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(A) :: A sexta coluna

A sexta coluna

Depois do assassínio de Henry Nowak já se sabe a resposta à pergunta: quem põe as algemas aos inimigos homicidas da sociedade? A polícia não é – põe-nas antes às vítimas

João Tiago Proença
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A expressão quinta coluna surgiu em 1936, quando as forças nacionalistas de Franco avançavam para Madrid; o general declarou que além das quatro colunas havia uma quinta coluna dentro da capital. Aclimatada rapidamente, sucedeu-lhe o que sucede às expressões que como que são pedidas pelo Zeitgeist, parece que existem desde sempre e que desde sempre se pensou com elas. Perde-se o rasto da sua proveniência, a sua novidade embota-se e ficam por analisar os acontecimentos que motivaram o seu aparecimento. No rescaldo da II Guerra Mundial, em 1945, Alexandre Koyré, cuja reflexão incidiu maioritariamente na filosofia das ciências, dedicou-lhe um artigo. Nesse texto, o filósofo russo nacionalizado francês distinguia a quinta coluna de outras formas de inimigo interior, já com uma longa tradição. Os Estados nacionais teriam integrado os seus cidadãos numa unidade que, não tendo qualquer legitimação fora de si e sem que as diferenças sociais recorressem a terceiros para sustentar uma posição de força, impossibilitava o aparecimento de inimigos interiores. Ao contrário dos Estados dinásticos, em que a minoria leal a um monarca destronado pode constituir um inimigo interior, dos Estados confessionais, em que uma minoria religiosa se pode entender com o inimigo para estabelecer a verdadeira religião, ou dos Estados multinacionais, em que as nações minoritárias oprimidas acalentam esperanças de separatismo, os Estados nacionais não vêem contestada do interior a sua unidade. Para Koyré, as duas guerras baralharam os dados e fizerem surgir uma clivagem social, antiga na oposição económica, e, em simultâneo, nova pela posição relativa das classes, uma oposição que levou ao aparecimento do conceito de quinta coluna, um choque na época. Há hoje um novo choque.

Conta-se que numa reunião mundana de nobres e elementos do alto clero, do século XVII, em resposta a temores quanto a uma revolta da populaça, alguém terá julgado pôr fim ao assunto dizendo que contra a ralé havia as alabardas. Um rosto discreto, perguntou sibilinamente: e quem empunha as alabardas? A força, último garante da segurança e, por essa mesma razão, do regular funcionamento das instituições, não se exerce automaticamente. Como todas as coisas humanas, também ela depende da opinião, de uma opinião que a legitime. Se as forças de segurança respiram miasma hostis e se alimentam de opiniões figadalmente inimigas da ordem social que servem, é a sociedade no seu todo que fica irremediavelmente posta em causa. À imagem e semelhança daquele desmancha-prazeres seiscentista, depois do assassínio de Henry Nowak já se sabe a resposta à pergunta: quem põe as algemas aos inimigos homicidas da sociedade? A polícia não é – põe-nas antes às vítimas – já se corrompeu ideologicamente. Sem que haja, contudo, inteligência com o inimigo, até porque ele não é visto como tal – e o mal começa aí, numa despolitização absoluta – tudo leva a crer que se assiste ao nascimento de uma nova coluna. Já não pode ser a quinta coluna, pois a que agora ganha corpo, num delírio irenista, julga não ter nenhum exterior. Pelo contrário, é autofágica e omnívora: destrói-se e consome a si mesma – e ao todo da sociedade que a institui. Talvez seja a sexta coluna. E lá fora, os inimigos continuam à espreita.