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(A) :: A inteligência fora do crânio e o regresso ao humano

A inteligência fora do crânio e o regresso ao humano

O Fórum Económico Mundial indica que os empregadores esperam que 39% das competências nucleares dos trabalhadores mudem até 2030.

Fernando Moreira
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Durante décadas, a sociedade confundiu competência com perícia técnica. Saber programar, calcular, operar máquinas, dominar procedimentos, escrever relatórios, interpretar normas: tudo isto formava o conjunto das hard skills. Quem sabia fazer, valia. Quem sabia medir, subia. Quem sabia executar, permanecia. Mas a história do trabalho nunca foi imóvel e a tecnologia deslocou o centro do valor humano.

A primeira grande mudança foi clara, os computadores passaram a substituir tarefas rotineiras, tanto cognitivas como manuais, e a complementar tarefas não rotineiras, como a resolução de problemas complexos e a comunicação. Essa leitura, já presente no trabalho, ajudou a explicar por que razão a simples capacidade de executar instruções deixou de bastar. O trabalhador deixou de valer apenas pelo que sabia repetir e começou a valer pelo que sabia interpretar, adaptar, relacionar e decidir.

Depois veio a era das soft skills. Durante algum tempo, o nome enganou-nos. Chamámos “suaves” a competências duríssimas: comunicar bem, cooperar, liderar, escutar, negociar, resolver conflitos, manter serenidade sob pressão. David Deming mostrou que, entre 1980 e 2012, os empregos que exigiam elevados níveis de interação social cresceram quase 12 pontos percentuais na força de trabalho norte-americana, enquanto empregos intensivos em matemática, mas menos sociais diminuíram 3,3 pontos percentuais. O mercado começou a recompensar a capacidade de trabalhar com outros.

Agora entramos numa terceira estação, a das heart skills. Não se trata de substituir as competências técnicas nem de romantizar a bondade como ornamento moral. Trata-se de reconhecer que, num mundo onde a inteligência artificial escreve, resume, calcula, traduz, programa e recomenda, o que se torna escasso é precisamente aquilo que não se deixa reduzir a cálculo, como a empatia, a generosidade, o cuidado, a simpatia, a presença, a escuta ativa e a responsabilidade emocional. A OCDE descreve as competências sociais e emocionais, como autocontrolo, resistência ao stress, cooperação, sociabilidade e curiosidade, como capacidades associadas ao bem-estar, ao desempenho académico e ao desempenho profissional. Mais ainda, a OCDE sublinha que, à medida que a IA ultrapassa os humanos em várias capacidades cognitivas, estas competências se tornam uma vantagem decisiva em tarefas que as máquinas não realizam plenamente.

A palavra “coração” pode parecer excessiva num relatório empresarial. Mas talvez seja apenas tardia. O Fórum Económico Mundial indica que os empregadores esperam que 39% das competências nucleares dos trabalhadores mudem até 2030. Entre as competências centrais aparecem o pensamento analítico, a resiliência, a flexibilidade, a liderança, a influência social, a empatia, a escuta ativa, a curiosidade e a aprendizagem ao longo da vida. Ou seja, quanto mais a técnica avança, mais o humano se torna estratégico.

A consequência social é profunda. Na educação, as heart skills obrigam-nos a deixar de formar apenas quem resolve exercícios para formar intérpretes de mundo. Nas empresas, deslocam o critério de liderança, porque o bom gestor já não é apenas quem distribui tarefas, mas quem protege a confiança, lê o medo, reconhece a fadiga, cria sentido. Na política, tornam-se antídoto contra sociedades irritadas, aceleradas e incapazes de escutar. Na saúde, na justiça, na administração pública e no ensino, convertem-se em infraestrutura invisível da dignidade. Sem elas, teremos sistemas eficientes e pessoas esmagadas, máquinas rápidas e comunidades lentas, decisões automáticas e vidas mal compreendidas.

A inteligência artificial, porém, não tem vontade de potência. Tem objetivos definidos, explícitos ou implícitos, mas não tem desejo. Tem autonomia operacional, mas não tem fome de sentido. Por isso, quando delegamos demasiado na IA, o perigo não é apenas técnico. É existencial. A IA amplia este dilema. Um estudo da Microsoft Research com 319 trabalhadores do conhecimento recolheu 936 exemplos de uso de IA generativa e analisou o impacto percebido no pensamento crítico. Outro estudo, com 666 participantes, encontrou uma associação negativa entre uso frequente de ferramentas de IA e pensamento crítico, mediada pela transferência de esforço cognitivo para a máquina. A conclusão não é que a IA empobreça inevitavelmente a mente, é mais subtil. A IA empobrece quando se transforma em muleta permanente, mas enriquece quando funciona como espelho, cocriador, contraditório, etc.

Dizia-se que vivíamos um tempo de mudança. Agora talvez seja mais exato dizer que atravessamos uma mudança de tempo. A diferença é enorme. Um tempo de mudança altera ferramentas, profissões e métodos. Uma mudança de tempo altera a forma como percebemos a realidade, a autoridade, a aprendizagem, o mérito, a autoria, a memória e até a identidade. A IA não é mais uma aplicação no telemóvel. É um novo clima. E, como todo o clima, não muda apenas aquilo que fazemos, muda aquilo que esperamos que seja normal e os sinais são visíveis. O relatório AI Index 2025, de Stanford, mostra que o desempenho da IA melhorou fortemente em vários referenciais exigentes, que a IA está cada vez mais presente na vida quotidiana e que 78% das organizações reportaram usar IA em 2024, contra 55% no ano anterior. O FMI () estima que cerca de 60% dos empregos nas economias avançadas podem ser afetados pela IA, sendo que parte deles poderá beneficiar de integração produtiva e outra parte poderá sofrer redução de procura laboral.

Mas a IA não veio apenas substituir, mas, sobretudo, pôr à prova a nossa capacidade de acrescentar. A melhor imagem talvez não seja a da máquina que ocupa o lugar do humano, mas a da inteligência que ganha uma extensão fora do crânio. Uma espécie de “externaligência”. A palavra “externaligência” torna-se necessária porque a expressão inteligência artificial já não descreve plenamente aquilo que está a acontecer. A IA não é apenas uma tecnologia exterior ao humano, é uma presença cognitiva que começa a participar no modo como pensamos, escrevemos, investigamos, decidimos, ensinamos e aprendemos. Contudo, já em 1998, Andy Clark e David Chalmers defenderam a tese da “mente estendida”, segundo a qual certos processos cognitivos não se encontram exclusivamente dentro da cabeça, podendo envolver objetos, dispositivos e elementos do ambiente. A ideia central era poderosa, o pensamento humano não termina necessariamente na fronteira da pele, pode prolongar-se num caderno, num computador, numa agenda, numa ferramenta que organiza a memória e orienta a ação. A inteligência artificial generativa altera, porém, a escala desse problema. Já não estamos apenas perante instrumentos passivos de registo ou consulta, mas estamos perante sistemas que respondem, sugerem, resumem, comparam, simulam estilos, produzem hipóteses e participam ativamente no processo de raciocínio. É neste salto, da ferramenta externa para o interlocutor cognitivo, que o conceito de “externaligência” ganha verdadeira necessidade.

Um estudo da NBER sobre 5.179 agentes de apoio ao cliente mostrou que o acesso a uma ferramenta de IA generativa aumentou a produtividade média em 14%, com ganhos de 34% para trabalhadores principiantes ou menos qualificados. O Anthropic Economic Index (https://www.anthropic.com/news/the-anthropic-economic-index), por sua vez, indica que o uso de IA se inclina mais para a ampliação em 57% das capacidades humanas do que para automação direta (43%). A pergunta decisiva, portanto, não é “quantos humanos a IA substituirá?”, mas “que humanos seremos quando trabalharmos com ela?”.

Nos próximos dois ou três anos, entre 2026 e 2029, é plausível que a sociedade se reorganize em torno de três fraturas. A primeira será entre quem usa IA para pensar melhor e quem a usa para deixar de pensar. A segunda será entre instituições que ensinam processos (perguntar, verificar, comparar, argumentar) e instituições que apenas avaliam produtos finais. A terceira será entre organizações que tratam a IA como corte de custos e organizações que a usam para libertar tempo humano para trabalho de maior valor como a relação, o cuidado, a criatividade, a decisão ética, o acompanhamento, a formação e a escuta ativa.

Na vida pública, as heart skills poderão tornar-se condição de sobrevivência democrática. Numa sociedade inundada de conteúdos sintéticos, vozes artificiais e certezas fabricadas, a empatia será mais do que uma virtude privada, será uma tecnologia moral de coesão. A generosidade não significará ingenuidade, mas significará capacidade de admitir complexidade. A simpatia não será superficialidade, será a arte de não transformar discordância em desprezo. A escuta não será passividade, mas será resistência contra a brutalidade da reação instantânea.

O futuro próximo, contudo, não está garantido. A IA pode ampliar desigualdades, concentrar poder, acelerar precariedades e tornar invisível quem já era pouco ouvido. Mas também pode democratizar acesso, apoiar aprendizagem personalizada, ajudar profissionais menos experientes, reduzir tarefas mecânicas e abrir tempo para aquilo que nos torna mais humanos. A diferença não estará apenas nos modelos, mas nos valores que colocarmos à volta deles.

As hard skills continuam necessárias. Sem técnica, a intenção tropeça. As soft skills continuam fundamentais. Sem colaboração, a inteligência dispersa-se. Mas as heart skills tornam-se o último reduto e, ao mesmo tempo, a primeira condição, porque quando a máquina souber responder a quase tudo, a humanidade será medida pela qualidade das suas perguntas, pela justiça das suas decisões e pela ternura que ainda for capaz de praticar.

A IA não tem vontade de potência. Nós temos. E talvez a grande tarefa dos próximos anos seja não usar a inteligência artificial para diminuir a nossa vontade, mas para a educar. Não para fugir ao esforço, mas para o tornar mais fecundo. Não para substituir o coração pela máquina, mas para impedir que a máquina nos convença de que o coração era dispensável.