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(A) :: "Quero viver da moda, mas temos que ser obcecados". Francisca Nabinho estreia coleção de filigrana

"Quero viver da moda, mas temos que ser obcecados". Francisca Nabinho estreia coleção de filigrana

A designer de 26 anos assume a direção criativa na Joalharia do Carmo, lança a primeira coleção de joias, investe no conceito "dos pés à cabeça" e diz ser possível viver de moda de autor em Portugal.

Sâmia Fiates
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Inês Lacerda
photography

Na casa de Francisca Nabinho o despertador soa às 5h30, para garantir a pontualidade no trabalho. Mas a criadora de moda só vai pisar o atelier onde desenvolve as peças da sua marca em nome próprio após as 18h. Há alguns meses a sua rotina ficou ainda mais preenchida, ao assumir o cargo de diretora criativa na Joalharia do Carmo. A parceria começa a dar frutos este sábado, 13 de junho, quando ficam disponíveis as primeiras peças da nova coleção para pré-encomendas online.

O moodboard que compõe o seu gabinete vai de imagens dos Santos Populares a uma fotografia da sua “musa” Jane Birkin, passando por referências mais tradicionais da filigrana, entre fotografias e desenhos. Num dos rascunhos, vê-se o tracejado de uma peça criada para Maria Morango nos prémios Play, inspirada num alfinete de Amália. “Vivo isto de forma super intensa”, confidencia Francisca Nabinho ao Observador. A usar uma saia amarela da coleção Alegria, de outubro de 2025, que combina com uma camisa clássica azul, recebe-nos para uma conversa nos escritórios do grupo O Valor do Tempo, no Chiado. A empresa começou com a Fábrica do Pão, na Serra da Estrela, é dona de espaços como o Museu da Cerveja, criadora do pastel de bacalhau com Queijo Serra da Estrela DOP, e há mais de uma década vem comprando marcas tradicionais como a Comur, a Confeitaria Peixinho e o café A Brasileira, sendo a detentora desde 2021 da centenária joalharia especializada em filigrana certificada — peças feitas à mão com fios ultrafinos de até 0.22 milímetros de espessura.

“Propus uma colaboração para o desfile da ModaLisboa de março e acabou por correr muito bem”, conta-nos sobre o início dessa relação. “Estou aqui porque mandei e-mail para estar aqui. Fui eu que me propus a fazer isto”, destaca. “Ainda ontem recebi duas meninas no meu atelier e elas pediam-me conselhos e estivemos a falar um bocadinho. Elas é que me tinham mandado um e-mail, eu disse: ‘vocês fizeram muito bem, mandem e-mails para toda a gente e mais alguma, porque as oportunidades surgem assim”. No grupo, assume um papel global como criativa, apoiando também a comunicação da Joalharia do Carmo no mundo digital, mas fica disponível para dar “inputs para outras marcas, se me for pedido”.

Nesta coleção de estreia, Francisca Nabinho apresenta as peças que levou para a passerelle da ModaLisboa, como os ganchos, brincos e pulseiras com motivos de estrelas e laços. “É sempre uma produção pequena, cerca de 20 unidades por peça, porque é um trabalho feito à mão e vamos encomendando conforme o feedback do público”, explica a designer. Já as carteiras, “que levam semanas ou meses a encher”, estarão disponíveis apenas sob encomenda. “O approach com a filigrana é especial. Ela tem um aspeto muito tradicional e eu tinha receio de que as peças caíssem apenas nisso. Acho que consegui que o contemporâneo e o tradicional se abraçassem sem conflito. Consegui uma coesão entre algo feminino e contemporâneo com a técnica tradicional, e fui buscar muita inspiração ao espólio antigo da Joalharia do Carmo.”

Looks dos pés à cabeça

Aos 26 anos, a designer que começou no concurso Sangue Novo, na ModaLisboa, e agora integra a plataforma Workstation, garante que a marca própria continua a ser o objetivo principal — “nunca a tirarei do panorama” — mas vê o novo trabalho como uma oportunidade “entusiasmante” de aprender. “Tenho um universo muito particular que tento juntar ao tradicional e ao meu ADN, sem nunca fugir à herança e ao património da marca. É uma marca com muita história e é importante trabalhar a partir daí. Não para tirar essa herança e fazer algo totalmente novo, mas para trabalhar as joias de maneira diferente”, esclarece logo Francisca Nabinho, que diz que “no tradicional não se mexe: brincos princesa, arrecadas, brincos rainha, caramujos. Temos artesãos que trabalham diretamente com a joalharia desde o primeiro dia e são eles os responsáveis pelo tradicional. Nas inovações, eu dou o meu input criativo.”

Aliás, a designer diz que pede as opiniões dos artesãos depois de juntar os rascunhos e referências no esboço do produto final, o que define como um “trabalho conjunto com quem sabe melhor do que eu”. Agora, Francisca trabalha na criação das fardas que serão usadas pelo staff das lojas a partir de agosto. “Gosto de qualquer vertente criativa ligada à moda. São desafios que me apaixonam. Vivo para desenhar e criar, seja em campanhas, roupa, joias ou calçado. É uma sorte encontrar a nossa vocação.”

Apesar de não ter estudado ourivesaria, a ligação de Nabinho às joias já vem de anos. “Sempre me fascinou imenso a joalharia nos museus. Tirei História da Arte, e as artes decorativas foram das minhas cadeiras preferidas. Perdia-me na parte da joalharia do Victoria and Albert Museum. Nunca pensei seguir este caminho, mas o meu campo criativo sempre bebeu inspiração daí. Na minha primeira coleção na ModaLisboa, inseri peças em cerâmica feitas à mão porque sinto necessidade de deixar as coleções completas”.

Na última edição da ModaLisboa, além da parceria com a Joalharia do Carmo, apostou na confeção de sapatos ao lado da marca portuguesa Helena Mar. Agora, tenta acompanhar o “boom” que os modelos geraram online. “Fiz um post que chegou a 100 e tal mil pessoas, mensagens todos os dias a bombardearem-me, a perguntarem onde é que estão os sapatos, e eu não tive capacidade de acompanhar esse crescimento que houve”, conta, a garantir que está a produzir, mas “com muito cuidado”. “Consegui uma fábrica que me fez um valor muito simpático de quantidade, porque isso é muito complicado, são sempre quantidades enormes. Tive a sorte de conseguir uma fábrica que, muito simpaticamente, fez uma quantidade pequenina, e vamos testar”.

Lugar certo, hora certa e contacto certo

Sorte é uma palavra que se repete na forma como Francisca Nabinho descreve momentos da sua carreira. “Comecei a fazer produção de eventos de moda e assim a conhecer muitas pessoas do meio. Também foi muita sorte, obviamente: o lugar certo, a hora certa, o contacto certo. E por isso é que eu fiz a coleção Lucky, porque é verdade. Não é apenas o trabalho e a iniciativa que determinam o caminho. A aleatoriedade da vida, o sítio de onde tu vens, os acessos que tu tens à educação, à cultura, são muito determinantes no teu percurso. E, portanto, obviamente que venho com um lado de muito privilégio e acabei por me encontrar com as pessoas certas à hora certa”, reconhece. Contudo, na sua fala a criadora reflete também um percurso formado por decisões ponderadas e planeadas.

Filha do galerista Miguel Nabinho e da artista de desenho Cristina Lamas, e irmã da realizadora Salomé Lamas, Francisca cresceu num universo criativo. “Ia bebendo aqui e ali. Conheci muitos artistas, por causa da galeria, que trabalham de várias maneiras, e que são pessoas que vale a pena conhecer e conversar”, destaca Francisca. Tirou a licenciatura em História da Arte, aprendeu a tocar piano, e assume o interesse pela arte em geral, museus e livros, mas conta que desde criança “já desenhava roupas e fazia colagens em livros; sempre escrevi ‘Love Fashion’ na primeira página de todos os meus livros. Desde sempre fui obstinada por esse universo, influenciada pelos vestidos das princesas da Disney”, partilha, ao recordar uma “memória muito viva” da infância. “Estar sentada ao colo da minha avó com a revista espanhola Hola!, que tem os desfiles, e tínhamos duas modelos lado a lado e escolhíamos qual é a que gostávamos mais. Era uma coisa que me fascinava.”

Do percurso académico nas artes migrou para a moda naturalmente, especialmente depois do mestrado, quando fez um semestre em Nápoles e outro em Copenhaga, que conciliou com o estágio na marca The Garment. “Este estágio foi super determinante. Conheci pessoas que me deram imensos conselhos, foi uma grande imersão criativa numa cidade que é muito reconhecida também ao nível da sustentabilidade, que tem uma Fashion Week muito forte e trabalhei diretamente com uma marca que fazia Fashion Week. Tive uma chefe muito interessante e generosa. Depois também passei por vários sítios, trabalhei com várias pessoas e isso foi tudo alimentando a minha vontade de continuar.”

“Quero viver disto, quero que funcione”

Não é difícil identificar uma peça de Francisca Nabinho. Em março o Observador presenciou as Nabinho girls em peso no Pátio da Galé. Misturas de padrões, cores, saias e vestidos que destacam o aspeto feminino e o ar de fantasia da marca, que já assinala o seu ADN. “Estou aqui para fazer aquilo que eu gosto, não estou aqui para provar nada a ninguém. É um universo que foi muito doloroso para algumas pessoas e diz muito a outras, como é o meu caso. Não somos todos iguais, sei que é um estilo muito particular, mas neste momento é aquilo que eu gosto de fazer.” Questionada sobre se tem medo deste estilo perder a relevância com o tempo, a designer nega, e assume o desejo de continuar a criar roupas para as gerações mais jovens. “Obviamente que este universo que estamos a falar vai fazer uma viagem durante a minha carreira, não vai estar só preso a isto. Tento sempre evoluir e superar. Não quero representar só o público que envelhece comigo, e se calhar vou ter que ir falar com os miúdos de 20 e perceber o que é que se está a passar para ficar sempre atualizada. Não quero ser aquela pessoa estranha que está lá longe, mais velha, que não está a dizer nada às pessoas de 20 anos”.

Um estilo que nem sempre se reflete na sua forma pessoal de se vestir. “Tenho muita roupa colorida, mas depois, a forma como eu saio de casa é muito prática. Faço muita coisa que depois não me serve e que não me vai ficar bem porque é para um corpo específico. E não tenho ainda stock para estar a usar as coisas da minha marca, tipo para de repente ter o L e poder ir lá buscar o M ou o que eu quero vestir naquele dia”, justifica.

De passo em passo, a jovem criadora estabelece o seu nome no cenário nacional. Atualmente Francisca vai para o atelier (que funciona num espaço “emprestado”) depois de sair do escritório, e fica lá até aproximadamente às 21h. Tem três costureiras — que trabalham fora — e está “em conversas” com uma fábrica. Trabalha essencialmente por medida. “Os meus vestidos mais caros custam quase 600 euros e quero que tenham qualidade e fiquem perfeitos no corpo. Tiramos medidas e adaptamos ao gosto do cliente”, explica a designer, que considera importantes aspetos como “o tempo da peça e a sua durabilidade”, destacando a sustentabilidade como um dos pilares do seu trabalho.

Nesse sentido, trabalhar exclusivamente com o slow fashion é “um luxo” do momento. “Quero viver disto, quero que funcione. Neste momento dou-me ao luxo de fazer assim, e quero que se prolongue porque sinto que ainda não tenho capacidade para transformar isto numa coisa maior. Mas quero que a marca cresça de maneira sustentável”, destaca. Para já, tem alguns modelos prontos a vestir na House of Curated, e assume que “não tem problema” em criar peças mais simples, como T-shirts, para tornar a marca rentável. “Peças mais simples muitas vezes alimentam as outras mais caras. Já vendi muitas camisolas e t-shirts de algodão”, diz a jovem criadora, que defende que sim, é possível viver de moda de autor em Portugal. “Mas temos que viver para a moda. Temos que ser obcecados. Acordo a pensar nisto, deito-me a pensar nisto. Às vezes pode não ser muito saudável, mas eu acho que é a única forma. Obviamente ter amigos, família e uma vida funcional e normal, mas temos que trabalhar muito e ir à procura das coisas.”