A ideia para este texto, nasceu, de assistir – siderado – a comentadores da tv americana justificando as acções – inexplicáveis – de Trump. Faziam-no dizendo que era xadrez da 5.ª dimensão. Ora, quem está na 5.ª dimensão são os comentadores da Fox e igualmente muitos em Portugal. Assim;
Ultrapassa a minha capacidade de entendimento o esforço que noto em alguns comentadores, na sua cruzada em defesa de um ponto de vista. Tenho verberado – sem sucesso – que o facto de ser de direita não me leva – muito menos obriga – a defender publicamente todos aqueles que, dizendo-se de direita, praticam actos contrários ao bom senso, à civilidade, ao humanismo. O mesmo vai para os que dizem defender o cristianismo, o ocidentalismo, etc. E sou isso tudo: Cristão católico, ocidental, europeu, branco, português, conservador e de direita. A diferença está em que não acredito que os fins justifiquem os meios e que não me vendo por um prato de lentilhas.
O problema está em que, ao ler vários articulistas, sou apelidado de esquerdista – ou direita fofa – de anti-semita, antiocidental e de mais uns quantos epítetos. A moda dos actuais articulistas de direita é o músculo: há que ser assertivo, forte, imperativo, intransigente. Ora, o cérebro não é um músculo – o coração sim.
Estes articulistas escrevem como adeptos da bola: pouco interessa se o seu clube ganhou devido a um erro de arbitragem em seu favor, desde que ganhe (essa é a razão pela qual o nosso futebol e a importância que damos aos erros de arbitragem são 3.º mundistas, mas isso fica para outro artigo).
Mas avancemos para o comentariado. Todos conhecem a proposta do CHEGA de querer reduzir a idade da reforma – e/ou os dias de férias – como contrapartida da sua aprovação do pacote laboral. O CHEGA está tão cheio de incapazes que até se pode acreditar que acreditem na viabilidade da sugestão, mas vou crer que algum assessor, ou membro do governo (emoji de riso) sombra, que tenha reprovado o 1.º ano de economia da lusófona, tenha alertado o líder para a anormalidade da proposta. Ficamos então com o quê? Com um partido que embora diga que está contra o pacote laboral, está disposto a aprová-lo se lhe fizerem a vontade em algo que nada tem de ver. Ficamos conversados quanto às convicções desta gente, certo? Groucho Marx não faria melhor.
Só que, eis se não quando, um texto – aqui publicado – apresenta-nos uma interpretação (visão?) relativamente ao tema: todos nós, não estávamos a conseguir alcançar a jogada de xadrez (da 5.ª dimensão) do grande mestre André! Para a articulista, tratava-se de um movimento genial, pois, com o mesmo, Ventura juntava PSD e PS (e mais todo o ser pensante, acrescento eu) no mesmo barco, ganhando com isso o valor da diferença. Uma cheerleader – daquelas que choram quando o líder tem gases – não teria inventado melhor desculpa. Era tal a vontade de safar o mestre André que o autor nem viu o buraco onde se metia: O CHEGA estava, portanto, a propor (fazendo os incautos menos esclarecidos rejubilar) uma mentira que não era – palavras da própria no artigo – para ser cumprida.
Depois vem a intervenção americana no Irão. Aqui é onde a 5.ª (só?) dimensão do comentário se tem explanado de forma mais acutilante. Esta intervenção – ilegal – não consegue, sequer, atingir um dos supostos objectivos (o golo com a mão de Maradona, ao menos valeu como golo). Então, para nos convencerem a aceitar/compreender e defender a intervenção lá aparecem os paladinos (será que Trump sabe que tem estes tão grandes admiradores neste cantinho europeu?). Um deles, tenta, através da ameaça (verbal), dizer que quem é contra a intervenção americana é no mínimo burro, ou então antiocidental. O problema está em que – como não vivo na dimensão deste articulista – não reconheço Trump como defensor da civilização a que pertenço. Mas revejo no Papa esse defensor. Só que, a alucinação é tão elevada, que estes defensores da política americana actual, até defendem que um católico novo como Vance tem o direito de questionar o Papa, em questões teológicas! Não sei em que dimensão são capazes de imaginar essa discussão. Já agora: Era bom que se deixasse de cometer o erro de chamar à civilização europeia de judaico-cristã. É um erro. É SÓ Cristã.
Outro articulista chama parolos aos membros das flotilhas que rumam a Gaza. Estamos de acordo! São patetas à procura de fama. No entanto, chama Ferrabrás à besta do ministro israelita. Não sendo um elogio na directa, não se trata de grande ofensa. Para mim – na minha dimensão – é simples: Um pateta português é um pateta que merece o respeito de qualquer membro, de qualquer governo do mundo. Só que, lá está, chamar besta a esse ministro israelita, coloca-me no grupo dos anti-semitas.
Nesta altura – após os textos lidos – já sou: Burro, porque não entendo as capacidades do mestre André, antiocidental porque concluo que a intervenção americana não resolveu nada, e anti-semita porque chamo besta a um ministro israelita [e nem sequer vou comentar um texto – de um ocasional articulista – que proclamava que todos os objectivos (quais?) de Trump tinham sido atingidos! O homem até o estreito de Ormuz conseguiu abrir! E não comento, porque me ensinaram a respeitar e não contrariar certas pessoas].
Ainda na senda de sermos todos anti-semitas, lá vem a defesa do arraso de Gaza e da morte de inocentes. Estes defensores de Israel (não percebo se se escrevem o que escrevem por uma qualquer razão cabalística e/ou religiosa, se entendem que fica bem defender a todo o custo Israel, ou ainda, se é uma posição obrigatória para alguém de direita) continuam: Quem é contra as acções de Israel não defende o seu direito a existir. Mais uma vez (enésima): Israel tem todo o direito a existir naquele local; Os árabes e os palestinianos têm sido burros a dirimir a questão desde 1948 e optaram pela forma mais hedionda que existe para defender um ponto de vista: O terrorismo. Só que: Nada desculpa a morte indiscriminada de inocentes. Claro está que, de seguida, serei apelidado de negacionista (do holocausto). Ora, estes articulistas vão esquecer-se que, na base de apoio de Trump, estão (entre gente boa): Conhecedores que negam o genocídio levado a cabo sobre os judeus; Crentes que acreditam que a terra é plana; Visionários defensores de que a homossexualidade é uma doença tratável; Teóricos que sabem que a Área 51 está cheia de marcianos; E, por fim, gente bem informada que sabe que as vacinas provocam autismo.
Passados uns dias, leio mais um artigo em que se critica Zé Cid, só porque este se declarou a favor do boicote a Israel no Festival da Eurovisão (já agora: Deixei de o ver nos anos 80 e temo pela saúde mental de quem ainda vê). Além da crítica ao compositor do Adio adieu, eram feitas umas comparações – um pouco abstrusas – com a visita de Ronaldo a Trump. O ponto é que eu não quero saber o que cada um faz no seu tempo livre. O que quero é que o CR7 marque golos e que o Cid continue a cantar que o macaco gosta de bananas. Mas, tinha sido simpático que tivesse sido mencionado que Israel entra na Eurovisão, desde que aquilo (o dito festival) era mesmo só europa (que é coisa que Israel nunca foi). Na eurovisão, assim como nos campeonatos desportivos. Porquê? Porque a Europa interiorizou uma dívida para com Israel face a séculos de ostracismo, de expulsões e de pogroms que culminaram no zénite do holocausto. Ora, eu defendo Israel, como defendo qualquer outro país que queira existir/viver em paz, respeitando os seus cidadãos, os seus vizinhos, o direito internacional. Não o faço por sentimentos de culpa – que não tenho – relativamente aos males de que de padeceram, tal como não me sinto culpado de nada que Portugal tenha feito, séculos atrás, relativamente a outras nações.
Já cansado, vou ler o artigo do decano dos articulistas de direita (de quem tenho livros e com quem muitas vezes concordo) e – bolas – não arranjo paz! Como reagir ao facto de o mesmo afirmar que é moda dizer mal de Trump e que a personagem nem é assim, tão errática?! Eu não sei se é moda, mas sei ver quando se quer criar uma…Estão todos a dizer mal de A? Então é mais chique arranjar forma de não dizer mal de A. É uma forma conhecida e muito antiga. O que vale é que, no que respeita a Trump, nem é preciso argumentar! É só deixar o homem viver, ele encarrega-se do resto.
Quando esse articulista – o decano – diz que Trump não é errático porque quer sair do berbicacho iraniano, tenho de me beliscar!!! Então isso agora é motivo de regozijo? Não foi ele que foi obliterar o Irão? Alguém o obrigou? Se isto não é ser errático então não sei o que é.
Por fim, a China. Era tão bom que lessem o On China de Kissinger (sempre em paralelo com a biografia de Mao por Jung Chang) para entender que Trump tenta jogar xadrez (não acredito que saiba jogar) contra alguém que joga outro jogo: O weiqi. No xadrez, seja lá qual for a dimensão, o objectivo é derrubar o Rei através da morte de quem o protege – mesmo que, para tal, se sacrifiquem vidas do nosso próprio exército. No weiqi o objectivo é ocupar espaços vazios, cercando o oponente. Existe vitória, mas a mesma não é perceptível – olhando para o tabuleiro – para quem não sabe jogar. Xi lançou a atoarda de Tucídides para que um parolo acreditasse que estavam a jogar o mesmo jogo e na mesma dimensão. Não estão.
Se o leitor veio até ao fim do texto para obter uma resposta à pergunta que faz título, foi enganado: Não faço a mínima quem é Ana Cavallieri e nenhum dos artigos aqui referidos é da sua autoria. Mas podiam ser todos. No entanto, o seu a seu dono: Os textos que me dei ao trabalho de criticar, são da autoria de Helena Matos, Marques de Almeida, Rodrigues do Carmo, Nogueira Pinto, Ribeiro da Cunha.
Ps: Já com o texto fechado, leio mais um texto: desta feita, o autor, está zangado com o próprio do Trump (eu não disse que é só deixar o homem respirar, que ele se encarrega do resto?)! Ao que parece o pateta que preside aos EUA (sou daqueles que está na moda e diz mal do homem laranja) passou-se com o malfeitor que governa Israel e já diz bem do Khamenei e quer um cessar-fogo no Líbano. Quem é que a direita musculada e pró Trump vai agora eleger como defensor da civilização ocidental? Só se for a Ana Cavallieri.