As vítimas dos alegados abusos sexuais cometidos pelo magnata egípcio Mohamed Al-Fayed estão a exigir que as autoridades britânicas iniciem uma investigação centrada no tráfico de pessoas, defendendo que só desta forma será possível revelar a verdadeira dimensão da rede que, segundo afirmam, terá permitido ao antigo proprietário dos armazéns Harrods atuar durante décadas.
De acordo com o The Guardian, o apelo foi feito pela organização No One Above (NOA), fundada por vítimas que acusam de abusos sexuais o empresário que morreu em 2023, aos 94 anos. O grupo pretende que a Polícia Metropolitana de Londres alargue o âmbito da investigação em curso e coloque o tráfico de pessoas no centro das averiguações.
Já foram apresentadas mais de 400 acusações contra Al-Fayed, relacionadas com alegada má conduta sexual entre 1977 e 2014. As denúncias incluem alegações de violação, agressão sexual, tráfico de pessoas, privação ilegal de liberdade, administração de drogas sem consentimento, violência física e abortos forçados.
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Segundo advogados que representam o grupo Justice for Fayed and Harrods Survivors, 421 pessoas relataram alegados abusos ocorridos nos armazéns Harrods, em Londres, no hotel Ritz, em Paris, no clube de futebol Fulham FC e noutras propriedades ligadas a Al-Fayed.
Uma das alegadas vítimas trabalhou no Harrods durante mais de três anos na década de 1990, quando tinha 22 anos. A mulher afirma ter sido vítima de tráfico e abusos por parte de Al-Fayed. Em declarações à agência Press Association, descreveu um alegado padrão de atuação baseado na seleção, isolamento, manipulação, coerção, abusos e intimidação de jovens mulheres.
Segundo a alegada vítima, Al-Fayed percorria regularmente as áreas comerciais dos armazéns acompanhado por equipas de segurança e identificava mulheres que considerava atraentes. Posteriormente, elementos da sua equipa convidavam essas funcionárias para reuniões nos seus escritórios, momento que, alegadamente, marcava o início do processo de abuso. Várias mulheres foram ameaçadas para manterem silêncio, alegando que as equipas de segurança as seguiam e faziam ameaças diretas de represálias ou destruição das suas vidas.
Um ex-gerente da loja disse à BBC que qualquer pessoa que tenha trabalhado num cargo de chefia para Al-Fayed e que afirme não saber o que ele fazia às mulheres “é um mentiroso”. As declarações deste outro antigo funcionário constam do documentário Al-Fayed: Predator At Harrods, emitido pela BBC em 2024 e que deu voz a cerca de 20 ex-funcionárias dos armazéns Harrods.
O jornalista especialista em direitos civis Henry Porter assinou, por seu turno, um artigo de opinião no The Guardian em que denuncia a cultura de silenciamento em torno dos abusos, em que, diz, participaram advogados, seguranças, responsáveis dos recursos humanos e até médicos: “[Estas pessoas] facilitaram-lhe o caminho e limparam o que ele fez, permitindo que as agressões e as violações continuassem”.
A Polícia Metropolitana londrina está atualmente a investigar os relatos de cerca de 150 vítimas que contactaram diretamente as autoridades, incluindo 21 que apresentaram queixas antes da morte do empresário. No entanto, a NOA considera que a investigação deve focar-se prioritariamente no tráfico de pessoas para permitir identificar uma eventual rede internacional de colaboradores que terá facilitado os abusos.
https://observador.pt/2025/08/14/policia-metropolitana-investiga-146-denuncias-contra-mohamed-al-fayed/
Num comunicado citado pelo The Guardian, a Polícia Metropolitana afirmou que continua a conduzir “uma das maiores e mais complexas investigações policiais”. As autoridades acrescentaram que nos últimos 18 meses têm recolhido “depoimentos detalhados de vítimas e testemunhas para construir um quadro abrangente das alegações”, garantindo que “as vítimas continuam no centro da investigação”.