Título: Divertimentos
Autora: Luísa Costa Gomes
Ilustrações: Jorge Nesbitt
Editor: Tinta da China
Preço: 14,90 €

Como escritora de alto gabarito que é, Luísa Costa Gomes desafia-se a si mesma em géneros literários os mais variados, do romance, do conto e da crónica à dramaturgia e ao libretismo, além da tradução, e tem, por isso, com a linguagem e as palavras enquanto vocabulário uma conversa essencial, em que jogos verbais, sonoridades e musicalidade estão presentes, numa tradição antiga e actualizada. Divertimento é também um imaginoso modo musical criado no século XVIII, que creio o título evoca discretamente. Importa saber que este pequeno livro com 22 “poemas” retoma em linha recta aqueloutro publicado há 20 anos com o desafiante e explícito título Trava-Línguas, contendo 16 pequenas histórias, também ele com bichos e alguns humanos. Lê-los em contínuo parece bastante recomendável, por todas as razões. “História da burra torta” é expoente máximo desse divertimento linguístico e da destreza autoral aí posta à prova, diria mesmo o seu pilatos matinal para manter activados todos os recursos de escrita, e que ao mesmo tempo implica, abraça o leitor e lhe exige competência. Vale a pena relê-la: “Esta burra torta trota. | Trota trota a burra torta | prò quintal da cabra parda. | Trota a burra torta trota, | trinca a murta, a murta brota | na horta da cabra parda. | Diz a cabra para a burra: | — Mordes murta, burra torta? | — Mordo muita cabra parda. | Trota a burra trota torta | atrás da cabra na horta. | Pisa a murta e torta trota. | Zurra a burra, | zurra, zurra. | Trinca a cabra e a murta murcha” (pp. 16-17).
Luísa Costa Gomes retoma em Divertimentos a sua atenção a palavras caídas em desuso, um pouco esquisitas talvez mas sonoramente interessantes. Ajoujada, alapar, baratinada, esmerilar, estropício, fanico, fileirada, grasnar, motejar, obnóxio, zoada, em Divertimentos, repercutem algumas outras de Trava-Línguas, tais como héctico, pipilar, plexo, nafagago, rapace. A dada altura, combina “algumas das palavras mais feias que encontrei no dicionário” na composição Furúnculo (p. 50), creio que para nos lembrar — e por ser mesmo no fim do livro, poderá ter querido ficar como convite, a quem lê, para explorações desse tipo — que o inteiro léxico é o grande, prodigioso campo aberto em que comunicamos todos, escritores e leitores, e o dicionário muito mais do que o tira-teimas ocasional que acumula pó numa estante. Essa descoberta do sentido das palavras e de como podemos brincar e imaginar ou inventar a partir delas não é coisa só para gente de palmo e meio (nem o livro é infanto-juvenil strito sensu), porém, quando precoce, um exercício deste tipo é assaz recomendável num ambiente de demasiado ruído mediático e esmagamento do espectro vocabular de uso corrente ou comum. Três histórias do quotidiano piscam o olho a petizes e jovens de hoje — “A perda”, “Aprender a ver”, “Sacola da escola” —, Divertimentos não perde de vista outras épocas e modos de estar, como sucede em “Tarantula e Tarantela” (pp. 14-15) e “Barbuda” (pp. 16-17), todavia o que sobressai mais é a defesa da liberdade individual inegociável, que espreita nestas páginas e assume finalidade ética ou moral em linhas como estas: “Não tem mistério nenhum: | Cada qual é como cada um” (p. 28), “Quem gosta de quem e do quê | Ninguém tem nada com isso” (p. 11), “Cada dia tem seu ser” (p. 47) e “Que eu não gosto de carreiros | Nem de grandes multidões” (p. 13).
Luísa Costa Gomes tão-pouco esquece a sua condição de escritora no — divertido, pois claro, ao menos isso!.. — “A gralha” (pp. 22-23: “Tudo se entaramela | Não se percebe nada! […] De que falamos então? | De ave, erro, zoada? | Diz-me tu, que tanta gralha | Já me traz baratinada!”).
Jorge Nesbitt, que além de ter ilustrado Trava-Línguas em 2006, três anos depois o fez num estilo diverso em O Mundo É Redondo, de Gertrude Stein, traduzido por Luísa Costa Gomes, retoma nestes Divertimentos o que havia feito em 2013-14 com A Noite de Natal e Histórias da Terra e do Mar de Sophia de Mello Breyner Andresen, afastando-se dos modos e modelos que usou em colaborações recentes com a artista plástica Ana Jotta — figuras desenhadas com traços caligráficos de cor diferente que se cruzam. Afinal, a solução certa para parcerias deste tipo.