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Bife, batatas, ovo e arroz até 10 euros: 16 tascas em Lisboa para comer um bitoque

Um dos pratos mais comuns nas ementas pelo país resiste às modas da restauração e ainda pode ser encontrado a preços económicos mesmo nos bairros mais turísticos da capital portuguesa.

Larissa Faria
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Diogo Ventura
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Ementa de pratos do dia, toalha de papel sobre a mesa, batatas cortadas à mão e uma montra de sobremesas. Numa checklist, seriam estes alguns dos elementos que poderiam descrever uma tasca tradicional portuguesa. Tais características podem variar entre os sítios, com alguns a completar a decoração com símbolos de equipas de futebol ou a manter a televisão ligada durante o horário das refeições. Mas há, na maioria dos casos, um elemento em comum no menu de todos eles: o bitoque.

O período exato em que este passou a ser figura frequente nos pratos dos portugueses é incerto, mas o facto é que resiste, ao longo dos anos, no meio das modas estrangeiras que se estabeleceram na restauração do país. E foram os pedidos de britânicos e emigrantes da Galiza nas tabernas lisboetas entre o final do século XIX e início do século XX que podem ter resultado num dos pratos hoje mais presentes em Portugal.

A procura pelo significado de “bitoque” no Dicionário da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa pode ajudar a corroborar a origem inglesa. A palavra, que será uma corruptela para bifesteque (beefsteak, em inglês), define ser este um “prato composto por um bife, frito ou grelhado, acompanhado de arroz, batatas fritas, ovo estrelado e, por vezes, salada”. Nas casas de pasto, onde trabalhadores procuravam refeições a preços mais económicos, era vendido numa versão económica, o “meio bife”, habitualmente servido num prato de barro individual. O formato de bife mais alargado que é hoje comum ganhou lugar cativo nas ementas de tascas e passou a ser feito não só com bife de vaca, mas também de porco, nos anos 1990, em plena crise das vacas loucas.

Numa Lisboa com jovens chefs a tentar manter abertas as tascas que já não resistem às crises financeiras e da habitação, nem sempre é fácil encontrar um bitoque a um preço módico, tal e qual nas antigas casas de pasto. Mas tal não é impossível: basta consultar a lista de 16 bitoques em Lisboa que custam até 10 euros.

Apache

Rua Luciano Cordeiro 14, 1150-215. De segunda-feira a sábado das 9h às 23h.

Frequentemente é o sítio escolhido por grupos de jovens para jantar e beber uns copos antes da saida à noite. Não é por acaso: para além de ter uma esplanada sob as árvores, os preços dos pratos — que variam a cada dia, nos tamanhos mini prato, meia dose e dose — iniciam-se por volta dos 6 euros, em opções como secretos de porco grelhados, maminha grelhada e iscas à portuguesa. O bitoque vem com bastante arroz e custa 8,20 euros (pagamento só em dinheiro).

A Provinciana

Travessa do Forno 23, 1150-193. De segunda a sexta-feira das 12h às 15h30 e das 19h às 22h.

Apesar dos vários relógios a decorar as paredes, o espaço parece ter parado no tempo — o que não significa necessariamente algo negativo. Esta tasca quase centenária nos Restauradores é classificada como Loja com História e frequentemente citada em guias e blogs de viagem. Tornou-se assim um dos “pontos turísticos” para quem visita Lisboa, o que pode explicar a diversidade de idiomas que se ouve enquanto se espera na fila para uma mesa. Mas a espera pode valer a pena: o bitoque (8,95 euros) é servido num prato retangular com batatas cortadas em tiras grossas. Tudo é preparado numa pequena cozinha, por uma única mulher: dona Judite, que tem na sua equipa para tratar dos pagamentos (só em dinheiro) e servir as mesas o marido e a filha.

Bom Bom

Avenida Duque de Loulé 100, 1050-089. De segunda a quinta-feira das 8h às 15h e das 19h às 21h, sexta-feira das 8h às 15h e sábado das 12h às 14h.

Situado numa cave, este sítio castiço é a joia quase escondida dos executivos que trabalham entre o Marquês de Pombal e Picoas. À hora de almoço, a televisão ligada a dar notícias ajuda a passar o tempo (em geral, não longo) de espera pelos pratos. São vários, para além do bitoque, que custam 9 euros: alheira de mirandela, salsichas com ovo, gelhada mista, entremeada, febras e bifinhos de frango. Os mais famintos podem optar, pelo mesmo preço, pela francesinha de porco ou frango com batatas fritas.

Cantinho d’amizade

R. Bernardim Ribeiro 83, 1150-070. De segunda-feira a sábado, das 7h às 00h.

Esta casa tem preços que são como um segredo bem guardado a poucas ruas de distância das lojas e restaurantes luxuosos da Avenida da Liberdade. E mantém uma variedade de bitoques: com molho de alho (9,25 euros), molho de pimenta (9,75 euros), molho de queijo ou molho de café (10 euros). Por 8,50 euros, há ainda alheira com ovo estrelado, febras ou entremeada grelhada.

Cantinho do Alfredo

Rua General Taborda 44, 1070-271. De segunda-feira a sábado das 12h às 15h e das 19h às 22h.

Não adianta pedir para pagar com multibanco nem perguntar pelo tal Alfredo: ambos não estão disponíveis. Alfredo é apenas o nome deste pequeno restaurante que há 40 anos é comandado pelo casal Albino e Helena. Numa rua pacata em Campo de Ourique, servem um bitoque a 6,50 euros com um ovo estrelado de rebordo dourado e gema mole — perfeita para molhar as batatas. Na ementa de sugestões do dia (todas escritas à mão, é claro), nenhuma das várias opções costuma chegar aos nove euros.

Costa e Travassos

Rua do Arco da Graça 25, 1150-049. De segunda a sexta-feira, das 9h às 21h.

Uma família da Guiné-Bissau comprou o restaurante, antes pertencente a uma família portuguesa, para que este não fechasse portas. Mantiveram não só a mesma comida mas também as discretas características que já ali estavam, como o facto de não ter uma fachada com nome nem aceitar pagamentos com cartão. O atrativo mesmo são os preços da ementa à porta: há pratos de carne e peixe a partir de 6 euros, como jaquinzinhos com arroz e salada e frebras grelhadas com batata e salada. O bitoque (7 euros) chega à mesa com as marcas da grelha e envolto por muito azeite.

Das Flores

Rua das Flores 76, 1200-195. De segunda a sexta-feira, das 12h às 15h30.

Não há muitos lugares para se sentar (são 22 entre mesas partilhadas), o que talvez explique o motivo de a entrada ser também discreta — se chamasse a atenção, nem haveria como acomodar ali tanta gente. Uma porta de vidro fosco esconde atrás de si uma hidden gem do Chiado: um bitoque com o bife mergulhado em molho amanteigado a 9,50 euros. Se não tivéssemos verificado in loco algumas das pompas à disposição, como o guardanapo de tecido branquíssimo e loiças Vista Alegre, talvez não fosse possível acreditar que ainda há, numa das zonas mais turísticas da cidade, como comer bem e pagar pouco, graças ao trio familiar que mantém esta casa: a mãe, na cozinha, o pai, no balcão e a filha a servir as mesas.

O Banquete

Rua Gonçalves Crespo 33C, 1150-184. De segunda a sexta-feira das 8h30 às 18h30 e sábado das 10h às 16h.

Frito com muito alho: assim é o bitoque (7,75 euros) servido neste snack bar. O espaço, que aceita multibanco, é também um convite informal para beber uma cerveja ou petiscar (pão, manteiga, azeitonas e tremoços custam 0,50 cêntimos a dose e o queijo alentejano 3,50 euros) depois do trabalho na zona do Marquês de Pombal. Durante o Mundial 2026, há quem eleja este sítio com um grande ecrã para assistir aos jogos de Portugal sentado numa das mesas na esplanada — nestes dias, a casa encerra mais tarde que o habitual, sendo um verdadeiro refresco para as noites quentes de verão.

O Hélio

Rua Luís Augusto Palmeirim 12D, 1700-111. De segunda a sexta-feira das 9h às 22h, sábado das 10h30 às 17h e das 18h30 às 22h.

Se for a este snack bar pela manhã pedir um café, pode apanhar o dono do espaço a descascar cuidadosamente as batatas que vão acompanhar as refeições dali a poucas horas servidas. E isto não é mau: sinal de que cá come-se comida caseira e fresca. Os pratos do dia podem esgotar, mas o bitoque de vitela (9 euros) é garantido nesta casa que o serve durante todo o dia com a carne mal passada, tenrinha.

O Marquês

Travessa do Forno 11, 1150-265. De segunda-feira a sábado das 12h às 15h e das 19h às 22h.

Não se deve intimidar pelo elétrico que compõe a decoração mal se entra pela porta: talvez seja esta (e a ementa não só em português, e o facto de aceitar multibanco…) a estratégia para apanhar os desistentes da fila d’A Provinciana, a duas portas de distância. O que não tem nada a ver com ser este um sítio menos auténtico, pois come-se cá bem um generoso bitoque frito com ovo guarnecido (9,95 euros).

O Sardinha

R. do Jardim do Tabaco 18 20, 1100-081. De domingo a sexta-feira, das 12h às 22h.

Ao pé de Santa Apolónia há mais de quatro décadas, o casal Alda (na cozinha) e Duarte (a servir as mesas) recebe residentes e, pela localização privilegiada, também muitos turistas que dão a conhecer ali a tradicional comida portuguesa — o peixe que dá nome à casa é um dos mais pedidos pelos clientes. O acompanhamento do bitoque (9,50 euros, só em dinheiro) pode ser o vasto conhecimento que o senhor Duarte partilha sobre a história do país com quem ali tem interesse em aprender.

O Trevo

Praça Luís de Camões 48, 1200-283. De segunda-feira a sábado, das 7h às 21h.

Num cartaz colado à parede do apertado salão, o espaço envaidece-se de ter feito parte da passagem de Anthony Bourdain por Lisboa. Foi ali em 2011 que o chef de cozinha pediu uma bifana (com mostarda) e uma imperial. Para além de bifanas (3 euros), pregos (4 euros) e alheira de mirandela (8,50 euros), não poderia faltar o bitoque (8,50 euros). E se pedir uma Coca-Cola Zero a um dos empregados de mesa, corre o risco de ouvir dizer ao balcão para trazerem “uma cola a Benfica” — o que denuncia obviamente não ser a equipa que este apoia. O que não pode também faltar é dinheiro em numerário, porque o restaurante não aceita pagamentos eletrónicos — mas há uma caixa multibanco mesmo ao lado.

Paquito

R. Fernão de Magalhães 23, 1170-036. De segunda a sexta-feira das 7h30 às 22h e aos sábados das 7h30 às 15h.

É preciso chegar cedo e com numerário nas mãos para conseguir um lugar (seja na esplanada ou no interior) desta pequena tasca, situada numa rua quase que estritamente residencial. Se aparecer por lá próximo às horas de fecho do almoço ou do jantar, pode falhar a prova de um dos pratos do dia (publicados sempre na página no Facebook), servidos em tamanhos generosos. Mas estão sempre garantidos na ementa a alheira (6,50 euros) e o bitoque (8,50 euros), este último servido com salada bem acebolada.

Pato Real

Avenida de Berna 37, 1050-038. De segunda a sexta-feira das 7h às 22h e sábado das 9h às 22h.

É aqui que vêm comer e beber alguns dos estudantes dos institutos e universidades nas proximidades — podendo ser este um bom sinal para um sítio onde se come bem e barato. Para além dos pratos do dia, o bitoque (8 euros) pode ser pedido no menu que inclui pão, azeitonas, uma bebida, sopa, sobremesa e café (12 euros). Não está com fome para tanto? Tudo bem: pode pedir uma imperial (0,75 cêntimos, o que talvez o torne dos mais baratos da cidade) para acompanhar os matraquilhos disponíveis nos fundos ou o imponente natão (um pastel de nata tamanho XXL, que custa 1 euro). Para facilitar a partilha da conta com os amigos, aceitam também multibanco.

Primavera

Rua Morais Soares 101, 1170-293. De quinta a terça-feira das 12h às 15h e das 18h30 às 22h.

Há fila para comprar os grelhados no carvão desta churrasqueira, sendo o frango de churrasco (5,40 euros meio frango e 10,50 o frango inteiro) o favorito. Mas para além da venda de comida para fora, o espaço tem um amplo salão e ementa. O bitoque, é claro, não poderia faltar: custa 10 euros e pode ser pago também com multibanco. Vale ainda a pena espreitar a montra de sobremesas.

Sossego

Rua da Paz à Ajuda 34, 1300-453. De segunda-feira a sábado, das 9h às 19h.

Numa calma rua residencial na Ajuda, o nome faz mesmo jus a este sítio com uma simpática esplanada de onde se pode ver o Tejo ao horizonte. O salão interior foi remodelado, mas as tradicionais loiças Bordallo Pinheiro continuam nas paredes e os pratos feitos ali há mais de 30 anos pelo casal João e Ana Zacarias permanecem na ementa. Após comer um bitoque grelhado no carvão (10 euros, aceita pagamento com multibanco), pode espreitar também a pequena mercearia com produtos como azeite, mel e queijo amanteigado da Beira Baixa.

Menções honrosas

Apesar de não entrarem no critério de venderem um bitoque por até 10 euros, há outros espaços que devem ser mencionados. Não faria sentido falar sobre bitoques em Lisboa sem citar um sítio aberto há 90 anos cujo nome é exatamente o do prato: O Bitoque, em Campo de Ourique, que preserva o seu balcão para refeições e os azulejos nas paredes. O bitoque com molho farto, batatas laminadas, ovo e vegetais custa 11 euros.

Há opções também na Grande Lisboa entre os vencedores da edição de 2026 do concurso Tascando: o campeão do pódio é a Taberna Manuel da Gorda (na Trafaria, em Almada), que serve um bitoque do mar com bife de atum fresco (17,50 euros). Em segundo lugar e também em Almada, o Martins tem bitoque de peru, porco ou vaca (11,50 euros). Em terceiro lugar, a salvar os notívagos na Baixa, está A Tigelinha, que até às 23h da noite de terça-feira a sábado serve também a tradicional receita do bitoque (10,50 euros).