(c) 2023 am|dev

(A) :: Desacatos em Belfast após homem sudanês ter tentado "decapitar" uma pessoa. Suspeito entrou no Reino Unido em 2023 e tem estatuto legal

Desacatos em Belfast após homem sudanês ter tentado "decapitar" uma pessoa. Suspeito entrou no Reino Unido em 2023 e tem estatuto legal

Um homem sudanês de cerca de 30 anos foi detido e acusado de tentativa de homicídio depois de agressão com um objeto cortante na Irlanda do Norte. Caso volta a reavivar tensões quanto à imigração.

Mariana Marques Tiago
text
António Moura dos Santos
text
Larissa Faria
text

Um homem oriundo do Sudão foi preso e acusado de tentativa de homicídio em Belfast, após atacar a sua vítima com um objeto cortante. Este novo crime violento voltou a deflagrar as tensões no Reino Unido quanto à imigração, com desacatos a ocorrerem na capital da Irlanda do Norte.

A vítima, identificada como Stephen Ogilvie, um homem de 44 anos, estava deitada no chão com o suspeito sentado sobre o seu corpo a atacá-la com um objeto cortante, entretanto identificado como uma faca. Os moradores intervieram e pararam o ataque, descrito pelas testemunhas no local como uma tentativa de decapitação.

O crime, que ocorreu na noite de segunda-feira, foi captado num vídeo que se tornou viral nas redes sociais e motivou declarações do primeiro-ministro do Reino Unido. No rescaldo deste ataque, as autoridades e vários atores políticos apelaram à calma e ao protesto pacífico, mas ao fim da tarde desta terça-feira, começaram a ser registados desacatos em Belfast e nos arredores da cidade.

Segundo a imprensa britânica, pelas 19h30 começaram a surgir ajuntamentos de manifestantes vestidos de preto em vários pontos da capital norte-irlandesa e também em alguns dos subúrbios.

https://observador.pt/2026/06/09/carros-em-chamas-e-estradas-bloqueadas-na-irlanda-do-norte-apos-ataque-de-homem-sudanes-policia-fala-em-focos-esporadicos-de-desordem/

A polícia já emitiu um comunicado, com o chefe adjunto da polícia local, Ryan Henderson, a classificar a situação como “focos esporádicos de desordem” em vários locais da Irlanda do Norte esta noite. O responsável pediu às pessoas para manterem a calma e evitarem atividades que possam colocar em risco a sua própria segurança ou a de terceiros.

“Os agentes estão no terreno, a trabalhar em conjunto com as agências parceiras, a responder aos incidentes à medida que estes ocorrem e a ajudar a garantir a segurança das pessoas”, afirmou Henderson, que apelou também a “todas as vozes influentes nas comunidades locais para que incentivem a manifestação pacífica e desencorajem qualquer envolvimento em atos de violência ou desordem”.

Suspeito entrou no Reino Unido em 2023 e estava em situação legal

Por volta das 22h30 de segunda-feira (a mesma hora que em Portugal), a Polícia da Irlanda do Norte (PSNI) foi chamada a Kinnaird Avenue, na capital deste estado pertencente ao Reino Unido, após um homem de 44 anos ter sofrido “ferimentos graves” na região do pescoço, rosto e costas, lê-se no The Telegraph. E escreve que ambos os homens vivem naquela região, de acordo com o deputado do Partido Unionista Democrático (DUP), Brian Kingston, que diz ter falado com o comandante da área norte de Belfast.

Quando chegaram ao local, depararam-se com vários residentes à volta do atacante. No vídeo — de extrema violência e que entretanto se difundiu na internet —, é possível ver o atacante em cima da vítima, enquanto várias testemunhas gritam para que pare com a agressão, cometida provavelmente com uma faca de cozinha encontrada no local.

Nas imagens, vê-se também o momento em que alguns homens, que assistiam ao ataque, intervieram e derrubaram o atacante. Um deles, entretanto identificado pelo Telegraph, disse que se trata de um homem que estava de passagem no local e atacou o agressor com um taco de hurling, um desporto popular na Irlanda do Norte.

O sudanês foi identificado pelas autoridades como Hadi Alodid, de 30 anos. Foi presente ao tribunal de Belfast nesta quarta-feira, acusado de tentativa de homicídio contra Ogilvie, ameaça de morte contra um técnico de radiologia do NHS e porte de faca, avançou o The Guardian. Alodid, que chegou ao país através da Irlanda, tinha autorização de residência com validade de cinco anos para permanecer no Reino Unido. O juiz Steven Keown negou a libertação mediante caução e decidiu manter o homem preso preventivamente até ao dia 8 de julho, quando o caso será julgado. Relativamente às manifestações violentas que se sucederam, o magistrado afirmou que os criminosos “também podem esperar ir para a prisão“.

Numa conferência de imprensa organizada em Stormont, o parlamento norte-irlandês, o chefe da Polícia da Irlanda do Norte, Jon Boutcher, confirmou — escreve a Sky News — que o suspeito recebeu autorização para permanecer no Reino Unido a 28 de setembro de 2023, ou seja, encontrava-se em situação legal. De acordo com Boutcher, o atacante fez um trajeto do Sudão para Paris, em França, e desta cidade para Dublin, na República da Irlanda, não sendo conhecidas as datas em que estas viagens foram feitas. No entanto, a polícia sabe que o suspeito foi de Dublin para Belfast de autocarro a 10 de fevereiro de 2023 e solicitou asilo nessa data.

Não se sabe, de momento, se o homem entrou ilegalmente no país, mas “não havia nada que impedisse esse indivíduo de entrar neste país, e ele solicitou autorização para permanecer através do seu pedido de asilo”. “Ainda não determinámos qual era o seu estatuto quando atravessou a fronteira, mas é algo que iremos analisar e que virá a ser esclarecido a seu tempo”, garantiu Boutcher. Citado pelo Telegraph, o chefe adjunto da polícia local disse que o ataque, ainda com motivação desconhecida, está a ser tratado “com a máxima seriedade”.

Antes, Henderson já tinha referido que “o indivíduo tinha autorização para permanecer na Irlanda do Norte”, mas deixou mais esclarecimentos para depois. Segundo o Telegraph, Downing Street tinha-se recusado a confirmar se o agressor estava no Reino Unido, mas o mesmo jornal entretanto confirmou junto do Ministério do Interior que o suspeito tinha autorização de permanência no Reino Unido até 2028.

O chefe da Polícia da Irlanda do Norte sublinhou também que o suspeito não estava referenciado pela PSNI e não constava das bases de dados de segurança nacional.

Ao fim da tarde, a PSNI informou que o atacante foi formalmente acusado dos crimes de “tentativa de homicídio, posse de um objeto com lâmina ou ponta num local público e ameaças de morte”, tendo de comparecer no Tribunal de Primeira Instância de Belfast esta quarta-feira, 10 de junho.

Polícia não tem “informações que sugiram” ataque terrorista

Nas últimas horas, face à indignação que o caso gerou, surgiram apelos a protestos por toda a Irlanda do Norte. Antecipando confrontos esta terça-feira, alguns hotéis e comércio da capital norte-irlandesa reforçaram a segurança e a Grand Opera House de Belfast cancelou o espetáculo marcado para esta noite.

O chefe adjunto da polícia Ryan Henderson pediu calma à população e vincou que “a segurança é a prioridade” das autoridades, cita o Telegraph. E afirmou ainda em declarações aos jornalistas que até ao momento não há provas de que se tenha tratado de um ataque terrorista.

“Ao longo do dia de hoje, temos estado em contacto com os nossos principais parceiros de combate ao terrorismo. Neste momento, não temos informações que sugiram que este tenha sido um ataque relacionado com terrorismo. No entanto, devo ressalvar que ainda estamos numa fase inicial da investigação”, afirmou Ryan Henderson. Já Boutcher completou mais tarde que a PSNI acredita que foi um ato cometido a solo e “não está à procura de mais ninguém relacionado com o que aconteceu ontem à noite”.

O chefe da polícia norte-irlandesa garantiu ainda o reforço da presença policial em toda a Irlanda do Norte nos próximos dias e repetiu os apelos deixados à população para manter a ordem, ainda que entendendo os motivos de protesto.

“Compreendo que a tentativa de homicídio da noite passada vá deixar as pessoas enfurecidas, com emoções que vão do medo à raiva, mas, por favor, deixem a polícia fazer o seu trabalho sem restrições e sem se distrair com eventuais preocupações mais amplas sobre distúrbios”, afirmou Boutcher.

O chefe da PSNI foi ainda mais longe, deixando críticas indiretas a algumas figuras associadas à direita no Reino Unido, pedindo aos norte-irlandeses que “não deixem que pessoas que nada sabem sobre a Irlanda do Norte influenciem, à distância, através das redes sociais, o comportamento da nossa população”.

“Não deixem que as ações desse homem causem mais danos a mais ninguém”, apelou, pedindo também “que tenham cuidado com o que veem e partilham online”, porque “partilhar imagens corre o risco de causar mais trauma à família e aos entes queridos do homem ferido e pode afetar esta investigação”.

Nesta quarta-feira, a família da vítima disse à BBC estar “completamente devastada pelo ataque horrível“, tendo agora como prioridade ajudar o homem na sua recuperação. Agradeceram ainda o apoio das pessoas que tentaram salvar a sua vida, intervindo “corajosamente”, pelo que disseram que “nunca irão esquecer o que estas pessoas, os serviços de socorro, médicos e enfermeiros fizeram e têm feito”.

Sobre as reações que se sucederam, disseram que os distúrbios causados “não são bem-vindos” e que “o protesto pacífico é o único caminho a seguir”. Os parentes de Ogilvie afirmaram ainda que a Irlanda do Norte tem “muitos migrantes que dão uma contribuição extremamente valiosa, inclusive no nosso sistema de saúde e no setor de hotelaria, e dependemos deles para que o nosso país funcione”. Por fim, lamentaram a tragédia, a pedir que esta “não seja usada para dividir as pessoas ou alimentar a hostilidade”.

Starmer considera ataque “repugnante”. Direita reforça pedidos de controlo da migração

O primeiro-ministro do Reino Unido reagiu entretanto ao ataque, que descreveu como “repugnante”. Na rede social X, Keir Starmer disse não ter “absolutamente nenhuma tolerância com cenas abomináveis de violência como esta”. E agradeceu ainda a quem prestou auxílio à vítima, “incluindo aos membros do público que intervieram”.

https://twitter.com/Keir_Starmer/status/2064273082580140525

Após Starmer, muitos partidos reagiram a este crime, entre os quais o Restore Britain. O líder, Rupert Lowe, exige que sejam divulgadas a religião e o estatuto migratório do atacante. “Todos nós vimos o vídeo repugnante de Belfast. Detalhes completos sobre a nacionalidade, o estatuto migratório e a religião desse selvagem devem ser disponibilizados ao público com urgência”, lê-se numa carta enviada a Sir Keir Starmer.

Já Zia Yusuf, deputado e responsável pela pasta da Administração Interna do Reform UK, recorreu ao X para lembrar que o partido da oposição já pediu a “proibição total de vistos para qualquer pessoa proveniente do Sudão”. Yusuf considerou também “o horror que se viu em Belfast” uma “consequência direta da política de imigração traiçoeira dos conservadores e dos trabalhistas”.

Antes, o líder do Reform, Nigel Farage, classificou o ataque como “absolutamente chocante, bárbaro, horrível”, atribuindo responsabilidade ao Governo, visto que o Ministério do Interior distribui “autorizações de permanência como se fossem Smarties a pessoas sobre as quais nada sabemos e algumas das quais causam grandes danos no nosso país”. “Francamente, estas pessoas não deviam estar aqui. É tão simples quanto isso”, concluiu, em declarações aos jornalistas.

Questionada sobre o incidente, a líder do Partido Conservador, Kemi Badenoch, disse que “muitas pessoas vão começar a questionar-se, mais uma vez: será que esta é uma pessoa que não deveria estar no nosso país? Haverá falhas nas nossas fronteiras?” “Isto é mais um aviso de que precisamos de fronteiras mais fortes”, alegou.

Entretanto, durante a tarde começaram a surgir online algumas movimentações no sentido de organizar protestos, contrariando os pedidos das autoridades. Tommy Robinson, um dos mais conhecidos ativistas de extrema-direita e anti-imigração, tem utilizado a sua conta no X para divulgar uma lista de locais onde apela a “protestos em massa” na Irlanda do Norte.

“Todo o Reino Unido vai sair às ruas esta noite, às 19h, na sequência de mais um ataque de invasores contra o nosso povo”, escreveu na publicação, entretanto repartilhada pelo proprietário do X, Elon Musk, com a legenda “só protestando repetida e ruidosamente é que haverá alguma mudança!!”

O deputado Gavin Robinson, líder do DUP, o principal partido pró-britânico na Irlanda do Norte, defendeu o fim da “imigração descontrolada”. “O que já foi testemunhado por milhares de pessoas em todo o país não pode ser esquecido. Foi algo digno da Idade Média – a mutilação sistemática e a tentativa de homicídio de um cidadão de Belfast nas nossas ruas”, denunciou.

Mesmo assim, Robinson subscreveu um comunicado conjunto com outros partidos políticos da Irlanda do Norte com um “apelo à calma e a que se dê espaço para que a justiça siga o seu curso”, manifestando empenho em “garantir que a violência e o ódio, sob qualquer forma, não sejam permitidos a dividir as nossas comunidades”.

“Não há lugar na nossa sociedade para este tipo de brutalidade. Os nossos pensamentos estão com a vítima e a sua família, e esperamos que ele tenha uma recuperação total e completa”, lê-se também na nota, assinada também pela primeira-ministra da Irlanda do Norte Michelle O’Neill, do Sinn Féin e pela ministra da Justiça Naomi Long, do Partido da Aliança.

As duas participaram na mesma conferência de imprensa em Stormont, com O’Neill a defender que a Irlanda do Norte não tem um sistema de imigração de “fronteiras abertas”. “Não conheço nenhum país que tenha fronteiras abertas”, afirmou a primeira-ministra do executivo norte-irlandês, contrapondo com a crença num “sistema de imigração que seja justo, bem gerido, aplicável, compassivo e respeitador dos direitos humanos”.

“Mas esse não é o tema do debate de hoje, o de hoje é sobre a nossa sociedade, inclusiva e acolhedora”, afirmou ainda, deixando uma palavra às comunidades migrantes a residir na Irlanda do Norte. “Quero dizer-lhes que não toleramos o sectarismo, nem o ódio nem a divisão; e a todas aquelas pessoas que estão a alimentar as tensões, especialmente nas redes sociais, que não se preocupam nem se interessam pelas pessoas que aqui vivem, mas que se regozijam em aumentar as tensões, afirmo que elas não nos representam”, atirou.

Ao seu lado, a ministra da Justiça, Naomi Long, alinhou pela mesma bitola, apontando o dedo às “pessoas de má-fé que querem criar problemas” e “aproveitar a dor, o sofrimento, o medo e a preocupação genuína das nossas comunidades e transformá-los em armas para outros fins”. “Não é do interesse de ninguém na Irlanda do Norte ver a nossa comunidade dividida nestas circunstâncias”, declarou.

No entanto, a ministra admitiu existirem “desafios” propiciados pela zona de livre circulação, que permite às pessoas atravessarem a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte sem terem de passar por controlos. “Reconheço que existem desafios quando se pode viajar livremente, e o que não queremos em nenhum dos lados da fronteira é ver a zona de viagem comum a ser explorada para fins ilícitos”, observou.

Ataque no rescaldo de Henry Nowak

Este caso sucede-se numa fase de ânimos inflamados devido a outro que deflagrou na semana passada, apesar de o crime ter ocorrido em dezembro. Foi quando um estudante universitário foi esfaqueado mortalmente em Southampton, Inglaterra, ato aproveitado por ativistas de direita e pelo vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, que culpou a imigração pela violência.

https://observador.pt/especiais/esfaqueado-e-algemado-pela-policia-apos-acusacoes-de-racismo-como-a-morte-de-um-jovem-de-18-anos-esta-a-abalar-o-reino-unido/

Henry Nowak, que era branco, foi morto por Vickrum Digwa, um britânico ‘sikh’ que mentiu à polícia, alegando ter sido vítima de um ataque racista por parte de Nowak. Quando os agentes de polícia chegaram, trataram inicialmente o ferido como suspeito, antes de repararem no seu ferimento e tentarem reanimá-lo.

Digwa foi condenado por homicídio por esfaquear Nowak e condenado na semana passada a prisão perpétua com um período mínimo de 21 anos.

O caso, todavia, desencadeou debates sobre policiamento e raça, e um protesto pela morte de Nowak tornou-se violento, com alguns a atacarem a polícia com cadeiras e pedras. Várias pessoas foram acusadas de desordem violenta devido ao protesto.

Notícia atualizada às 16h50 de 10/06/2026 com mais informação

*com Lusa