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Joias de 86 mil euros, duas stylists, um saco do IKEA. O desaparecimento que expõe um setor sem regras

Após gala do The Voice em janeiro, perdeu-se o rasto a peças avaliadas em mais de 86 mil euros. O caso chegou ao Ministério Público — e abriu uma caixa de Pandora sobre o mundo do styling em Portugal.

Joana Moreira
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Sâmia Fiates
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Inês Correia
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É domingo, 4 de janeiro. O relógio aproxima-se das 21h e está tudo pronto nos estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, Oeiras. É ali que, dentro de minutos, decorre a emissão em direto da final do concurso The Voice, na RTP. A Maria Petronilho, a apresentadora digital do programa, cabe-lhe entrevistar os concorrentes nos bastidores. Está vestida de acordo com o que a ocasião exige e, para tal, contou com a ajuda da stylist Raquel Guerreiro. Usa um vestido de gala em tom creme do Atelier Miguel Leite e um conjunto de joias da designer Maria Baptista. Foi provavelmente a última pessoa a colocar a gargantilha e os brincos de flores cravejados com brilhantes e esmeraldas colombianas. Menos de 24 horas depois do programa, estas e pelo menos outras dez peças da mesma joalheira, avaliadas em mais de 85 mil euros, desapareceram.

Mas há duas versões para o que se passou desde que as câmaras do The Voice se desligaram e o caso foi reportado pela primeira vez à PSP. De um lado, a da stylist a quem as peças foram emprestadas e que alega ter sido furtada por trabalhadores de uma empresa de transportes, no dia seguinte à gala do concurso da RTP. Do outro, a joalheira Maria Baptista, que diz ter sido “enganada” por Guerreiro e a sua assistente, Maria Nobre, pelo que decidiu avançar por conta própria com uma queixa contra ambas. O caso está a ser investigado pela Polícia de Segurança Pública (PSP) de Lisboa, sob a coordenação do Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) do Ministério Público (MP). As duas participações foram apensadas ao mesmo inquérito, que foi consultado pelo Observador.

“As mensagens que tinha recebido levavam-me a acreditar que se tratava apenas de um atraso na devolução”

O empréstimo de roupas e acessórios a figuras públicas para eventos é uma prática comum: as marcas emprestam peças, a título gratuito, em troca de visibilidade. O processo é mediado por um stylist, a quem compete criar o visual da celebridade e tratar de toda a logística. Raquel Guerreiro – que já trabalha no ramo há alguns anos e veste nomes como as cantoras Bárbara Bandeira e Iolanda, ou ainda os jurados do The Voice – combinou o empréstimo das joias com Maria Baptista, a dona da marca Fiorire, através de mensagens de Whatsapp. Assim, na manhã de 4 de janeiro, dia da gala, a assistente da stylist, Maria Nobre, dirigiu-se à casa da designer para ir buscar as peças. Seis gargantilhas, uma pulseira, quatro pares de brincos e um par de ganchos de cabelo, feitos em ouro branco ou amarelo, cravejados com brilhantes, quartzos verdes ou esmeraldas colombianas, e com um preço de custo de mais de 86 mil euros e preço estimado de venda em mais de 346 mil euros.

Maria Baptista não esperava que aquela fosse a última vez que veria a coleção de joias que desenhou e confecionou ao longo dos últimos três anos, com pedras que pertenceram à sua mãe. Esperava reavê-las na manhã seguinte à gala do programa da RTP, como combinado. Mas não foi isso que aconteceu. Na manhã seguinte à gala a designer questionou a stylist sobre a devolução das peças, acordada para aquele dia. Para Maria Baptista, as joias estariam de volta às 10h, na ourivesaria da família em Campo de Ourique. Ao longo das 48 horas seguintes, a stylist a quem as joias foram confiadas nunca lhe disse que as peças estariam desaparecidas. Pelo contrário: dava a entender que as devolveria em breve. “Olha, deixa-me ver o que é que se está a passar. No domingo eu fiquei até ao final do programa para levar tudo comigo logo e deixei tudo no meu estúdio para ser devolvido. Então deixa-me ver o que é que se está a passar, porque é que as joias ainda não foram entregues, em relação à Maria. A Maria [Nobre] é muito certinha. Por norma é uma pessoa certa nessas coisas. Se calhar só não teve a oportunidade de o fazer”, disse Guerreiro, num dos vários áudios enviados entre os dias 5 e 6 de janeiro. Para a designer, até ver, tratava-se apenas de um atraso na devolução. Mas no dia 7 de janeiro, quarta-feira, a stylist parou de responder.

Enquanto ignorava as mensagens de Maria Baptista, Raquel Guerreiro fazia uma participação por furto na PSP de Faro. Maria Baptista diz ao Observador, numa resposta por escrito, que foi só no sábado, dia 10 de janeiro, que tomou conhecimento de que as peças tinham “desaparecido”, ao ser contactada pela stylist, e depois de ter feito um “ultimato” para a devolução das joias. “No dia 10 de janeiro de 2026, fui informada de que as peças não se encontravam na posse da pessoa a quem tinham sido confiadas e de que já teria sido apresentada uma participação às autoridades. Até esse momento, as mensagens que tinha recebido levavam-me a acreditar que se tratava apenas de um atraso na devolução. As discrepâncias entre essa informação e a cronologia documentada fizeram-me sentir enganada e levaram-me a apresentar queixa e a preservar todos os elementos de que disponho.”

Contactada pelo Observador, Raquel Guerreiro contesta. Em respostas por e-mail, diz que tentou ligar à joalheira na quinta-feira, dia 8 de janeiro, com o intuito de lhe comunicar sobre o desaparecimento, e posteriormente terá enviado mensagens, mas que não obteve resposta. “Tentei contactar telefonicamente a proprietária das peças para reportar a situação, já depois de ter concluído que as mesmas não estavam na minha posse. A chamada não foi atendida e as mensagens enviadas nessa sequência não obtiveram resposta. Fui posteriormente contactada na sexta‑feira à noite e retornei a chamada no sábado de manhã”, explica Raquel Guerreiro. A stylist, no entanto, não explica porque desde que deu pela falta das joias demorou três dias para informar a proprietária das peças do desaparecimento, e o motivo para continuar a trocar mensagens com a designer a omitir este facto.

Confrontada, Maria Baptista desmente qualquer chamada da stylist. O Observador teve acesso à conversa de Whatsapp e, de facto, não há qualquer registo de chamada na app, apenas uma mensagem de Raquel Guerreiro no dia 8. “Bom dia Maria, espero que estejas bem. Assim que possível diz-me um horário para te ligar. Obrigada.”

Há duas versões para o que se passou desde que as câmaras do The Voice se desligaram e o caso foi reportado pela primeira vez à PSP. De um lado, a da stylist a quem as peças foram emprestadas e que alega ter sido furtada por trabalhadores de uma empresa de transportes, no dia seguinte à gala do concurso da RTP. Do outro, a joalheira Maria Baptista, que diz ter sido "enganada" por Guerreiro e a sua assistente, Maria Nobre, pelo que decidiu avançar por conta própria com uma queixa contra ambas

De Paço de Arcos a Campolide, com uma passagem pelo Beato: o caminho das joias num saco do IKEA

O que terá acontecido às joias? Com base nas declarações de Maria Baptista, de Raquel Guerreiro e nos documentos anexados ao processo, consultado pelo Observador, voltemos àquela noite.

À data, a stylist vivia na mesma rua da loja onde deveria devolver as peças, em Campo de Ourique. Mas depois do programa da RTP, pelas 2h da madrugada do dia 5 de janeiro, Raquel Guerreiro diz que recolheu as joias usadas por Maria Petronilho e levou as peças para o seu estúdio, no Beato, um trajeto cerca de 10 quilómetros mais longo do que o caminho para casa. “Após o final das gravações cheguei a casa já de madrugada e, na manhã seguinte, saí cedo para acompanhar as mudanças, previamente agendadas, pelas 8h, seguindo depois para uma produção no Barreiro. Durante esse período, a loja encontrava-se encerrada, o que inviabilizou a devolução presencial imediata”, justifica ao Observador, quando questionada sobre o motivo para não ter levado as peças para casa e devolvê-las presencialmente logo na manhã seguinte, dada a proximidade da sua casa à joalharia.

Portanto, na manhã de segunda-feira, por volta das 9h30, a stylist diz ter voltado ao estúdio no Beato para receber uma empresa de transportes. A fatura apensada ao processo revela que a stylist contratou um serviço de mudanças com três trabalhadores pelo valor de 214 euros, para realizar o transporte dos itens do estúdio até à box de armazenamento em Campolide. “O que existia era uma mudança geral de um espaço de trabalho para outro, envolvendo todo o conteúdo do atelier. As peças seguiriam depois para devolução presencial por alguém da minha confiança. A empresa de mudanças foi contratada para a mudança dos bens do espaço. Acompanhei a mudança do início ao fim, na zona do Beato, e, durante o período em que estive presente, os profissionais nunca ficaram sozinhos com os bens, incluindo as peças de joalharia”, garante Raquel Guerreiro a este jornal.

No local da box, em Campolide, estava presente para supervisionar a descarga a sua assistente e amiga. Ao Observador, Guerreiro diz que Maria Nobre é uma “assistente de confiança”, que “sabia o que estava a ser devolvido e conhecia a importância profissional e comercial das peças que estavam sob a nossa responsabilidade.” No entanto, de acordo com a versão apresentada às autoridades, a assistente terá deixado os itens sem supervisão em vários momentos da descarga: quando chegou à box, os funcionários já estavam a descarregar os volumes. Depois, ausentou-se para tomar café e comer um lanche, voltando ao ser contactada pelos funcionários, que informaram que a descarga estava terminada. Quando regressou à box, terá sido informada pelos responsáveis da mudança que era necessário um cadeado para proceder ao encerramento da mesma, pelo que a assistente saiu novamente para comprar o cadeado. Neste momento deixou outra vez o espaço sem supervisão – com a porta da box fechada, mas não trancada. Depois de comprar o cadeado, regressou, trancou a porta e saiu. O Observador contactou Maria Nobre, que primeiro aceitou e pediu para responder por escrito, mas depois de ser confrontada com as questões deste jornal deixou de responder.

“Opa, fui roubada?”

Terá sido só por volta das 16h30 da segunda-feira, dia 5 de janeiro, que as duas stylists deram conta da ausência das joias. A assistente regressou à box para organizar objetos e devolver artigos – incluindo as peças de joalharia – e foi neste momento que terá percebido que as mais de dez peças de joias não estavam no saco azul do IKEA.

As trocas de mensagens entre ambas estão anexadas no processo. Às 16h23 as duas começam a conversar.

– “E as joias? Ainda hoje as vi”
– “Ai pois é. Não as vejo em lado nenhum. Não sabes onde as viste?”

É quando é enviada uma fotografia feita antes da mudança, na qual se vê duas caixas de papelão um pouco abertas, em que uma delas está coberta por um porta-fatos dobrado; dois sacos de papelão de loja; um saco maior de tecido preto e, por cima, uma caixa de sapatos fechada com fita cola; além do saco azul do IKEA dentro do qual se vê um laço de cetim azul, que é uma parte da embalagem das joias da Fiorire. “Estão aí em cima do saco. Com um laço azul de cetim”.

Às 16h29 vem a primeira menção ao desaparecimento.
– “Opa fui roubada?”
– “Não pode”
– “Saiu do meu estúdio assim. Para a carrinha deles. Foram as primeiras coisas que carregaram”.

Uma nova fotografia mostra o mesmo saco do IKEA, mas agora aberto, onde é possível ver várias sandálias e um saco branco. O laço de cetim azul não está lá. “Era o saco com estes sapatos, certo?”.

Às 16h36 outra fotografia, que aparece como reencaminhada, e mostra os sacos e caixas na box. “Isto é como tu encontraste? Isto não está igual. Mais ninguém teve aí?”, questiona a stylist.

Neste momento, Raquel já estava em contacto com a empresa de mudanças. A stylist envia as mesmas fotografias, e tenta ligar à empresa. “Boa noite. Estou numa reunião. Peço-lhe desculpas por não atender”, responde o responsável, que envia o contacto de um ajudante. “Pode telefonar e falar com nosso técnico. Obrigado”, escreve, assinalando que “ele deve se lembrar”. Depois, o mesmo número devolve: “Resolve com os rapazes, eu não posso ajudar.” No final da conversa, a stylist chega a dizer que em 24 horas vai levar o caso à polícia, ao que o responsável da empresa de mudanças responde: “Vai procurar os seus direitos, nós estamos descansados.”

Os documentos do processo revelam que a stylist voltou a falar com a empresa de transportes nos dias seguintes na tentativa de recuperar a guia de transporte – o documento que terá assinado após o carregamento e no qual deveriam constar todos os volumes transportados. Enviou mensagens no dia 7 e 8 de janeiro; no dia 10 ameaçou com uma queixa-crime; no dia 12 pediu o livro de reclamações; e no dia 15 enviou um comunicado, com uma redação muito mais formal. Na mensagem diz que foi informada sobre uma intenção de avançar com uma queixa-crime “na qual ela própria e os responsáveis pelo transporte serão chamados a responder”, assinala que “está a tentar resolver a situação de forma extrajudicial”, mas que aquele é “o último contacto” e que se não houver resposta vai mesmo avançar com o processo. As mensagens não terão sido respondidas.

O Observador contactou a transportadora que, numa curta chamada telefónica, sublinhou que não faz envio de encomendas, apenas “mudanças de residência e de escritório”. Questionámos, por e-mail, se a empresa efetuou algum transporte no dia 5 de janeiro para uma box em Campolide e se foi contactada posteriormente em virtude de um objeto alegadamente por entregar, como relatado pela stylist no auto de denúncia junto da PSP. A empresa nunca respondeu ao Observador.

Antes da entrega, deixei claro que a cedência das joias dependia da assinatura do termo de responsabilidade e de um contrato. Foi-me garantido, por mensagem, que o documento seria assinado e rubricado antes do início do programa The Voice. Assinatura essa que não ocorreu havendo de imediato um incumprimento
Maria Baptista, designer e proprietária da marca Fiorire

Na quarta-feira, dia 7 de janeiro, Raquel Guerreiro informou as autoridades sobre o furto. Mas apesar de as joias terem desaparecido em Lisboa, fez a participação no Algarve. “Após contacto telefónico com a PSP, fui orientada a dirigir-me à esquadra mais próxima para formalizar a participação. À data encontrava-me em Faro, em visita à família, e foi por esse motivo que a queixa foi registada nessa esquadra, seguindo a indicação que me foi dada pelas autoridades”, justifica ao Observador. A queixa registada na PSP de Faro tem uma página e meia, e menciona que as joias foram furtadas, indicando a empresa de transporte e os nomes de dois dos três funcionários que trabalharam no serviço. Cerca de três semanas depois, a 30 de janeiro, a stylist apresentou um aditamento, já assinado por uma advogada, no qual ao longo de várias páginas descreve ao pormenor a sua versão, pede que a sua assistente e amiga seja constituída testemunha e a transportadora e os trabalhadores sejam constituídos arguidos.

Joalheira acusa stylists: “Fui roubada em milhares de euros”

A joalheira Maria Baptista não acredita na versão de Raquel Guerreiro. Na noite do domingo 11 de janeiro, depois de saber do desaparecimento, a joalheira decidiu enviar uma mensagem a outros designers, agências e showrooms que conhecia, a denunciar o episódio. “Fui roubada em milhares de euros, através de uma situação de total desrespeito e falta de humanidade. Fui enganada por duas stylists, Raquel Guerreiro e Maria Nobre, com quem trabalhei, a quem cedi temporariamente joias, sem qualquer tipo de remuneração, em troca de publicidade que não foi efetivada. Essas joias desapareceram”, escreveu, num longo texto a que o Observador teve acesso, em que apela para que “quem tenha informações, episódios ou experiências semelhantes com estas pessoas que me contacte de imediato”.

Na segunda-feira, dia 12, usou as redes sociais da sua marca para divulgar o caso ao público – dessa vez sem mencionar nomes. “É com profunda tristeza, dor e um sentimento avassalador de impotência que partilhamos que fomos roubados de uma parte da coleção mais importante da nossa carreira”, escreveu no Instagram. “Esta coleção foi-nos arrancada e usurpada logo após o seu lançamento, num momento de grande fragilidade emocional, através de um acto que só pode ser descrito como desumano e desprovido de qualquer caráter”, diz ainda a publicação, que assinala: “Estamos a agir pelos meios legais para que as responsáveis, já identificadas, sejam devidamente responsabilizadas e para que não voltem a lesar mais ninguém. Infelizmente, não se trata de um caso isolado, havendo já outras marcas e pessoas gravemente prejudicadas por estas mesmas práticas.”

Quando inicialmente contactada pelo Observador, a designer de joias começou por alegar várias inconsistências na história da stylist: a deslocação até ao Beato e depois a Campolide sendo que Guerreiro vivia na mesma rua que a loja onde deveria devolver as joias; o registo da ocorrência numa esquadra em Faro e o atraso de dois dias a comunicar às autoridades e ainda assume como premeditado o facto de as stylists não terem assinado o termo de responsabilidade sobre a cedência das joias, apesar da sua insistência.

A 16 de janeiro a dona da marca apresentou uma queixa contra as duas stylists junto da Polícia Judiciária (PJ) de Lisboa. Às autoridades, a proprietária das joias disse acreditar que as duas stylists estão “altamente envolvidas no desaparecimento” das peças; que a queixa na PSP foi uma “forma de dissimulação”, e até que a deslocação ao Algarve tinha como intuito “derreter as joias”.

A participação foi remetida ao Ministério Público a 23 de janeiro e o inquérito aberto a 19 de fevereiro como um crime de abuso de confiança, com uma anotação da PJ a sinalizar “não se vislumbrar dolo inicial”. As joias foram objeto dos dois inquéritos que seguiram paralelamente até ao dia 8 de abril, quando o segundo processo foi apensado à investigação já em curso de furto, aberta na sequência da queixa apresentada por Raquel Guerreiro a 7 de janeiro.

“Antes da entrega, deixei claro que a cedência das joias dependia da assinatura do termo de responsabilidade e de um contrato. Foi-me garantido, por mensagem, que o documento seria assinado e rubricado antes do início do programa The Voice. Assinatura essa que não ocorreu havendo de imediato um incumprimento”, explica ao Observador designer, já numa resposta por escrito. Raquel Guerreiro assinala que “não me foi comunicado qualquer valor discriminado das peças no momento da entrega. Apenas mais tarde tive conhecimento de um valor global. O contrato que me foi remetido encontrava-se incompleto e desconheço os procedimentos internos de seguro que a marca teria eventualmente acionado ou poderia acionar neste tipo de situação.” Quando fez a queixa à PSP a 7 de janeiro, a stylist afirmou que não sabia o valor das joias, mas que acreditava que custavam mais do que 10 mil euros.

Num documento apresentado pela proprietária das joias às autoridades as características de cada peça são descritas ao pormenor. O valor de reposição atual estimado das joias não seria inferior a 230 mil euros, considerando que o custo de produção foi calculado com base nos preços da altura da confeção e que as peças foram concebidas de forma faseada nos três últimos anos. A gargantilha usada por Maria Petronilho, por exemplo, tem nove flores cravejadas com brilhantes e esmeraldas colombianas e um preço de venda avaliado em 32 mil euros – mas a coleção incluía ainda uma gargantilha em ouro amarelo cravejada com brilhantes e esmeraldas colombianas que poderia custar 95 mil euros. Peças que foram desenhadas e confecionadas com pedras que pertenceram à mãe de Maria Baptista, e num contexto particularmente pessoal para a designer. “Durante três anos acompanhei a minha mãe no IPO e, no decorrer desses anos, nesses mesmos anos e nos dois anos seguintes, criei uma coleção em sua homenagem. As peças eram únicas e incluíam pedras que lhe tinham pertencido. Para mim, o prejuízo não é apenas patrimonial; é também profundamente sentimental”, diz ao Observador, por escrito.

“Também me considero lesada”, defende-se stylist

Num aditamento a 30 de janeiro, a stylist traz ainda dois factos novos para as autoridades, pelo menos de acordo com os documentos apensados ao processo: a falta de outros bens para além das joias já mencionadas e a possível existência de imagens de CCTV.

Além das joias de Maria Baptista, a stylist identifica que desapareceram também um colar seu, dois óculos de sol emprestados por um showroom e dois anéis emprestados por outro showroom. O colar estava numa caixa, enquanto os outros itens estavam dentro do mesmo saco azul do IKEA, alega.

O Observador questionou Raquel Guerreiro sobre se os volumes transportados no dia 5 de janeiro continham outros itens de valor, e a stylist confirma que “os volumes incluíam não só itens usados no programa, como também outros artigos de valor que se encontravam no espaço de trabalho. Esse é um dos motivos pelos quais eu própria me considero também lesada nesta situação”. Alegadamente os artigos terão sido listados numa guia de transportes, que não está no processo. “Mais tarde, quando procurei esclarecimentos, a empresa recusou-se a enviar-me cópia do contrato/guia, o que me impede hoje de confirmar o detalhe do conteúdo dessa documentação”, diz Guerreiro.

A segunda novidade diz respeito às imagens de CCTV da box. A stylist diz que a informação foi mencionada e integrada na participação do dia 7 de janeiro à PSP de Faro, porém, não consta na queixa apensada ao inquérito. O primeiro registo da potencial existência de imagens de videovigilância encontra-se no aditamento do dia 30 de janeiro. No documento a representante jurídica da stylist pede que a empresa seja notificada para preservar as imagens.

E este é, afinal, o primeiro passo da investigação: a 3 de fevereiro, quase um mês depois do ocorrido, o MP pede à PSP que vá às instalações da box e faça a notificação. É no dia 4 de fevereiro que um agente da PSP vai até ao local, onde não encontra nenhum responsável, pelo que envia a notificação por e-mail. A troca de emails entre a polícia e o MP diz que a empresa respondeu à notificação, mas a resposta não está apensada ao processo. O Observador questionou a empresa que detém a box em Campolide referida no auto de denúncia da stylist, no sentido de saber se foram contactados a propósito de algum furto nesse dia ou nos dias posteriores e quanto tempo guardam as imagens de videovigilância. A empresa nunca respondeu ao Observador, mas no seu site consta que os imóveis “têm videovigilância e alarme de intrusão 24 horas por dia, 7 dias por semana”.

Foi também no dia 4 de fevereiro que o MP pediu à stylist que fornecesse os preços de cada peça. A resposta foi enviada às autoridades a 20 de fevereiro, com os valores do colar (94 euros), dos dois óculos (que juntos custam cerca de 500 euros), e dos dois anéis (com o valor total de quase 80 euros). Entretanto, menciona que não foi capaz de apurar os preços das peças de alta joalharia, e recomenda que as autoridades entrem em contacto direto com a proprietária das mesmas. A designer foi notificada a 9 de março – quase dois meses depois de apresentar queixa contra as duas stylists na PJ de Lisboa, numa altura em que os dois inquéritos ainda corriam separados. À data da publicação deste artigo, o caso continua entregue à PSP.

Quase um ano antes das joias da Fiorire desaparecerem, um outro colar avaliado em mais de 10 mil euros também desapareceu depois de ser emprestado por uma outra marca à mesma stylist. Também nesta ocasião, a stylist imputa que o desaparecimento aconteceu às mãos do assistente.

O colar de diamantes que “desapareceu” num jantar e os vestidos que voltaram rasgados

Quase um ano antes das joias da Fiorire desaparecerem, um outro colar avaliado em mais de 10 mil euros também desapareceu depois de ser emprestado por uma outra marca à mesma stylist. A peça de ouro e diamantes foi usada pela cantora Bárbara Bandeira, com quem Raquel Guerreiro trabalha há anos, num evento promocional da artista em março de 2025. Mas, a dada altura, a cantora trocou de roupa e surgiu já sem a joia, como mostram as fotografias que a própria partilhou nas redes sociais. O que aconteceu ao colar? Ninguém sabe.

Contactada pelo Observador, a assessoria da cantora esclarece que “nos casos referidos, sempre que utilizou peças cedidas, a Bárbara fê-lo no contexto profissional previsto, entregando-as à equipa responsável nos momentos adequados de troca de look ou conclusão dos trabalhos”.

A “equipa responsável”, no caso, era Raquel Guerreiro e o assistente da época, Afonso Albano. Numa mensagem de Whatsapp posterior trocada com a stylist, a que o Observador teve acesso, os dois stylists discutem onde o colar poderia estar. “Eu tenho a certeza que [a Bárbara] não nos deu [as joias]. Eu nem tava lá quando ela tirou o colar. Tanto que achava que ela ficou com ele a noite toda”, escreve Albano. “Eu também tinha essa ideia”, admite Raquel Guerreiro. “Prevejo mais uma relação ir para o caralh*”, continua a stylist. “Não sei como vou descalçar esta bota”.

Também nesta ocasião, a stylist imputa que o desaparecimento aconteceu às mãos do assistente. “Após a mudança de look, as joias foram entregues a essa pessoa de confiança”, diz a stylist ao Observador. Esta versão é totalmente refutada por Albano, que diz que nunca recebeu o colar das mãos da cantora. “Quem despiu a Bárbara foi a manager. Quando chegámos lá ela já se tinha trocado”, refere.

Só cerca de um mês depois do desaparecimento, a 16 de abril de 2025, é que Raquel Guerreiro registou uma queixa na PSP de Lisboa, em que descreve que o colar foi furtado juntamente com três cartões de crédito. O Observador confirmou junto a fonte do Ministério Público que este inquérito se encontra arquivado.

A peça foi emprestada pela joalharia de Gonçalo Pinheiro, que ao Observador recorda já ter cedido joias à stylist em outras ocasiões. “Havia sempre alguns atrasos, era difícil de contactar, mas depois entregava tudo, nunca faltou nada, temos que dizer as coisas como elas são”, esclarece o empresário, que tem décadas de experiência no ramo da joalharia. “Vivo muito no meio artístico, e sei como é que as coisas funcionam. Às vezes, pode haver realmente mau trato nas peças, pode haver muita loucura e muito stress também, e as coisas às vezes não correm como eles querem, há muita pressão em cima. É um mundo que quem está por dentro vê a parte da produção: a quantidade de coisas, vestidos, marcas, sapatos, joias, quer dizer, é o mundo.” Quando soube do desaparecimento do seu colar no evento, Gonçalo Pinheiro diz que decidiu cobrar apenas o valor de custo da peça. “Tive muita paciência. Disse: ‘pelo menos pague-me ou arranje-me o valor do preço de custo da peça, 3 mil euros só para recuperar pelo menos a matéria-prima.’ Fui um pouco solidário com a situação e não quis estar a pôr lucro na peça.”

Raquel Guerreiro confirma que “o gerente concedeu algum tempo para encontrar uma solução”. “Da minha parte, mantive sempre contacto e propus diferentes alternativas para resolver o assunto. Infelizmente, a pessoa diretamente responsável optou por deixar de responder, o que dificultou a resolução”, acusa, referindo-se ao antigo colaborador, que foi quem assinou o termo de responsabilidade exigido pela marca de joias. “Eu assinava todos os termos de responsabilidade da Raquel, eu trabalhava para ela como stylist da empresa”, refere Albano. “A pessoa responsável é ela, ela é a empresa”, defende-se o antigo assistente.

Gonçalo Pinheiro confirma que permaneceu em contacto com Raquel Guerreiro nos meses seguintes ao desaparecimento, e chegou a combinar planos de pagamento de 500 euros por mês. Em novembro de 2025 a stylist terá enviado um “comprovativo de pedido de transferência” no valor de 1550 euros, mas Gonçalo Pinheiro diz que não recebeu o valor e insistiu ao longo do mês de dezembro.

Até que a 11 de janeiro, no dia que a joalheira Maria Baptista expõe o desaparecimento das joias da sua marca, o empresário terá recebido uma chamada da stylist. “Ela ligou-me a dar satisfação sobre o caso da Maria Baptista, [a dizer] que ela não tinha roubado nada, que não tinha sido ela, que desapareceu, pronto. Estivemos a lamentar a situação. E o que é que aconteceu? Aconteceu que ela arranjou o dinheiro, e perguntou se me podia pagar o valor de 1.500 euros. Fez-me um pagamento no dia 12 de janeiro de 2026”, recorda.

Em fevereiro, o empresário já havia recebido o restante do valor da peça, um total de 1863 euros, dívida saldada por Bárbara Bandeira, que terá ligado ao empresário diretamente para tratar do pagamento, conta o dono da joalharia. “A Bárbara foi uma querida, tentou rapidamente resolver o problema. Disse-me: ‘olha, Gonçalo, eu não sabia do que se passava. Se eu soubesse, já tinha pago, porque é o meu nome que está em causa.’ Ela depositava muita confiança na Raquel, sempre a tentou ajudar, foi uma pessoa com quem ela trabalhou durante muitos anos.”

Confrontada com a alegação de que terá sido Bárbara Bandeira a saldar a dívida, Raquel Guerreiro afirma que posteriormente terá reembolsado a artista. “É verdade que não consegui cumprir o prazo inicial de pagamento da peça, mas em momento algum deixei de estar em contacto com a marca ou de procurar uma solução para regularizar o valor em falta. Numa fase posterior, o montante em dívida foi adiantado por terceiros e, de seguida, por mim integralmente reembolsado. Ou seja, a dívida não foi deixada a cargo de terceiros; foi assumida e liquidada por mim.” A assessoria da cantora esclareceu que “assim que [a artista] tomou conhecimento da existência de valores em aberto e da associação do seu nome a estes processos, procurou garantir que nenhuma marca ou profissional fosse prejudicado, estando esses valores a ser regularizados pela stylist”, destacando que “a artista mantém uma relação estritamente profissional com a stylist em causa e reforça que estas situações dizem respeito a uma gestão externa à Bárbara Bandeira e à sua equipa direta.”

O Observador ouviu pelo menos outros dois relatos de pessoas que dizem terem sido abordadas depois do caso de Maria Baptista  se tornar público para saldar dívidas da stylist. Um deles é o antigo assistente que assinou o termo de responsabilidade do colar perdido, que tentava levar a stylist a tribunal por alegadamente não ter sido pago por trabalhos realizados ao longo de 2025. De acordo com Afonso Albano, Raquel Guerreiro recusava-se a pagar porque considerava que este tinha a obrigação de arcar com parte do custo da joia. O antigo assistente diz que retirou o processo contra Raquel Guerreiro em meados de março de 2026, depois da equipa da própria Bárbara Bandeira pagar os valores em falta. Sobre o caso, a stylist contesta: “essa pessoa não tem qualquer valor em aberto a receber da minha parte.”

Uma designer portuguesa, que falou com o Observador sob condição de anonimato, também relata como emprestou dois vestidos à stylist em maio de 2024 e recebeu as peças danificadas algumas semanas depois. Desde então que tenta recuperar o valor devido, sem sucesso. Só em janeiro de 2026, depois do caso da Fiorire vir à tona, Raquel Guerreiro terá entrado em contacto com criadora para lhe pagar – uma dívida que ainda não foi liquidada.

O empréstimo foi para uma influencer usar no festival de Cannes: dois vestidos com gola alta, um preto e um branco. Dias depois, a designer relata que recebeu apenas um dos dois vestidos emprestados: e quando abriu a embalagem deparou-se com a gola cortada. “Nem sei explicar, aquilo nem foi cortado direito, parece que foi cortado com corta-unhas. Foi propositado, porque os vestidos têm uma gola alta que é muito justa, mas têm elasticidade. E claramente foi por preguiça ao tirar o vestido. É uma falta de respeito, falta de consideração pelo trabalho da pessoa.”

Já o outro vestido, branco, terá atrasado porque estava na lavandaria, informou a stylist à designer na altura. A criadora pediu então ao assistente de Raquel Guerreiro para que lhe fosse enviada uma fotografia da peça no momento em que deixasse a lavandaria: foi quando identificou o atelier de costura em Lisboa com quem costuma trabalhar, e percebeu que esta peça também havia sido danificada. A designer ligou imediatamente para a costureira: “Ela disse-me: ‘Filha, eu não conseguia mandar-te o vestido no estado em que ele veio, porque para além de estar todo sujo de maquilhagem, está todo cortado na gola’. Ou seja, fizeram ao vestido branco o mesmo que fizeram ao preto”, queixa-se. A designer diz que ligou imediatamente para Raquel Guerreiro. “Disse-lhe que é uma falta de consideração, uma falta de respeito. O tempo que demorou… Emprestei os vestidos no final de abril ou início de maio e só me foi entregue no final de junho. É muito tempo para manter uma peça na posse, sem sequer ter a delicadeza de dizer: ‘olha, estamos com muito trabalho’. É o que se faz quando temos uma coisa que está na nossa posse que temos de devolver”, diz a designer, que esclarece que “passados uns dias, a Raquel mandou uma mensagem a querer resolver as coisas, a dizer que não sabia o que é que se tinha passado, mas que se responsabilizava pelo pagamento da peça.”

Várias dívidas da stylist foram saldadas nos últimos meses. Raquel Guerreiro fala num “esforço mais alargado de pôr em dia pendências antigas" e diz que "não resultou especificamente do incidente relacionado com as joias.”

Raquel Guerreiro confirma que em 2024 tentou “chegar a um entendimento com a designer em causa, que à data se mostrou pouco flexível quanto à forma de resolução”. Contudo, a stylist alega que “em agosto/setembro de 2025” voltou “a abordar o tema através de um contacto em comum” que a “aconselhou a deixar o assunto para trás”. “Há testemunhas”, defende-se. A designer explica que não mantém contacto com Raquel Guerreiro, mas que recebeu um “comprovativo de transferência” no início de maio de 2026. No entanto, até ao momento da publicação deste artigo, a designer diz ter recebido apenas metade do valor em falta.

Sobre as dívidas, Raquel Guerreiro explica que “nos últimos anos” procurou “ir regularizando, de forma gradual e responsável, diferentes situações profissionais pendentes, em função da capacidade financeira da [sua] atividade e sem comprometer as responsabilidades correntes da empresa”. A stylist indica ainda que “em meados de dezembro”, retomou “a lista de situações por regularizar e, em janeiro, entrou “em contacto com várias marcas relativamente a temas ainda em aberto”. Faz questão de frisar que os casos mencionados integram “esse esforço mais alargado de pôr em dia pendências antigas e não resultou especificamente do incidente relacionado com as joias.” Raquel Guerreiro afirma que “neste momento, existe apenas uma situação ainda em fase de regularização com uma designer, relativa a factos anteriores e já identificados junto da própria.”

“Não é a nossa stylist favorita”

No decurso desta reportagem, chegaram ao Observador mais de uma dezena de outros relatos de designers, marcas, e showrooms envolvendo o nome de Raquel Guerreiro – há quem refira mesmo que a stylist tem “má reputação”. Entre os episódios descritos estão outras peças alegadamente furtadas, itens danificados, roupas emprestadas que “ficaram um mês perdidas na casa da Bárbara Bandeira”, alugueres não pagos ou pagos com atraso, condições de contrato e utilização – como a identificação da marca nas redes sociais – que não foram respeitadas, e empréstimos para uma figura pública que foram usados por outra.

“No passado já tivemos situações dessas, pessoas identificadas [a quem não emprestamos peças], mas atualmente não”, diz uma trabalhadora de um dos principais showrooms nacionais, que fala sob a condição de anonimato. Raquel Guerreiro não está impedida de requisitar peças, mas “digamos que não é a nossa stylist favorita”, assume. “É daquelas pessoas que não adoramos porque é muito difícil depois agendar recolhas, entregas, devoluções”, continua.

“As coisas são levadas para uma pessoa e são usadas para outra, estão imenso tempo fora, às vezes a pessoa para quem as levou depois fica com elas”, resume. “Não é um crime, mas mostra falta de transparência e abuso de relação, é tricky com alguns clientes… Às vezes as coisas aparecem até em publicidades… Mostra um bocadinho de desonestidade”. Nota, no entanto, que “não é nem a primeira nem a segunda que faz isso”.

Outro profissional de showroom que não se quis identificar recorda um episódio desagradável com Raquel Guerreiro. “Já tive uma peça de roupa que nunca me foi devolvida. A justificação foi que o talento queria ficar com a peça.” Segundo o trabalhador, a stylist insistiu repetidamente para que a peça permanecesse com o artista, apesar das recusas do showroom. “Disse várias vezes que não, mas levou-me à exaustão e acabei por desistir. Tentei ligar-lhe várias vezes.” A peça teria sido usada por um cantor conhecido, mas a comunicação nunca foi clara. “Não houve transparência. Só no final é que percebi o que se estava a passar. Sei que a peça foi usada uma vez, mas não sei se voltou a ser utilizada. Foi a única vez que alguém não me devolveu uma peça apesar de eu ter pedido”.

Os relatos continuam: em alguns casos a stylist terá argumentado que a figura pública quis ficar com a peça, noutros terá afirmado que não tinha percebido as condições, e em muitos terá dito que a responsabilidade era do assistente com quem trabalhava. Dois antigos assistentes relatam terem feito contactos em nome de Raquel Guerreiro porque as marcas já não trabalhavam com a stylist. “Recordo-me que ela pedia-me para falar (com as marcas) por ela, porque se ela fosse falar, não iria ter sucesso. Na minha experiência profissional, a Raquel sempre foi uma pessoa muito pouco organizada, com uma atitude muitas vezes de negligência para com as coisas, não numa medida intencional, mas mesmo só por descuido”, assinala uma das pessoas que trabalhou com a stylist.

As queixas de profissionais do setor sobre como a engrenagem funciona no meio multiplicam-se. Uma ex-trabalhadora de showroom relata mesmo um “modus operandi”. “Acontecia todos os meses os “shoppings” serem devolvidos com peças em falta, ou por esquecimento, lapso ou outros motivos", diz ao Observador

Raquel Guerreiro diz que não considera o desaparecimento ou os danos às peças algo “frequente”, mas reconhece que “na área em que trabalho, lidamos regularmente com peças frágeis, de alto risco e com valores muito elevados. Quando ocorre um dano ou desaparecimento, a pressão recai quase sempre sobre a credibilidade do stylist, mesmo em situações em que há mais intervenientes ou fatores externos. Na minha opinião, o setor ainda não tem regras claras nem mecanismos equilibrados de proteção, quer para os profissionais que recebem peças em regime de empréstimo, quer para designers e marcas. Isso faz com que, quando surge um problema, muitas vezes falte um enquadramento objetivo e transparente para o resolver.”

Perdas, ghosting e um “modus operandi”: showrooms descrevem más práticas

Contudo, Raquel Guerreiro não parece ser um caso isolado – as queixas de profissionais do setor sobre como a engrenagem funciona no meio multiplicam-se. Uma ex-trabalhadora de showroom relata mesmo um “modus operandi”. “Acontecia todos os meses os “shoppings” serem devolvidos com peças em falta, ou por esquecimento, lapso ou outros motivos.” Dentro desta última incluem-se a perda, sobre a qual seria imputado um valor do showroom ao stylist responsável e pago à marca; roubos, com devido auto policial como prova e que poderiam ou não envolver o pagamento das peças, sendo que o profissional deve ter um seguro para tal; um simples “ghosting” dado ao responsável de showroom ou, algo mais complexo: “os pedidos dos talentos”. “De X peças que eram emprestadas, voltavam com 1 ou 2 a menos, sendo depois informado à marca que a figura pública ‘adoraria’ ficar com essas peças.” E mais: muitas vezes após o “não” do showroom a esses pedidos, os stylists contactavam diretamente a marca com o pedido do talento, sendo que, também em muitos casos, essa peça não tinha tido qualquer visibilidade ou retorno à marca – isto é, não foi utilizada para a finalidade que havia sido requisitada, tendo estado fora do showroom por muito tempo e, portanto, tendo perdido outras oportunidades de comunicação.

Num outro proeminente showroom nacional, as críticas à falta de transparência no circuito de empréstimo de peças também surgem de forma recorrente. Um trabalhador do setor, que pediu anonimato, descreve um sistema onde os problemas “raramente chegam ao extremo”, mas onde as más práticas são frequentes. “O mais comum é a peça voltar suja ou danificada. Mas lá está, somos um showroom… acabamos muitas vezes por assumir esse prejuízo”, afirma, entre risos. “Por norma, ficamos com essa parte.” Apesar de garantir que os casos de desaparecimento de peças são raros, admite que existem episódios difíceis de resolver. “Raramente não nos devolvem peças. O que acontece mais é termos de fazer um follow-up chato.”

O profissional sublinha que o setor funciona, em grande parte, com base em relações de confiança. “Trabalhamos muito com os mesmos stylists. Quando aparece alguém novo, tentamos sempre perceber com quem trabalha ou para que publicação vai. Já aconteceu dizerem que era para uma revista e depois não ser verdade.” Para minimizar riscos, alguns showrooms começaram a implementar medidas adicionais de controlo. “Para certas peças pedimos termos de responsabilidade. Em joalharia, por exemplo, algumas marcas exigem sempre esse tipo de documentação.” Também os envios passaram a ser mais monitorizados. “Tentamos usar uma fita-cola específica para garantir que as caixas não são abertas durante o transporte. Já nos aconteceu receber peças de outros showrooms por engano.”

Ainda assim, há situações que permanecem sem explicação. O trabalhador recorda um episódio envolvendo uma peça desaparecida num envio internacional. “O stylist disse que tinha colocado a peça na caixa. Nós tínhamos registo do peso na ida e na volta, e o peso até era superior no regresso. Mas quando a caixa chegou diretamente à marca, a peça não estava lá.” O caso acabou por ser resolvido porque a marca aceitou suportar os custos da peça desaparecida, mas nunca se descobriu o que realmente aconteceu. “Foi uma luta durante algum tempo. No fim, é sempre a palavra de um contra o outro. A desculpa são as confusões de produção.”

“Todo os designers têm a sua lista negra”

Esmeralda Dias, a designer por trás da marca Zalda, de Santa Maria da Feira, levou o tema para o Tik Tok. Num vídeo publicado no início deste ano que chegou a centenas de milhares de visualizações, a jovem criadora conta um episódio em que emprestou peças a um stylist para vestir um artista para um concerto; depois de meses à espera, foram-lhe devolvidas umas calças da Bershka no lugar das suas. Ao Observador a designer não quis revelar com quem teve a má experiência.

O caso aconteceu há alguns anos, depois de a designer participar no concurso Bloom, espaço dedicado a novos talentos do Portugal Fashion. Zalda conta que na altura foi contactada por alguns stylists, o que viu como uma oportunidade de ganhar mais visibilidade, e por isso decidiu emprestar peças para um profissional que vestia um cantor. Contudo, surpreendeu-se quando teve as suas roupas devolvidas, meses depois do evento que havia sido acordado. “Recebi uma primeira encomenda em que as minhas peças estavam todas viradas do avesso e percebi o porquê: estavam estragadas. Uma delas estava com um golpe no decote que é preciso ir lá com uma tesoura para o fazer. Na verdade, recebi umas calças da Bershka em vez das minhas”, assinala a designer, que conta ter tido uma resposta agressiva por parte do stylist e do artista, ao questionar o estado em que as suas roupas foram devolvidas. “Recebi também a mensagem do próprio artista, de muito mau tom mesmo, e a dizer que amigos dele, mesmo que gostassem da minha marca, nunca a iriam usar.”

@zalda.pt storytime: quando emprestei peças a um artista e, na devolução, recebi umas calças da bershka em vez das da minha marca. #marcaportuguesa#freelancer#storytime#tuga♬ som original - ZALDA

Diante da situação, Zalda passou a trabalhar de forma diferente. Agora só empresta peças a artistas se puder ir ao evento, vestir a figura pública e depois levar as roupas com ela. “Eu própria fico encarregue de levar a peça para o evento e de fazer os meus conteúdos. No fim, eu levo as minhas peças embora. É uma forma que nos salvaguarda a responsabilidade de ambos, porque eu nunca deixo de estar com as peças”. A jovem criadora ainda desenvolveu um projeto em que convida artistas locais para tocarem no seu estúdio, uma forma de construir sinergia entre profissionais que estão a começar. “Vou percebendo que entrar em contacto com designers que estão literalmente a dar os primeiros passos é uma espécie de padrão. Portugal é um país muito pequeno e a minha carreira podia acabar antes de começar, mas é importante abrir esta porta para falar sobre isto, porque ninguém falava. A minha intenção era alertar pessoas que podem estar na minha posição para se precaverem”, assinala, sobre o motivo de ter partilhado a sua história nas redes sociais.

Nos bastidores da ModaLisboa, questionados sobre como costumam trabalhar ao vestir figuras públicas, os designers mostram-se mais cautelosos. Muitos reservam-se ao direito de trabalhar apenas com aqueles em quem confiam plenamente e alguns só aceitam ceder peças com contrato e para eventos específicos. “Todo os designers têm a sua lista negra”, ouvimos, a determinado momento. Consideram, em muitos casos, que o risco de ceder temporariamente uma peça – que no caso da moda de autor envolve materiais e mão de obra especializados e produções únicas – é muito mais elevado do que o ganho efetivo com a visibilidade que têm. “Isto é toda uma questão sobre o nosso sistema da moda neste momento”, analisa Çal Pfungst, que reconhece que “tinha uma fase em que emprestava muito, agora já não tanto. Depende muito da pessoa”. Para Bárbara Atanásio, o mais importante ao emprestar uma peça é a identidade da figura pública relacionar-se com a marca. “É sobre construir relação. Há pessoas que nos fazem sentido e não é só por serem a imagem da marca. Porque há pessoas que têm um estilo parecido, mas depois, conhecer pessoas de outras áreas também pode enriquecer o nosso trabalho”, destaca.

Uma das criadoras do Workstation que mais figuras públicas levou para o Pátio da Galé na última edição da semana da moda da capital, Francisca Nabinho é direta quando questionada sobre como a sua marca tem lidado com os pedidos de stylists. “Hoje em dia praticamente só faço empréstimos quando é para verem o meu desfile ou quando é para uma coisa muito específica que eu sei que vai dar retorno”, diz a jovem criadora, que é crítica quanto à forma como este meio funciona. “Acho que a indústria está toda muito mal pensada. Quando se faz um editorial toda a gente está a ganhar dinheiro menos os designers. Nós acabamos por emprestar peças que têm um grande destaque no conteúdo que é lançado, mas às vezes nem sequer somos identificados. Ou então levam-nos as peças a passear, experimentam, sujam com maquilhagem, às vezes até perdem peças que nem sequer chegam a ser usadas. Portanto, enquanto a história for esta, evito emprestar.”

Ana Rita de Sousa, criadora da marca Arndes, também tem ressalvas com o meio e diz recusar muitos trabalhos. “Tenho boas relações com stylists que estão há muito tempo na área, com quem não tenho razão de queixa nenhuma. São muito organizados em termos de timings, pedem peças com tempo, planeiam muito bem os shootings ou editoriais”. Para tentar prevenir incidentes, fez questão de procurar aconselhamento jurídico para formular o seu contrato. “Desde o início, especialmente com pessoas que não conheço, tenho um contrato, com formulário em que o stylist preenche com os seus dados pessoais e são colocadas as peças que estão a requisitar e o valor final do consumidor ao comprar a peça. Se existirem danos, roubo ou que quer que seja, este contrato é ativado, e a pessoa é obrigada a pagar”, explica. “A partir do momento que assina, está a concordar com os termos do contrato”, assinala a designer. Ana Rita Sousa considera ainda que usar contratos como este “acaba por criar alguma disciplina com os stylists, para terem mais responsabilidade para com os outros”.

Entre os mais experientes, Ana Duarte, da DuarteHajime, diz que emprestar roupas para figuras públicas faz parte da divulgação da marca, apesar do risco. “Costumam ser os stylists ou as agências que entram em contacto connosco, por norma. Depois acaba-se por se criar uma relação, e há pessoas que acabam por estar em contacto com a marca há vários anos. Cria-se uma comunidade”, assinala a designer. Também Luís Carvalho, designer conhecido por vestir muitas famosas nacionais, diz que tem uma relação muito próxima com as figuras públicas que usam as suas peças, e prefere deixar a parte burocrática com o showroom que o representa. “Procuro algumas figuras públicas da nova geração, também para tentar públicos novos. É importante para ajudar a promover o nosso trabalho. Já não temos tanta visibilidade em Portugal. É preciso estar associado a figuras públicas também para isso, ajudar na comercialização, na visibilidade.”

Ser stylist em Portugal “é uma profissão insalubre, mas que para fora passa um ar glamouroso”

Se, por um lado, há marcas e relações públicas que denunciam perdas de peças de roupa, joias e acessórios, do outro lado há stylists que descrevem uma profissão marcada pela precariedade, pela ausência de regulamentação e por uma responsabilidade que, muitas vezes, recai inteiramente sobre quem faz os empréstimos. “Não sinto que exista uma maneira padrão de fazer as coisas em Portugal e, por consequência, estamos muito vulneráveis”, conta uma stylist ao Observador, sob anonimato. “Normalmente não há contratos como os que fazem com produtoras e pagam-nos a 90 dias muitas vezes. É uma profissão insalubre, mas que para fora passa um ar glamouroso.”

Stylists descrevem o mercado português como pouco exigente no controlo de quem pede peças emprestadas. Pedidos internacionais implicam frequentemente o envio de portefólio, media kits, dados de alcance digital e justificação detalhada do contexto em que a peça vai ser usada. "Aqui parece que não é preciso muita carreira”, afirma uma stylist ouvida pelo Observador. “Reclamam da pessoa, mas também sinto que não foram confirmar"

Vários profissionais ouvidos para esta reportagem descrevem um setor assente, sobretudo, em relações de confiança entre stylists, marcas, showrooms e agências de comunicação. Embora existam termos de responsabilidade e sistemas de controlo em alguns casos, a formalização continua longe de ser regra, e, no final, impera a sensação de falta de proteção. “Quem assume os custos, regra geral, é o stylist. Não existe outra regulamentação no meio que nos proteja”, verbaliza Tiago Miguel Andrade, que trabalha na área há 11 anos. O stylist explica que, mesmo quando os incidentes acontecem fora do seu controlo — durante um evento, um shooting ou no contacto com artistas e modelos — a responsabilidade tende a recair sobre quem requisitou as peças. “Não diria [que incidentes com peças seja] comum, mas muito possível. Não somos nós que estamos a usar as peças em set e, por muito que tentemos controlar todos os movimentos dos modelos, artistas ou clientes, existe sempre espaço para algo acontecer”, diz. “É algo que tenho como preocupação na minha mente 24 horas por dia num dia de produção.”

Apesar disso, há profissionais que sublinham que a gestão rigorosa das peças faz parte central do trabalho. Diana Vinha, stylist e cofundadora da Pretty Exquisite Image Consulting, diz nunca ter perdido uma peça em mais de 15 anos de carreira. “A logística de peças em produções exige muita organização e controlo, porque muitas vezes estamos a lidar com peças únicas ou de coleção”, explica. A stylist descreve um processo minucioso de tracking, com listas detalhadas de empréstimos, datas de levantamento e devolução, além de registo fotográfico das peças antes e depois da utilização. “Grande parte do trabalho de um stylist acontece fora da fotografia: na logística, nas relações com marcas e no cuidado quase obsessivo com cada peça”, afirma.

Segundo testemunhos de vários profissionais, o processo de empréstimo varia consoante o tipo de projeto — editorial, passadeira vermelha, videoclipe ou publicidade — e o grau de exigência das marcas que cedem os artigos. Em produções internacionais, é comum a existência de pull letters ou cartas de responsabilidade emitidas por revistas, produtoras ou showrooms. O Observador teve acesso a vários exemplos de termos de responsabilidade, alguns com regras claras. No entanto, em Portugal, dizem vários profissionais, esses mecanismos nem sempre existem.

Aliás, muitos stylists descrevem o mercado português como pouco exigente no controlo de quem pede peças emprestadas. Uma stylist com largos anos de experiência refere como os pedidos internacionais implicam frequentemente o envio de portefólio, media kits, dados de alcance digital e justificação detalhada do contexto em que a peça vai ser usada. “Se vou pedir roupa fora, vão verificar muito mais o meu trabalho e portefólio. Aqui parece que não é preciso muita carreira”, afirma. “Reclamam da pessoa, mas também sinto que não foram confirmar.”

Apesar de incidentes como extravios, roubos ou danos não serem descritos como frequentes, os stylists admitem que o risco é permanente, sobretudo quando trabalham com peças de luxo, joias ou relógios de elevado valor. “São sempre milhares de euros na minha mala”, resume Tiago Miguel Andrade. Os profissionais entrevistados concordam, no entanto, que o lado mais invisível da profissão continua pouco compreendido fora da indústria. Entre inventários, registos fotográficos, devoluções, seguros e negociações constantes com marcas, o trabalho de styling está longe da imagem exclusivamente glamourosa associada à moda e às celebridades.