eram caminhos muito duros, desiguais, sobretudo em relação aos meus pares da revista. Um intelectual é capaz de estar em casa e dizer que engraçado o Antonio Silva e a Maria Matos, e depois depreciar atores recentes que vieram da revista. Quando o Vasco Santanta, a Maria Matos, o Antonio Silva, todas as noites faziam revista, e depois cinema. Por isso é que morriam cedo. Porque a pessoa não aguenta. Eles iam filmar de madrugada para a Tóbis depois de já terem feito três sessões de revista a porem o público a rir.
O enfarte que sofreu em 2019, e que foi noticiado na época, teve um impacto na sua consciência desse desgaste?
Sim. Por isso digo: sempre tive consciência dessa gratidão, estrei-me com o mestre Armando Cortez, que é herdeiro dessa escola toda, e fiz Cafés Teatro. Por isso é que tenho tanto respeito pelo público: porque uma coisa é ter a pessoa aqui [aproxima-se] a rir ou não rir. A pessoa faz rir ou já foi. É um desgaste imenso porque a anedota, a piada ou a graça só se conta uma vez. Se a pessoa já sabe: “Já sei essa, conta outra”. Temos de estar constantemente a reinventar-nos. Depois, a comédia tem um bit, como se diz agora, acelerado, é representada num tom brilhante — que não é gritar —, porque se não é contada com essa eficácia não chega à plateia, cores garridas, a caricatura é uma coisa exagerada. É como o futebol ou o ballet….
É uma profissão de desgaste rápido?
É de desgaste rápido. Não é por acaso que depois de uma certa idade alguns de nós precisam de um certo estar em silêncio, mais recatados, distanciarem-se. Porque implica de facto uma stamina superior aos outros géneros dentro da representação.
Como é que lida hoje com isso? Com o envelhecimento, resguarda-se mais?
Foi muito bonito o que me disse o meu cardeologista em Santa Marta. Disse-me: “bom, devia dizer-lhe o que digo aos doentes todos que sobreviveram a um enfarte, ‘vá para casa, coma pescada e tal’, mas eu sei que a Maria é uma comediante, não lhe posso tirar a sua Natureza, cá estarei sempre, venha ao mecânico mais vezes”, como quem diz “venha vigiar”. Isto é muito belo. Isto é de um grande médico, perceber que cada pessoa é um bocadinho para o que nasce, que a medicina não tem na mão o dom da vida. Eu não podia ficar depressiva e fazer rir uma plateia. Uma depressiva, calminha, a comer pescada…
A Maria precisa do bitoque.
Embora eu goste muito de pescada [risos], comidinha de doente. Mas vou fazendo essa gestão. Ainda agora acabámos uma comédia de 14 anos, eu o Monchique. Tivemos os dois, eu este episódio e depois o Mochique teve o outro, que tambem foi tornado publico. Lá está, a nossa idade começa a apresentar faturas, mas não é possível fazer comédia de outra forma. Aliás, em quase todos os comediantes — um abraço para o meu querido Nuno Markl — a veia aqui a uma certa altura rompe… Ou no coração ou em qualquer lado. Tem a ver com esse exagero, esse débito da comédia.
Tornar público estes episódios é importante? Desmontar esta imagem dos comediantes invencíveis de sorriso no rosto?
Não sei se é importante, mas acho que tem a ver com o tal carinho que as pessoas nos têm, de não nos perder. Como perdemos a Maria João [Abreu], outra grande comediante, com o aneurisma. Acho que acabamos por ficar uma espécie de familiar das pessoas. Acho que as pessoas nos olham com um olhar humano. O Nicolau Breyner dizia que o cómico é o ator que fica no coração. Eu acho que as pessoas têm esse olhar para o comediante, e não tanto como uma vedeta intocável, mas alguém próximo. Devo dizer que a Maria Matos morreu de alzheimer, Vasco Santana do coração [risos], ou seja, faz parte, faz parte do oficío. Alguns sobreviveram [risos].
Ao longo da carreira habituámo-nos a vê-la fazer rir. Mas basta lembrar a sua Hécuba em As Troianas que não fez assim há tanto tempo para perceber que existe também uma atriz dramática de enorme dimensão. Escreveu-se no Observador. “A atriz que nos habituámos a ver no lado do riso mostra aqui que pode curvar-se ante o choro, falar para a terra e para os mortos, amortalhar todas as esperanças, mas ser também manipuladora, vingativa, sarcástica, justa, acusadora, estoica. Ao longo de 90 minutos e com vários momentos de monólogo, a rainha Hécuba de Rueff não é uma máquina de recitar texto, é um corpo sacrificado, pesado, vergado, derrotado e nem por um momento nos lembramos que aquele é o rosto feminino da comédia em Portugal”.
Isso é lindo.
Tanto Hécuba como a protagonista de A Gorda são mulheres feridas, julgadas, resistentes. Pergunto-lhe no fim desta conversa: o teatro tem servido mais para esconder Maria Rueff atrás das personagens ou para a revelar?
Para me revelar. A comédia e a tragédia são géneros fundadores do teatro. E tanto a comédia como a tragédia existem para ajudar a humanidade a fazer catarse das suas próprias dores. E o que é muito belo é que também para quem faz, tanto na tragédia como na comédia saímos do palco mais leves.