Há, obviamente, diferenças importantes entre os dois. Mas também existem semelhanças, e todas más. Começando com as diferenças, uma das mais importantes foi a posição de ambos perante o ataque da Rússia à Ucrânia. Orbán colocou-se do lado de Putin. Sánchez apoia a Ucrânia desde o início da guerra. Apesar de estar no lado certo, não se julgue que é um sinal do amor do PM espanhol à democracia. Sánchez defende que a União Europeia, neste momento, deve estar mais próxima da China do que dos Estados Unidos. Aliás, a relação de Sánchez com democracias e ditaduras deixa muito a desejar. Olha para Trump como uma ameaça à democracia, mas foi sempre próximo do regime de Maduro. Os ditadores, Maduro e Xi, não são alternativas a quem ameaça a democracia. Nisso, Orbán era mais consistente: estava ao lado de Putin e de Xi, e foi sempre amigo de Trump.
Mas mesmo nestas diferenças, havia um ponto em comum entre Sánchez e Orbán. Ambos defendiam a paz. Orbán era contra a posição da União Europeia em relação à Ucrânia porque contribuía para a guerra. Orbán queria uma “paz russa”, mas queria a paz. Sánchez também afirma que é contra a guerra no Irão, e não contra os Estados Unidos. Mas acaba a defender, neste momento, uma “paz iraniana”, que mantenha o regime no poder e o Hezbollah como um poder militar no interior do Líbano.
Há outra diferença muito importante entre Sánchez e Orbán. Sánchez pretende inundar a Espanha de imigrantes, e legaliza-os em pequenos grupos de meio milhão. Orbán manteve a Hungria fechada a imigrantes. A prazo, a política de Sánchez vai causar problemas muito maiores do que a de Orbán. Em matérias de costumes, Orbán foi sempre muito mais conservador do que Sánchez. Ambas as posições são legítimas.
Mas as semelhanças entre Sánchez e Orbán são o lado mais perturbador da comparação. Podemos começar com a corrupção. Na Hungria, o exercício do poder por Orbán beneficiou e enriqueceu amigos e os militantes do seu partido. Na Espanha governada pelo PSOE de Sánchez passa-se o mesmo. Os seus familiares próximos, os seus amigos e militantes do seu partido beneficiam pessoalmente do poder do PSOE e enriquecem desse modo. O Fidetz, na Hungria, e o PSOE, em Espanha, tornaram-se máquinas de corrupção.
O desrespeito pelo estado de direito é outro ponto comum entre Orbán e Sánchez. No exercício das suas funções de PM, Orbán tentou controlar o poder judicial. O PSOE faz o mesmo em Espanha. Como se tem percebido nas últimas semanas, o PSOE tem uma estratégia de condicionar as investigações judiciais aos seus militantes e aos familiares de Sánchez. Além disso, recorre a truques reles para descredibilizar os juízes. Os consulados de Orbán e de Sánchez constituíram e constituem dois dos maiores exemplos, na União Europeia, de ataques ao estado de direito por governos eleitos democraticamente.
Muitos afirmavam que Orbán tinha poder absoluto. Afinal, não passava de um exagero. Quem tem poder absoluto, não perde eleições com uma maioria de 2/3 contra. Orbán tentou fazer tudo para ficar no poder. Mas Sánchez também o faz. Desde “gerigonças” com antigos grupos terroristas, e anti-democráticos, como o EH Bildu do País Basco (a ETA “civil”), até alianças com partidos que querem destruir a Espanha, cuja constituição Sánchez jurou defender. A última manobra foi a legalização de centenas de milhares de imigrantes, o que é uma forma cínica de compra de votos.
Esperemos que haja uma última semelhança. Orbán fez tudo para continuar no poder, mas perdeu as eleições. Tal como aconteceu este ano na Hungria, seria muito salutar para Espanha que houvesse nas próximas eleições um despertar democrático, que afaste do poder um governo corrupto, que ameaça o estado de direito e a separação de poderes, e desrespeita a constituição espanhola.